Arquivos de Tag: Jung

Jung, leitor de Wilhelm

Jung_Wilhelm

O quinto capítulo do livro O espírito na arte e na ciência, de Jung, chama-se “Em memória de Richard Wilhelm”. Escrito em 1930 para uma palestra em memória de seu amigo, carinhosamento chamado por ele de “espírito que lançou uma ponte entre Oriente e Ocidente” (JUNG, 2011, p. 55) ou “o mensageiro da China” (ibid., p. 63), que havia morrido poucos dias antes.

Richard Wilhelm (1873-1930) foi um importante sinólogo alemão da primeira metade do século XX. Entre vários outros trabalhos, destaca-se a sua transcriação do I Ching do chinês para o alemão, que, nos anos 1980, serviu de base para a nossa tradução brasileira, feita por Alayde Mutzenbecher e Gustavo Alberto Corrêa Pinto, e publicada pela Editora Pensamento. Até hoje, o trabalho de Wilhelm é referência para traduções em outras línguas.

igingiching

O prefácio do Jung que aparece na edição brasileira foi escrito em 1949 e não se encontra na edição alemã, e sim na inglesa de 1972. Nesse prefácio, entre vários elogios à obra de seu amigo Richard Wilhelm, Jung repete a crítica à única tradução inglesa disponível até então (de Legge), dizendo que ela “pouco contribuiu para tornar a obra mais acessível à mente ocidental” (JUNG, 1984, p. 15), ao contrário da tradução de Wilhelm: “A apreensão do sentido vivo do texto dá à sua versão do I Ching uma profundidade de perspectiva que um conhecimento exclusivamente acadêmico da filosofia chinesa nunca poderia proporcionar” (ibid.). Vale lembrar que Wilhelm viveu 25 anos na China, onde foi iniciado na filosofia e no uso do I Ching, que teve a oportunidade de praticar por décadas. É por isso que no texto in memoriam, Jung destaca a expertise de Wilhelm não só pelo seu “cuidadoso trabalho de tradução, como também pela sua experiência pessoal” (JUNG, 2011, p. 57).

É interessante notar que Jung começa o seu texto falando justamente da questão da expertise, mostrando que a amizade com Wilhelm brotou “além das fronteiras acadêmicas” (ibid., p. 55), pois, apesar de especialistas em áreas diferentes, ambos nunca se fecharam em suas especialidades. Ele ainda destaca o caráter masculino do especialista e o feminino da tradução (p. 56), e que, ao juntar essas duas coisas, WIlhelm nos tornou “participantes do espírito oriental” (p. 57). Mais adiante no texto ele ainda desabafa: “As pessoas estão cansadas da especialização científica e do intelectualismo racional. […] Essa busca ameaça erroneamente um público anônimo, porém extenso.” (p. 60).

Jung destaca a aparente contradição do I Ching, a obra máxima da ciência chinesa, com a visão científica ocidental e diz que se trata basicamente de princípios diferentes:

A ciência do I Ching não se baseia no princípio da causalidade, mas em outro princípio, até o momento sem nome por não existir entre nós -, ao qual chamei experimentalmente de princípio da sincronicidade. (p. 58)

O princípio da sincronicidade vai ser finalmente explicitado por ele em seus textos sobre o assunto que vão aparecer juntos no livro Sincronicidade, de 1952: é “um princípio de conexões acausais” (JUNG, 2014, p. 11) para dar conta das chamadas “coincidências significativas” que não encontram explicação na causalidade.

Ele faz uma distinção entre acasos causais, mas de causa ainda desconhecida, e acasos acausais, sobretudo aqueles serializados, tendo em vista que não faz sentido falar em sequências de acasos, já que essa regularidade pressupõe uma causalidade, uma probabilidade. O problema é quando essa frequência é maior do que a probabilidade (p. 15-18). Nesse caso, não se pode mais usar o conceito de acaso. Por meio de uma série de exemplos experimentais, ele formula a seguinte distinção: a causalidade pressupõe corpos em movimento, ou seja, tempo e espaço; mas há fenômenos que independem de tempo e espaço, portanto acausais, que também precisam de uma explicação (p. 26-27).

Emprego, pois, aqui, o conceito geral de sincronicidade, no sentido especial de coincidência, no tempo, de dois ou vários eventos, sem relação causal, mas com o mesmo conteúdo significativo, em contraste com “sincronismo” cujo significado é apenas o de ocorrência simultânea de dois fenômenos. (p. 35)

De volta ao texto sobre Wilhelm e o I Ching, Jung diz que se trata de “uma forma de correlação totalmente diferente […] [que] parecia basear-se essencialmente na relativa simultaneidade dos eventos […]; por exemplo, na ocorrência simultânea de pensamentos, símbolos ou estados psíquicos similares.” (JUNG, 2011, p. 58)

A partir daí, Jung faz uma reflexão sobre a astrologia, que, apesar de longa, acho pertinente destacar na íntegra (os itálicos são meus):

A astrologia seria considerada como um exemplo mais abrangente de sincronicidade, se ela apresentasse resultados universalmente seguros. Existem, entretanto, alguns fatos comprovados por ampla estatística, que tornam a astrologia digna de questionamento filosófico (sem dúvida, seu valor psicológico é inexorável, pois representa a soma de todo o conhecimento psicológico da antiguidade).

A possibilidade de se reconstruir o caráter de uma pessoa, a partir do mapa astral na hora de seu nascimento, comprova a relativa validade da astrologia. Lembremo-nos, entretanto, de que o mapa astral não depende absolutamente da constelação astronômica real, mas é baseado num sistema de tempo arbitrário, puramente conceitual. Em decorrência da precessão dos equinócios, o ponto da primavera há muito se deslocou astronomicamente de zero graus de áries, de forma que o zodíaco astrológico, a partir do qual são calculados os horóscopos, não corresponde de maneira alguma ao zodíaco celeste. Se considerarmos a existência de diagnósticos astrológicos corretos, estes sem dúvida não se baseiam nas influências dos astros, mas em nossas hipotéticas qualidades do tempo. Em outras palavras, o que nasce ou é criado num dado momento adquire as qualidades deste momento. (ibid., p. 58-9)

Voltando ao I Ching, Jung propõe que o hexagrama seja equivalente ao momento. A manipulação de varetas ou moedas é do tipo causal, mas elas “caem conforme se apresenta o momento […] ao acaso” (p. 59). Ele ainda complementa que não pretende validar os enunciados do I Ching, pois os toma como premissas, e que vai se ocupar “apenas com o fato assombroso de que a qualitas occulta (qualidade oculta) do momento, expressa através do hexagrama, tornou-se legível.” (ibid.). Na comparação com a astrologia, temos o seguinte:

Trata-se de uma correlação de acontecimentos não só análoga à da astrologia, como também da natureza similar. O nascimento corresponde às varetas caídas; a constelação do nascimento, ao hexagrama, e a interpretação astrológica refere-se ao texto indicado pelo hexagrama. (ibid.)

Em seu livro Sincronicidade, Jung revê os antecedentes do seu conceito de sincronicidade na história da filosofia, mas nesse texto em memória de Wilhelm temos um complemento que é a cereja do bolo. Ele diz que o pensamento baseado na sincronicidade :

esteve ausente da filosofia desde a época de Heráclito, reaparecendo somente como eco distante em Leibiniz […], mas subsistiu na penumbra da especulação astrológica. (p. 59-60)

Muito preocupado com a assimilação cultural acrítica do Oriente pelos “mendigos espirituais” (p. 60) do Ocidente, Jung afirma:

Nosso caminho começa em nossa realidade […]. Assim como ele traduziu os tesouros espirituais do Oriente para uma visão ocidental, devemos transpor este sentido [tradução de Wilhelm para Tao] para a vida. […] Entretanto, o Tao não se realiza por palavras ou bons ensinamentos. (ibid.)

E ainda diz que, assim como “o espírito oriental avançou sobre Roma” (p. 61) com seus “fios espirituais […] fazendo brotar um mundo novo a partir das ruínas do Império Romano” (p. 62) após a subjugação do Oriente Médio, a mesma coisa acontece agora quando:

[A] ciência e a técnica, o materialismo e a avidez ocidentais invadiram a China […]. O Oriente penetra implacavelmente por todos os poros […]. O emaranhado babilônico do espírito ocidental produziu uma tal desorientação, que todos anseiam por verdades mais simples ou, pelo menos, por ideias que falem não somente ao intelecto, como também ao coração. (p. 61-2)

Wilhelm, como os gnósticos andarilhos de outrora, é um desses tecelões de fios espirituais ou semeadores de novos mundos. Para realizar a sua tarefa, deixou de lado a consciência ocidental com seu racionalismo europeu e cedeu “à natureza serena e universal do Oriente […] [e] à simplicidade e amplitude da China” (p. 63).

Antes de terminar o texto, Jung ainda destaca o impacto benéfico da convivência com seu amigo, mas se lamenta de tê-lo conhecido só no fim de sua vida, depois de Wilhelm já ter concluído sua missão de grande desenvolvimento espiritual e, portanto, segundo a lei da enantiodromia (dos fluxos contrários, do yin/yang), estar às voltas com sacrifício, doença e morte.

Referências:

JUNG, Carl Gustav. Prefácio. In: WILHELM, Richard. I Ching, o livro das mutações. Tradução de Alayde Mutzenbecher e Gustavo Alberto Corrêa Pinto. São Paulo: Editora Pensamento, 1984, p. 15-26.

JUNG, Carl Gustav. Em memória de Richard Wilhelm. In: O espírito na arte e na ciência. Tradução de Ruben e Inês Bianchi. Petrópolis/Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2011, p. 55-64.

JUNG, Carl Gustav. Sincronicidade. Tradução Mateus Rocha. Petrópolis: Editora Vozes, 2014.

Jung, leitor de Freud

Os capítulos 3 e 4 do livro O espírito na arte e na ciência, de Jung, são dedicados a Freud. O primeiro, publicado em 1932, chama-se “Sigmund Freud, um fenômeno histórico-cultural”; e o segundo, publicado logo depois da morte de Freud, chama-se “Sigmund Freud (1939)”.

Continuar Lendo →

Jung, leitor de Paracelso

O primeiro capítulo de O espírito na arte e na ciência, de Jung, se chama “Paracelso”, e é uma palestra proferida em 1929. Para caracterizar seu sujeito de estudo, Jung começa falando do mapa astral de Paracelso (1493-1541), nascido com o Sol em Escorpião, que é regido por Marte: “Paracelso não desmentiu esta natividade” (p. 9): tornou-se médico e uma pessoa deveras briguenta.

Continuar Lendo →

Em tempos de pandemia: civilização em transição

Nesta semana iniciaremos uma nova atividade: Seminários Jung. Interesse recente do grupo, Jung nos atravessou no ano passado com a sua sincronicidade e tem nos inspirado deveras. Foi difícil escolher um texto para começar esse mergulho na obra dele, mas chegamos lá. Essa nova atividade se insere no nosso projeto de pesquisa “Ciência e arte na perspectiva dos science studies”.

Roda de Conversa: Jung e a sincronicidade

Esta semana receberemos o Raul e o Walter, nossos queridos analistas junguianos, para bater um papo sobre Jung e a sincronicidade. Clique aqui para ver o livro Sincronicidade de Jung.