Representar e intervir II

RepresentingandIntervening

A primeira parte do livro começa discutindo o realismo científico (p. 81-93), mapeando os realismos e antirrealismos de teorias e de entidades. Diante dessa empreitada, é feita uma reclassificação entre realistas e antirrealistas de toda a tradição da filosofia da ciência. É possível ser realista de teorias sem ser realista de entidades. Russel, por exemplo, é enquadrado como realista de teorias e antirrealista de entidades, já que não problematizava a possibilidade de alcançar a verdade por meio das teorias, mas tratava as entidades inobserváveis como construções lógicas. Hacking, por sua vez, se declara um realista científico de entidades e diz que, para ele, só no nível da experimentação se pode ter certeza da existência de entidades teóricas não observáveis. É o chamado argumento experimental: “se você pode bombardeá-los [elétrons e pósitrons], então eles são reais” (p. 84).

Hacking também distingue realismo em geral de realismo em particular, aproximando o primeiro da metafísica e da filosofia da linguagem, e o segundo das ciências especializadas (p. 91-93). É neste sentido, portanto, que ele propõe mudar a discussão da teoria para o experimento. Ou seja, em vez de se preocupar com como pensamos, que é o que a filosofia da ciência tem feito, Hacking se preocupa com o que fazemos. Em vez de questões sobre teoria, representação e verdade (metafísica), podemos olhar para as questões sobre experimentação, intervenção e existência de entidades. Coloca-se, pois, a questão da prática científica.

Seguindo na sua exposição, nosso autor passa a discutir como as noções de construção e causação são caras à discussão sobre o realismo científico (p. 95-105). Os materialistas dizem que as entidades teóricas existem pois são como blocos de construção do mundo. Os causalistas dizem que as entidades teóricas existem pois suas propriedades causais são conhecidas. Nem todo materialista é causalista, mas ambos são realistas de entidades. Ou seja, o realismo de entidades pode se basear em construção ou causalidade. Nesse sentido, Hacking diz que “os conteúdos de seus ‘realismos’ são diferentes” (p. 105).

O mesmo acontece com o antirrealismo, tratado nos três capítulos seguintes, respectivamente sobre positivismo (p. 107-126), pragmatismo (p. 127-134) e incomensurabilidade (p. 135-145). Segundo Hacking, a mentalidade positivista é antirrealista de teorias e de entidades, já que só acredita que a verdade se estabelece por observação (ver é crer). Os pragmatistas também são antirrealistas e se dividem em duas correntes: Peirce/Putnam e James/Dewey/Rorty. Sobre essa última, Hacking (p. 131-132) confirma (o que já suspeitávamos) a sua influência pragmatista: “Minha concepção de que o realismo diz respeito mais a uma questão de intervenção no mundo do que a uma questão de representação por palavras e pensamentos, com certeza, deve muito a Dewey.” A discussão de Kuhn e Feyerabend sobre a incomensurabilidade é retomada e aprofundada por Hacking, que diferencia três tipos de incomensurabilidade: de tópico (o assunto é outro), por dissociação (o sistema de pensamento é outro) e de significado (o significado é outro). Todas implicam o antirrealismo. Para fugir disso, no capítulo seguinte ele discute a questão da referência, ou seja, o significado de significado.

 

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