Ciência em ação VI

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No sexto e último capítulo do livro, Latour destrincha as “Centrais de cálculo” a partir de um prólogo, “Domesticação da mente selvagem”, e seguindo pelas partes A, “Ação a distância” (p. 341-362), B, “Centrais de cálculo” (p. 363-386), e C, “Metrologias” (p. 386-404). A Parte A se subdivide nas seções: 1) Ciclos de acumulação; 2) A mobilização dos mundos; e 3) Construindo o espaço e o tempo. A Parte B apresenta as seções: 1) Amarrando firmemente todos os aliados; e 2) Qual é o cerne do formalismo. A Parte C foi organizada assim: 1) Expandindo ainda mais as redes; 2) Atado por umas poucas cadeias metrológicas; e 3) Ainda sobre a papelada.

No prólogo, por meio de um bem-vindo exemplo de disputa geográfica do século XVIII, Latour nos mostra que o conhecimento acumulado pelos navegadores fortalece a rede que vai se formando por ação a distância e produzindo uma assimetria entre o elemento parado (local, selvagem, impreciso) e o elemento em movimento (universal, estrangeiro, preciso). Dessa maneira, o conhecimento local, que era forte isoladamente, enfraquece ao ser capturado pela rede, que, sempre em movimento, continua o seu processo de acumulação, garantido pelas inscrições que resistem. Esse processo de “domesticação da mente selvagem” implica disputas sobre precisão e credibilidade, e a mobilização de recursos instrumentais, humanos e de conhecimento para produzir cada vez mais inscrições e cada vez mais precisas. As centrais de cálculo, como veremos, constituem um tipo especial de inscrição, que, localizadas em pontos estratégicos da rede, viabilizam a sua aceleração (LATOUR, 2011, p. 335-341).

A parte A, “Ação a distância”, começa tratando dos “ciclos de acumulação”, partindo do princípio de que não existe conhecimento em si, mas sim como parte de um processo de aquisição/acumulação. Ainda usando o exemplo dos navegadores do prólogo, Latour diz que eles arrumaram “uma maneira de trazer aquelas terras de volta consigo” (p. 343), pavimentando o caminho dos próximos navegadores. Esse retorno, devidamente registrado com os mais variados instrumentos e nos mais diversos tipos de inscrições (mapas, roteiros, cálculos etc.), garante um bem-sucedido ciclo de acumulação, que representará o conhecimento adquirido naquela viagem para aqueles que, quando a fizerem, o farão pela segunda vez, pois é como se tivessem ido “pela primeira vez sossegadamente, em casa ou no Estado Maior da Armada, fumando o seu cachimbo…” (ibid.). E assim sucessivamente, tecendo uma rede de caráter cumulativo por ação a distância.

Inspirado pelos mares do primeiro exemplo, Latour mostra, com o caso da expansão marítima portuguesa, a complexa mobilização de aliados de todos os tipos (caravelas, ventos, tripulação etc.). Com isso, fica claro que as condições de cumulatividade transcendem divisões disciplinares (tecnologia, ciências naturais, ciências humanas), produzindo uma mistura heterogênea com elos mais fracos e mais fortes, mas todos igualmente urdidos juntos. Podemos dizer que as divisões (vistas no capítulo 5), que até vão aparecer em função da assimetria cada vez mais acentuada entre nativos e estrangeiros, são menos importantes que os ciclos de acumulação produzidos pela junção destes três elementos: objetivo comum, centro que age a distância e mistura heterogênea (p. 344-347).

Para finalizar esta primeira seção da parte A, Latour anuncia o problema terminológico decorrente de uma perspectiva sem grandes divisores: conhecimento, poder, lucro e capital são termos a serem abandonados porque “dividem um tecido que desejamos íntegro” (p. 348); e enuncia uma nova abordagem: “como atuar a distância sobre eventos, lugares e pessoas pouco conhecidos? Resposta: trazendo para casa esses acontecimentos, lugares e pessoas.” (ibid.). Como fazer isso? Mobilizando-os, estabilizando-os e combinando-os. Com isso, os que eram fracos tornam-se fortes.

Na sequência, Latour explicita como se dá a “mobilização dos mundos” ainda viajando com as caravelas. Quer seja pela disciplinarização de latitudes/longitudes, pela transformação de cadernos de notas em instrumentos ou por qualquer outra forma, o fato é que, com os números recebidos, mesmo quem não viu as terras pode redesenhá-las. É o apogeu da geografia e da cartografia, a transformação da Europa em centro e, para fins de estabilização das coleções adquiridas, o deslocamento de invenções e instruções do campo para os museus. As redes, portanto, além de prescindirem das disciplinas, são móveis, estáveis e combináveis. Com elas, é possível mapear tudo o que foi mobilizado, estabilizado e combinado, e estar ao mesmo tempo no seu início e no seu fim. No exemplo de Tycho Brahe: “o primeiro que, num relance, considera o céu de verão, mais suas próprias observações, mais as de seus colaboradores, mais os livros de Copérnico, mais as muitas versões do Almagesto de Ptolomeu; é o primeiro que se situa no começo e no fim de uma vasta rede que dá origem àquilo que chamarei de móveis imutáveis e combináveis […] que transformam estrelas e planetas em pedaços de papel no interior de observatórios que logo serão construídos por toda a Europa.” (p. 353-354).

Essa ideia de transformar tudo em papel é interessante, pois nos remete aos textos, esquemas e mapas que produzimos intensamente para dominar algum assunto. Evidentemente, isso nada tem a ver com capacidade mental superior ou algo do gênero (os grandes divisores do capítulo 5), e sim com uma luta constante para dar significado, tornar familiar e representar. Trata-se de uma prática local, um processo de acumulação associado diretamente com a capacidade de mobilizar vários elementos e agir a distância. Mas nem tudo se presta bem a esse processo cumulativo das redes. Segundo Latour (p. 355), “o que puder aumentar a mobilidade, a estabilidade ou a permutabilidade dos elementos será bem-vindo e selecionado desde que acelere o ciclo de acumulação”. Ele chama isso de pressão seletiva. (Qualquer semelhança com a seleção natural não parece ser mera coincidência, fica registrado aqui o ponto.)

As noções de espaço e tempo também são construídas localmente (p. 356-362) e podem ser variadas. Para entendermos essas noções, temos que “empurrar de volta para suas redes  essas imensas extensões de espaço e tempo geradas pela geologia, pela astronomia, pela microscopia etc.” (p. 358). Voltando às caravelas portuguesas no período da expansão marítima, Latour exemplifica (p.359): “Assim que começaram a ir e voltar, um espaço crescente começou a desenhar-se em torno de Lisboa. Era um novo tempo: antes, nada distinguia facilmente um ano do outro naquela tranquila cidadezinha da ponta da Europa; […] nada seria como antes depois que uma nova rede cumulativa começou a a levar especiarias para Lisboa, e não para o Cairo.” Ademais, essa noção de espaço e tempo construídos é fundamental para dominar uma situação. Além de dominar fisicamente ou mobilizar um monte de aliados, a outra forma de domínio é chegar antes dos outros, transformar em papel, mapear, errar, refazer os modelos, familiarizar-se, enfim, ensaiar numa outra escala de tempo/espaço e preparar-se para o que quer que aconteça em escala real.

Na sequência (Parte B), Latour demonstrará a vantagem decisiva das centrais de cálculo (p.363-386), que amarram os aliados, resolvendo problemas logísticos (formulários) e calculando (traduzindo, relacionando, recombinando); e formalizam o processo, o que acelera os traçados e produz “o aumento de sua estabilidade, fidedignidade e permutabilidade” (p. 384). As formas desse formalismo, no entanto, não são transcendentais; não demandam contrapartidas empíricas, nem explicações sociais; são tão reais quanto qualquer outra inscrição, mas são mais resistentes, “pois multiplicam e intensificam as relações de todos os outros elementos das redes” (p. 385); e, finalmente, deveriam ser estudadas antropologicamente, e não com foco em habilidades cognitivas.

Apesar de a relação da matemática com o mundo empírico ser um mistério (na verdade ela não se aplica a ele), as inscrições das formas matemática num papel ou produzidas por algum instrumento estão longe disso. Trata-se de uma cascata de representações, reescritas ilimitadas que são fruto de novas combinações. “Em certo ponto da cascata, os instrumentos começam a inscrever formas, por exemplo, num papel milimetrado.” (p. 381). Nas redes, as escritas e reescritas matemáticas ocorrem nos poucos centros de passagem obrigatória, o que lhes garante uma posição estratégica de controle do espaço e do tempo. Dessa forma, assim “que todos os traçados tenham sido não só escritos no papel, mas reescritos de forma geométrica e rerreescritos na forma de equação, não é de admirar que quem controla a geometria e a matemática seja capaz de intervir em quase todos os lugares” (p. 383).

Vimos, então, que os instrumentos produzem formas e números, que representam coisas que não estão presentes, bem como a “forma” das palavras “informação” e “formulário”, que, igualmente com as coisas ausentes, remetem às suas inscrições. Depois de traduzir o mundo para os centros (a perda da tradução: a forma não é o real) e produzir formulários (o ganho da tradução: formulários são instrumentos que fortalecem as inscrições), ainda é preciso lembrar que “as inscrições finais não são o mundo; apenas o representam em sua ausência” (p. 386).

A Parte C trata das metrologias, que servem para manter a existência das redes. Poucos dominam essas inscrições finais, e a questão agora é como fazer a tradução de volta, porque, afinal de contas, trata-se de uma produção local, e não universal, e o que foi produzido num centro tem que circular pela periferia. Para dar conta disso, há que se expandir mais as redes (p. 387-392), e esta é, segundo Latour, a característica mais interessante da tecnociência, apesar de ser invisível: a “capacidade de estender redes e de viajar dentro delas” (p. 391). Ou seja, nas redes há um trânsito livre de fatos e artefatos, que produz a impressão de universalidade desde que esse trânsito não seja interrompido por uma controvérsia. Se tudo ocorrer “de acordo com o planejado, significa que ninguém se afastou nem um centímetro da rede bem guardada e perfeitamente fechada” (p. 392). Ele ainda diz, num passo anterior (p. 390), que sempre que a ciência é bem-sucedida, é porque “houve uma extensão progressiva de alguma rede”, ao passo que, quando se fala em malogro, é porque houve algum furo na rede.

Além disso, a circulação de fatos e artefatos do centro para a periferia é viável porque algumas poucas cadeias metrológicas (p. 392-399) fazem o mundo exterior caber num pedaço de papel. Este é o mundo real da tecnociência, que é local como o tempo, mas que “todo dia vai ficando um pouco mais [universal] graças à expansão de uma rede internacional […]. Assim que saímos dessa trilha, começamos a ter dúvidas sobre a hora, e a única maneira de voltar a ter certeza é entrar de novo em contato com as cadeias metrológicas.” (p. 394). Vale lembrar também que essas cadeias, com as quais nos acostumamos apesar de certa obscuridade, são feitas por especialistas que, dependendo do interlocutor e da situação, podem ser mais rigorosos ou menos. Elas “empilham formulários até a enésima ordem” (p. 395) e constituem arquivos.

Dessa forma, amplia-se a noção de metrologia para além da conservação das constantes físicas básicas, incluindo também esse processo de tradução do mundo em formulários. É justamente dessa papelada que trata a última seção do capítulo e do livro (p. 399-404), que apresenta três razões para não se desprezar a burocracia se realmente se deseja entender a tecnociência: 1) cientistas e engenheiros também são papelocratas que “tratam com fenômenos ausentes por definição” (p. 399), apesar de seus formulários de enésima ordem desfrutarem de um prestígio diferenciado; 2) é nos arquivos que os resultados se disseminam, ampliando a rede; e 3) a “burocracia” tem caráter interdisciplinar e, ainda que as suas disciplinas constituintes “não sejam consideradas parte da ‘ciência e tecnologia'” (p. 401), elas fazem parte da tecnociência e, portanto, passam pelo mesmo processo descrito ao longo do livro.

Ao contrário de Hacking, Latour não diferencia ciências naturais e ciências sociais, ambas fazem parte de redes e devem ser estudadas da mesma maneira. Ao contrário do Programa Forte, Latour diz que a sociologia não tem privilégio algum nessa análise: “Confiar nas ciências sociais mais do que nas naturais poria em risco toda a nossa jornada, porque teríamos de admitir que o espaço-tempo elaborado dentro de uma rede por uma só ciência se disseminou para fora e abarcou todas as outras.” (p. 403).

Para finalizar, apesar de oscilar com o termo “ciência”, que às vezes é tratado como sinônimo de tecnociência, mas em geral aparece num sentido mais estrito, como parte da tecnociência, fica clara a mensagem de Latour: o objeto dos Estudos de CTS ou dos Science Studies é a tecnociência. O mundo da ciência, dessa coisa abstrata e universal, é diferente do mundo da tecnociência, dessa coisa concreta e local. Nesse mundo em que fatos e artefatos são produzidos localmente e circulam no interior de redes, não se deve atribuir a eles a habilidade de sobreviver fora delas. Assim como uma rede social ou qualquer outra, é preciso estar conectado para que ela continue existindo e se expanda. A tecnociência constitui-se pelos recursos mobilizados e combinados em rede e que viabilizam a sua ampliação, portanto, estudar a tecnociência é estudar a rede e seus recursos.

Referências:

LATOUR, Bruno. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. Tradução de Ivone Benedetti. SP: Editora Unesp, 2011.

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