Seminários “A ciência tal qual se faz” – uma experiência é ou não crucial?

Neste seminário discutimos o texto “Uma experiência é ou não crucial? E porquê?”, de Marcello Pera (1943-), filósofo, historiador da ciência e ex-presidente do senado italiano (2001-2006), onde atuou de 1996 a 2013. Há vários vídeos dele no nosso canal do youtube, dentre eles o seguinte:

Em seu texto, Pera (1999, p. 329-341) questiona a noção de “experiência crucial”, tão cara a Popper e Lakatos, por meio da controvérsia Galvani-Volta no final do século XVIII em torno do que Pera chamou de “rã ambígua”. Como veremos, não é a rã que é ambígua, e sim as interpretações de Galvani e Volta sobre a eletricidade.

Pera nos conta que a primeira experiência de Galvani foi feita com várias rãs, cujos músculos e nervos “eram postos em contacto com um arco mono-metálico ou bi-metálico” (p. 331). Como todas se contraíam, ele chegou à conclusão de que existia eletricidade animal. A rã seria um condensador de eletricidade, como a garrafa de Leyden. Há que se lembrar também suas premissas: 1) “os metais são apenas condutores de electricidade”; 2) “os metais não podem ter desequilíbrio eléctrico”; e 3) “os metais não recebem electricidade de não-condutores” (ibid.).

As objeções de Volta foram decorrentes de sua suspeita, depois confirmada, de que “os metais não eram apenas condutores, mas igualmente motores de electricidade” (p. 333), modificando a premissa 1 acima. Para conseguir as contrações, um desequilíbrio do fluido elétrico, era preciso então usar metais heterogêneos em contato. Isso significava que não havia eletricidade animal, e sim artificial por contato.

Pera chama a atenção para as diferentes teorias interpretativas de Galvani e Volta: o primeiro usa o ponto de vista biológico (usa a física existente, entende a rã como condensador vivo, e os nervos e músculos como parte do animal); o segundo, físico (propõe uma nova lei da física, entende a rã como uma bateria, e os nervos e músculos como partes de um aparelho). “Os dois opositores estão a olhar para a mesma coisa e a ver objectos diferentes.” (p. 334).

Em resposta a Volta, Galvani propõe uma segunda experiência, encontrando contrações mesmo com a presença de um arco homogêneo, e até sem o arco metálico, o que, para ele, “refutava a teoria da electricidade por contacto de Volta, e confirmava a sua própria teoria da electricidade animal” (p. 336). Depois de uma tentativa desesperada de criticar as condições experimentais usadas, Volta desafia Galvani (sobre encontrar contrações sem arco metálico) e acaba transformando essa experiência numa experiência crucial, ainda que não logicamente (Volta poderia salvar sua teoria numa perspectiva puramente lógica), e sim dialeticamente (por conta do desafio, ele não poderia negar o resultado encontrado).

Esse caso, além de explicitar o caráter dialético da experiência crucial (ela ocorre no interior de um debate), revela também que a ciência não é um jogo de dois jogadores (teoria e experimento), e sim de três (teoria, experimento e comunidade). Segundo Pera, “não há regras para além daquelas que governam os debates numa comunidade” (p. 339).

Interessante é que a história não terminou por aí e ambos ainda participaram de mais um round. Não entrarei em mais detalhes, mas, apesar de Volta ter inventado a pilha no processo, o fato é que a situação ficou indecidível, já que “as duas teorias não parecem estar em oposição”, sendo “empiricamente equivalentes” (p. 340). Vê-se, com isso, que a experiência não é um árbitro imparcial, é apenas um dos fatores do debate.

Pera termina seu texto de maneira divertida: “A minha rã concluiria então que os metodologistas e os realistas são demasiado optimistas e confiantes. Uma vingança, disse-me ela, por ter, tantas vezes, sido colocada na cadeira eléctrica.” (p. 341)

Referência:

PERA, Marcello. Uma experiência é ou não crucial? E porquê?. In: GIL, Fernando (Org.). A ciência tal qual se faz. Tradução de Paulo Tunhas. Lisboa: Ed. João Sá da Costa, 1999.

 

Uma resposta

  1. Muito bom!

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