Ciência em ação V

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Texto do André sobre o quinto capítulo, “Tribunais da razão”:

No capítulo 5 de Ciência em Ação, Latour se engaja em uma discussão relativa aos critérios que servem como parâmetros de demarcação entre o conhecimento científico e o conhecimento do senso comum. Essa oposição, muitas vezes colocada em termos valorativos como “racional vs irracional”, parece apontar para a existência de um aspecto que torna o primeiro tipo de conhecimento superior ao segundo.

Conceber o conhecimento científico como um conhecimento superior não é mera contingência história. Se pensarmos dentro do âmbito da epistemologia tradicional, vemos que os esforços de Bacon e outros filósofos modernos se direcionaram ao estabelecimento de um método capaz de guiar as investigações dos filósofos de tal modo que, ao final dessa investigação, pudéssemos alcançar um grau de consenso. Nesse sentido, como indica Latour, os argumentos tradicionais que visam sustentar essa distinção entre racional e irracional têm sido centralizados pela noção de “método”. O conhecimento confiável, e portanto científico, seria aquele que está sujeito a um método rigoroso de análise e experimentação, enquanto que o conhecimento de senso comum não passa pelo crivo desse método.

Latour argumenta que essa concepção sobre a natureza do conhecimento impulsiona concepções metodológicas normativas. Usando como analogia uma linha, Latour nos diz que o conhecimento científico é concebido como uma linha reta que possui ao longo de sua extensão diversos desvios. Enquanto o cientista, guiado por seu método, é capaz de seguir o traçado reto da linha, o homem do senso comum seria o representante do desvio dessa linha. Quando abandonamos o método, tomamos um caminho “torto” e não condizente com o traçado inicial. Em termos da oposição entre racional e irracional, Latour afirma que, tal como concebida tradicionalmente, seguir a linha reta significa pensar racionalmente a partir de um método universal, ao passo que os desvios pontuais se desenrolam em discursos irracionais e metodologias arbitrárias.

Para Latour, essa caracterização da ciência está equivocada. Para ele, julgamentos sobre racionalidade dependem intimamente das premissas que assumimos como pontos de partida. Se pensarmos em sistemas lógicos formais, é completamente plausível pensar que uma fórmula F pode ser teorema em um sistema S1 e não ser um teorema em sistema S2. Isso se dá porque os axiomas de S1 e S2 podem ser diferentes, alterando assim as inferências possíveis dentro de cada sistema. Isso, no entanto, não significa que F se torna ilógico, mas somente que não pode ser caracterizado como um teorema dentro de um sistema específico. Similarmente, ao tomarmos como ponto de partida determinadas premissas que determinam as regras estruturais de nosso raciocínio, é natural que determinadas estruturas de pensamento sejam consideradas como ilegítimas. Isso se torna claro em um dos exemplos que Latour nos dá. Ao olharmos para o discurso sobre a propriedade da terra feito pelos habitantes das Ilhas Trobriand, tal discurso pode nos parecer tão sem sentido que não hesitaríamos em denominá-lo irracional. O que Latour tenta nos mostrar, entretanto, é que esse discurso só nos parece irracional porque nós, indivíduos criados em uma cultura específica, não compartilhamos da mesma noção de “propriedade” dos habitantes das Ilhas Trobriand. Esse descompasso conceitual nos leva, naturalmente, a diferentes relações que podem ser estabelecidas a partir da noção de propriedade.

O argumento de Latour parece ser o de que não existe critério não-arbitrário para decidirmos qual é o melhor sistema de inferências. Seria a nossa noção de “propriedade” melhor do que a dos habitantes das Ilhas Trobriand? Ou seriam essas noções apenas modos diferentes de se conceber sobre determinadas relações do mundo? Latour parece estar inclinado a aceitar o segundo caso. A grande questão que nos surge é a seguinte: se não existe um bom critério para estabelecer um parâmetro de comparação, então não nos parece restar outra alternativa senão aceitar alguma forma de pluralismo de racionalidades. Se esse for o caso, parece-nos ainda menos provável que possamos falar de discursos “racionais” e “irracionais”, de discursos “retos” ou “tortos”. A metodologia da ciência seria, dentro dessa perspectiva, não uma metodologia privilegiada porque é racional, mas sim racional porque é privilegiada.

Embora Latour pareça sugerir essa inversão de raciocínio, ele reconhece que, apesar de tudo, há algo que faz do discurso científico um discurso privilegiado. Descobrir qual é esse fator de privilégio que a ciência consegue mobilizar é o objetivo da Parte B do Capítulo 5. De um modo mais específico, podemos dizer que o problema central consiste no seguinte questionamento: por que existem alegações que são mais críveis do que outras?

Como vimos, Latour parece descartar a lógica ou a razão como critérios únicos para decidir essa questão. Para Latour, uma resposta para o questionamento acima pode ser dada partindo do que ele chama de “sócio-lógica”. A sócio-lógica seria caracterizada, de um modo geral, pelos artifícios utilizados por certos indivíduos para ligar suas afirmações a outras afirmações. Assim, na medida em que um indivíduo consegue mobilizar outros indivíduos a tomar suas alegações como relevantes, essas alegações ganham mais espaço dentro de uma comunidade. Essa conquista de espaço leva, naturalmente, a uma maior influência dessa alegação na criação de alegações futuras. Tendo o processo seguido por algum tempo, a influência da alegação inicial será tão ampla e tão fundamental na constituição das outras alegações que norteiam uma comunidade de falantes que ela poderá ser, enfim, tomada como “racional” ou “verdadeira”.

Por fim, um último aspecto a se ressaltar diz respeito ao reconhecimento de fatos duros ou mais fortes e fatos moles ou mais frágeis. Para Latour, não devemos pensar o primeiro caso como fatos constituídos a partir de um rigor racional maior. Ao olharmos para fatos duros e fatos moles, Latour sugere que olhemos para o modo em que esses fatos se contrapõem a outros fatos e como eles mobilizam outros fatos em seu favor. As diferenças entre fatos duros e fatos moles não são, nesse contexto, representativas de diferenças em seu grau racional, mas sim no modo em que se situam e se apresentam dentro de uma rede de outros fatos. O reconhecimento dessas características dos fatos leva-nos à sexta regra metodológica com a qual Latour fecha o capítulo. Essa regra nos diz que:

[D]iante de uma acusação de irracionalidade, ou simplesmente de crenças em alguma coisa, nunca acharemos que as pessoas acreditam em coisas ou são irracionais, nunca procuraremos saber que regra da lógica foi infringida, mas simplesmente observaremos o ângulo, a direção, o movimento e a escala do deslocamento do observador. (Latour, 2000, p. 348).

Colocado de outro modo, isso significa o abandono de critérios lógicos e racionais como polos únicos de enrijecimento dos fatos e o deslocamento desses critérios para aspectos mais amplos tratados pela sócio-lógica. A racionalidade não é mais algo intrínseco ao fato ou a uma afirmação, mas sim algo que se origina na postura do observador e sua relação com esse fato ou essa afirmação.

Referência:

LATOUR, Bruno. Ciência em ação. Trad. Ivone C. Benedetti. São Paulo: Editora UNESP, 2000.

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