Seminários “A ciência tal qual se faz” – fatos e hipóteses

Em seminário de dezembro/2015, discutimos o texto “Factos e hipóteses” de um velho conhecido nosso, o filósofo Ian Hacking (clique aqui para ver o registro dos nossos seminários sobre o livro Representar e intervir, de Ian Hacking, que ocorreram em 2013), cujos vídeos já foram postados aqui neste blog e também se encontram no nosso canal do Youtube. De lá para cá, mais alguns vídeos apareceram na rede, entre eles o seguinte:

A Francine preparou o seguinte resumo do artigo:

O décimo terceiro capítulo de “A ciência tal qual se faz” foi destinado à análise de dois dos verbetes mais incluídos no pacote da designação científica nos últimos quatro séculos: “fatos” e “hipóteses”. A escolha do autor a quem se destinou o desafio dificilmente teria sido mais feliz. Ian Hacking, filósofo canadense nascido em 1936, é um significativo representante dos Science Studies, tendo publicado, entre outros, o livro Representar e intervir, que, essencialmente, diz respeito à relação entre os esforços dos cientistas e a resistência da natureza.

Logo no início do texto o autor esclarece que da parte do pensamento filosófico que se debruçou sobre as ciências ao longo de vários séculos, a questão da relação entre fatos e hipóteses era a imagem (distorcida) da relação mencionada anteriormente. Em suas palavras: “As coisas resumiam-se, para usar a fraseologia sexista original, a ‘o Homem propõe, a Natureza dispõe’. Isto é, as pessoas propõem hipóteses, mas os factos da natureza determinam quais as hipóteses que são aceitáveis” (p. 269). À medida que progredimos na leitura do texto, essa máxima se dissolve e dissipa.

Toda a argumentação conduzida por Hacking gira em torno do “Problema da Dolomite”. Problema velho e novo que possui – como diz o autor – muitas virtudes: ele nos permite rever a relação entre a produção científica e interesses, ilustra o fato de que a constituição de redes é imprescindível para a sobrevivência de um projeto de investigação (e dos próprios investigadores ao longo da história), apresenta encontros inesperados entre as ciências, demonstra como a concorrência de novas explicações com antigas teses gerais (muito corroboradas) é difícil e quase impraticável…

Mas, afinal, em que sentido o “Problema da Dolomite” é tratado, para revelar tantos fatores favoráveis à reflexão do funcionamento da ciência?

Na atual acepção, a dolomite é um mineral impenetrável, formado sobretudo por carbonado de cálcio e magnésio, que é encontrado abundantemente em algumas regiões da Terra. Tendo em vista sua formação processual, acredita-se que sítios de dolomite tenham o potencial de esconder bolsões de petróleo, armazenados ao longo de milhares de anos nos sulcos existentes entre suas concentrações.

Esta última característica é a que, evidentemente, mobiliza os recursos para a realização de pesquisas sobre a dolomite em todo o mundo. Do ponto de vista dos pesquisadores, entretanto, há a hipótese de que entender a formação deste mineral possa ser a chave para se explicar a origem da vida, e até mesmo para se descobrir se há ou se houve vida em outros planetas.

Para promover as interconexões argumentativas envolvidas no caso, Ian Hackin começa a seduzir o leitor a partir da apresentação de um caso particular de pesquisa, com o qual ele teve contato pessoalmente. Trata-se de um trabalho desenvolvido pelos pesquisadores Judith McKensie e Crisogno Vasconcelos em uma lagoa salgada do Brasil: a Lagoa Vermelha, no Rio de Janeiro.

McKensie e Vasconcelos investigavam o potencial para a formação da dolomite nesta região, integrando conhecimentos da sedimentologia, geologia, geofísica e geoquímica. O projeto envolvia tornar “fato” a “hipótese” de que a dolomite seria formada mediante a ação de nanobactérias (de magnitude 10-9) sobre calcário, em condições especiais.

Ocorre que, logo que a origem da dolomite começou a ser averiguada – ao final do século XVIII, pelo italiano Giovanni Arduino –, tornou-se objeto de diversas controvérsias.

Para começar, apesar de Giovanni Arduino ter sido o primeiro a distinguir a dolomite e propor uma hipótese sobre seu processo de formação (1779), o próprio nome do mineral foi atribuído em homenagem a Déodat de Dolomieu que identificou a dolomite apenas 12 anos mais tarde, e endossou uma descrição fornecida por Horace-Bénédict de Saussure.

Ocorre também que a hipótese de Arduíno, segundo a qual a dolomite é um composto de magnésio, tem sido confirmada pelas atuais pesquisas sobre o mineral, enquanto que a hipótese de Saussure – que descrevia a dolomite como um composto de alumínio (e que triunfou naquele contexto) –, é atualmente dada como incorreta.

Hacking aproveita esse quadro para ilustrar a tese da simetria da escola de Edimburgo. Nas palavras do autor, “os dois casos parecem simétricos. […]. A explicação do facto de Arduíno ter chegado às suas conclusões corretas será de uma espécie muito semelhante à explicação do facto de Saussure ter chegado às suas conclusões erradas” (p. 283).

Entretanto, o porquê de a hipótese de Dolomieu ter predominado sobre a de Arduíno pode ser explicitado mediante uma outra teoria, especialmente cara aos Science Studies: a da construção de redes científicas de Bruno Latour (ver Ciência em Ação). Novamente utilizando as palavras de Hacking (p. 283):

“Quanto mais se pertence a uma rede, mais verosímil é que a nossa crença se torne popular e se mantenha. Dolomieu pertencia a uma rede óptima, enquanto cientista de Napoleão, e pertencia àquilo que era então o melhor centro de mineralogia do mundo, a École des Mines. Isso não explica porque é que Saussure e Dolomieu pensavam que a dolomite era um composto de alumínio, mas ajuda a explicar porque é que a sua doutrina foi largamente aceite. Arduino não pertencia a nenhuma rede.”

Então por que a hipótese de Arduino é atualmente corroborada, não tendo se perdido no tempo? Para Hacking, a resposta a essa questão pode ser descrita em termos lakatosianos. Houve a manutenção de um núcleo protetor em torno das afirmativas centrais de Arduíno, o que tornou viável o caráter progressivo de seu programa de pesquisa através dos séculos. Judith McKensie e Crisogno Vasconcelos são contribuintes atuais dessa progressão. O programa de Dolomieu não contou com o mesmo movimento.

É notável: o que se encontra sobre os caminhos entre os quais transitam as relações que fazem com que as hipóteses sobrevivam ou definhem são jogos de interesses, formações de redes, controvérsias, acontecimentos favoráveis ou desfavoráveis…  Os fatos podem ser encontrados apenas como invenções bem-sucedidas que se convertem em “caixas pretas” (ver Latour – Ciência e Ação). A natureza não “dispõe”, ela no máximo aparenta (e as aparências são mutáveis).

Mas, para complicar, o “Problema da Dolomite” vai além da tentativa de explicação do mecanismo de formação da dolomite. Ele também envolve a necessidade de dissolução da aparente contradição entre o comportamento desta formação e o uniformitarismo (teoria formulada por Lyel, segundo a qual os princípios implicados na transformação atual da crosta terrestre são os mesmos presentes ao longo de todo o tempo geológico).

Vamos explicar melhor esta questão: Em primeiro lugar, o uniformitarismo de Lyel é um pilar fundamental da geologia. Dispensá-lo seria problemático, pois ameaçaria suas ramificações teóricas. Ocorre que, aparentemente, a formação da dolomite não tem sido uniforme ao longo dos últimos milhões de anos. “O ponto mais saliente é que a dolomite é comum no registro das rochas antigas, mas rara nas rochas recentes” (p. 274). Também é aparente que há influência humana no decréscimo desta formação, já que a dolomite parece continuar se formando apenas nas regiões mais remotas e inóspitas da Terra.

É evidente que o cientista empenhado no “Problema da Dolomite” tem muito mais para lhe ocupar, além da “resistência da natureza”.

O texto de Hacking não é linear. Ele se contorce sobre todas estas questões de maneira a nos impingir a noção do quanto elas são entrelaçadas. Por essa razão, resenhar este capítulo é como encontrar o início da linha em um círculo. Resta sempre a sensação de que se começou no ponto errado.

A arte do autor reside exatamente nesse ponto. Como digerir as aparições simplistas dos termos “hipóteses” e “fatos” na literatura científica após visitar produções como a de Hacking?

Status de recomendação da leitura: urgente.

Para obter mais informações sobre os pesquisadores Judith McKensie e Crisogno Vasconcelos, ver:

https://www.researchgate.net/profile/Crisogono_Vasconcelos

http://archenv.geo.uu.nl/committee_details.htm

http://goldschmidt.info/2013/abstracts/abstractView?abstractId=5883

 

Referência bibliográfica:

HACKING, Ian. Factos e hipóteses. In: GIL, Fernando (Coord.). A ciência tal qual se faz. Lisboa: Edições João Sá da Costa, 1999, p. 269-285. (Coleção Humanismo e Ciência).

 

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