Mais sobre a autobiografia de Darwin

Texto do Pedro:

Darwin por Darwin

Todos nós conhecemos Darwin, já ouvimos seu nome, sabemos o que ele defendia, vivemos seu legado. Isso por si só já mantém vivo um homem que nos deixou há mais de 130 anos.

Mas será que o conhecemos mesmo? E mais importante, será que temos como conhecer? Afinal de contas, estamos falando de alguém que já se foi há muito tempo, alguém que viveu antes da mídia gravada. Será que material suficiente sobreviveu às décadas para que hoje possamos desvendar o quase mítico naturalista pai de vários campos da ciência contemporânea?

Para nossa sorte, Darwin era muito prolífico, tanto em trabalhos formais quanto informais. Além dos vários livros e artigos publicados, ele mantinha uma vasta correspondência e diversos diários, listas e notas. Grande parte dos escritos de Darwin sobreviveu e já foram republicados (alguns diversas vezes) ao longo dos anos, assim como disponibilizados digitalmente. Essa imensa quantidade de dados pode e deve ser analisada para que possamos reconstruir a história desse naturalista e de suas ideias, mas um de seus textos continua pouco mencionado atualmente, sua autobiografia.

O primeiro registro autobiográfico de Darwin é datado de 1838, aos 29 anos. Este manuscrito de cerca de quatro páginas é composto por diversas lembranças fracamente conectadas entre si entre 1813 a 1820. Darwin comenta de sua memória mais antiga e as mais marcantes de sua infância.

De fato, as partes mais interessantes nesse curto texto (quase lista) de lembranças são as referências à sua mãe, Susannah, falecida em 1817, e de seu gosto já quando criança pela história natural. Darwin menciona sua mãe brevemente, mas tem poucas lembranças dela e não demonstra ter sentido um grande luto, embora lembre-se de seu pai chorando logo após a morte dela. Fica evidente o quanto Darwin gostava de colecionar minerais e rochas, ver pássaros e jardinagem. Segundo ele mesmo, “eu nasci um naturalista”.

Darwin só iniciou um novo projeto autobiográfico em 1876. Segundo o autor, após o pedido de um editor alemão para que ele escrevesse suas lembranças do desenvolvimento de sua mente e caráter, e uma breve autobiografia, ele considerou que a tentativa o entreteria e que quaisquer frutos resultantes seriam de interesse para as futuras gerações de sua família. Darwin afirma: “Eu sei que me interessaria enormemente em ler mesmo que um curto e parco esboço da mente de meu avô escrito por ele mesmo, no que ele pensava, fazia e como trabalhava.”(DARWIN, 1959, p. 21)

Darwin terminou o texto principal em agosto de 1876 e seguiu adicionando partes conforme se lembrava pelo resto de sua vida. O resultado final é um texto em movimento, que acompanha a mente de Darwin do começo até o final de sua vida, e por isso muito fácil de ser mal interpretado se não lido do começo ao fim.

Essa autobiografia não foi publicada durante sua vida, aparecendo impressa pela primeira vez em 1887 no primeiro volume de Life and letters of Charles Darwin, editado por seu filho Francis Darwin e sujeito a censuras impostas pelos membros da família. Após isso, outros livros a reimprimiram sempre utilizando a versão de Francis. Em 1959 isso mudou.

Nora Barlow, Nora Darwin antes de casada, filha de Horace Darwin e neta de Charles Darwin, reeditou e republicou a autobiografia de seu avô, corrigindo os erros de impressão que se perpetuavam desde 1887 e restaurando as passagens censuradas pela família. Ela também adicionou notas suas ao longo do texto sem retirar as notas anteriores de Francis, além de apêndices e dois ensaios, um sobre Erasmus Darwin e outro sobre a controvérsia entre Charles Darwin e Samuel Butler.

Nesta autobiografia temos um acesso muito íntimo à vida de Darwin, podemos testemunhar seu sentimento por sua família, por seus amigos e conhecidos, episódios de sua infância e suas opiniões pessoais sobre diversos assuntos desde sua educação formal até sua espiritualidade, e inclusive pensamentos sobre filosofia da ciência. Também está presente nesse texto sua versão da famosa história do naturalista que viajou pelo mundo a bordo do Beagle.

É notável a aversão de Darwin pela educação formal que recebeu em todos os ambientes educacionais. Desde a escola até Cambridge, passando pela Universidade de Edimburgo, ele considerou todo o tempo que passou estudando formalmente como um desperdício. Também é possível notar as diversas ideias de Darwin quanto à religião, elas são contraditórias e, seguindo o mote da autobiografia, dinâmicas. No final das contas, ele se considera agnóstico, talvez o melhor rótulo para aqueles que decidem deixar as questões religiosas para a próxima vida.

Como é comum acontecer com figuras de grande renome que caem no domínio público, muito de sua história é perdida em favor de anedotas e lendas perpetuadas pelos leigos. Assim, com o passar dos anos, constrói-se sobre Darwin um ideal de cientista e um ideal de biólogo, porém é justamente o contrário.

A autobiografia nos mostra a humanidade de Darwin, dando mais dimensões e facetas ao famoso naturalista que formulou a seleção natural. Nela vemos Darwin como filho e como pai, como jovem solteiro irresponsável e como esposo seguindo sua carreira, como esportista cheio de saúde e como idoso se retirando para tratamentos hidropáticos. Vemos o desenvolvimento de seus gostos quando jovem até o resultado final quando idoso, vemos seus sentimentos para com seus contemporâneos e seus sentimentos sobre si próprio.

Enfim, em meio a um mar em constante crescimento de bibliografia secundária e novas biografias, a autobiografia de Darwin permanece como uma pérola no leito do oceano, e assim como uma pérola possui camadas que possibilitam enxergar o passar dos anos e está disponível para quem quiser se aventurar e ler Darwin por ele mesmo, em um fluxo de consciência simples e intimista, desorganizado e contraditório, assim como a vida de todos nós.

REFERÊNCIAS

DARWIN, Charles. Autobiographic fragment. 1838. Disponível em: <http://darwin-online.org.uk/content/frameset?itemID=CUL-DAR91.56-63&viewtype=text&pageseq=1&gt;. Acesso em 13 out. 2017.

___.The autobiography of Charles Darwin 1809-1882: With original omissions restored. Edited with Appendix and Notes by his grand-daughter Nora Barlow. Londres: Collins, 1958. Disponível em: <http://darwin-online.org.uk/content/frameset?pageseq=1&itemID=F1497&viewtype=text&gt;. Acesso em 13 out. 2017.

 

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