Representar e intervir III

ian hacking

André preparou o seguinte resumo do capítulo “Referência” (p. 147-166):

Neste capítulo, Hacking analisa a teoria do significado de Putnam para ver como esta pretende evitar as dificuldades impostas pela tese da incomensurabilidade de Kuhn apresentada no capítulo anterior. Hacking argumenta que a teoria de significado de Putnam se encaixa bem em casos de sucesso da ciência como é o caso do elétron, mas ela parece não ser sensível a alguns outros casos recorrentes na história da ciência. A conclusão do capítulo parece ser a de que a teoria de Putnam não nos força a adotar uma postura realista.E fichou os seguintes pontos:

Por que há um problema entre a noção de “significado” e a noção de “incomensurabilidade”? Tal problema parece emergir, de um modo mais específico, quando consideramos a noção de incomensurabilidade frente a noção de significado” enquanto caracterizada pelas noções de “sentido” e “referência” de Frege.

Hacking afirma que, para Frege, uma tradição científica torna-se possível na medida em que um termo tem um “sentido” padrão. Isto quer dizer que o significado do termo “elétron” será o mesmo em uma comunidade científica na medida em que este termo tiver um sentido padrão nesta comunidade (p. 148).

O que identifica o elétron enquanto tal, neste sentido, é o sentido que ele possui (p. 154).

O problema em relação à incomensurabilidade surge na medida em que consideramos uma tese não fregeana segundo a qual o “sentido” dos termos são apreendidos pela consideração do lugar que estes termos ocupam em um rede de proposições teóricas (holismo semântico). Se o sentido pode ser alterado conforme nossas teorias, então parece impossível dizermos que o significado de um mesmo termo é mensurável no contexto de teorias distintas: uma alteração no sentido implica a alteração do significado (p. 148).

Como resolver estes problema? Hacking considera neste capítulo a proposta de Hilary Putnam como uma possível solução. Putnam sugere uma noção de “significado” mais sofisticada do que a de Frege, construindo-a a partir de quatro noções (e não duas, como em Frege) distintas: (i) marcador sintático; (ii) marcador semântico; (iii) estereótipos; e (iv) extensão. (p. 153)

(i) marcador sintático: referente aos aspectos gramaticais do termo (p. 149-50);
(ii) marcador semântico: assinalam a categoria de itens aos quais as palavras em questão se aplicam (p. 150);
(iii) estereótipos: ideia convencional associada à palavra (p. 150);
(iv) referência e extensão: (a) referência: refere-se ao gênero natural ao qual o termo se aplica; e (b) extensão: todas as coisas que caracterizadas sob este termo de modo verdadeiro. (p. 153)

Os itens (i) a (iii) são alteráveis (p. 152). O que se mantém constante, no entanto, é o item (iv), isto é, referência e extensão. Em outras palavras, temos aqui que das quatro variáveis determinantes do significado de um termo, somente uma se mantém constante. Mas o que exatamente isso quer dizer para o problema colocado acima?

Para Hacking, a nova formulação de Putnam em relação ao significado faz com que a identidade de um termo teórico seja movida do “sentido” fregeano para a “referência” putnamiana.

“Assim, o princípios fundamental de identidade para um termo muda do sentido fregeano para a referência putnamiana” (p. 154)

Assim, ainda que marcadores sintáticos, marcadores semânticos e estereótipos se alterem, a referência ainda pode se manter constante. Hacking utiliza-se aqui do exemplo do elétron: houve, na história da física, diferentes “estereótipos” de elétron em voga (Lorentz, Rutherford, Bohr e Schrodinger). A grande diferença entre Putnam e Frege reside no fato de que esta mudança de estereótipos não implica em uma mudança na referência. Para Putnam, apesar de diferentes estereótipos, estes cientistas estavam a falar de um mesmo gênero natural, a saber, o gênero dos “elétrons” (p. 154).

Esta mudança da identidade de um termo teórico do sentido fregeano para a referência putnamiana seria um dos modos de favorecer a tese do realismo científico. Por que isso ocorre exatamente? A noção de significado de Putnam, ao contrário da noção de Frege, permite-nos pensar na mudança de teorias (estereótipos) sem alterarmos a estrutura ontológica do mundo. As entidades das quais falamos, ainda que sob a perspectiva de diferentes teorias, são as mesmas. Isto se dá porque, como vimos, a referência é o princípio de identidade de um termo teórico e esta última não se altera com as mudanças de teorias.

Hacking argumenta, no entanto, que a noção de significado de Putnam, apesar de captar casos de sucesso na história da ciência, não é muito sensível a outros casos recorrentes na história. Para demonstrar isso, ele nos apresenta três exemplos distintos: (a) exemplo dos ácidos bifurcantes; (b) exemplo do calórico; e (c) exemplo do mésons e múons.

(a) Ácidos bifurcantes: a ideia central deste exemplo é a possibilidade de existir dois gêneros naturais distintos para um mesmo termo teórico. Os ácidos de Bronstend-Lowry e os ácidos de Lewis esgotam a extensão dos ácidos, embora algumas substâncias só se encaixem em um destes gêneros. O problema surge na medida em que nos perguntamos qual é a referência do termo ácido. Devemos escolher Bronstend-Lowry ou Lewis? Uma resposta pode ser somar as duas extensões, mas isto seria problemático uma vez que esta conjunção não constituiria um gênero natural. Neste sentido, há uma dificuldade em se estabelecer a referência do termo “ácido”.

(b) Calórico: o problema no caso calórico diz respeito à possibilidade de um termo teórico ter uma extensão zero e ainda assim possuir significado. Como aponta Hacking, os teóricos conseguiam se comunicar perfeitamente sobre o calórico, embora não houvesse, como descobriríamos mais tarde, nenhuma entidade que subsumisse a este termo. Aqui poderíamos nos questionar, por exemplo, qual será o critério para distinguir significados que se referem a entidade reais e significados que não se referem a entidades reais. Para Hacking, a teoria de Putnam não parece ser sensível a este caso.

(c) Mésons e múons: o problema neste caso parece estar relacionado com a mudança do significado de um termo após o estabelecimento inicial de sua referência. Isto é problemático porque, de acordo com Hacking, para Putnam um “nome seria aplicado a uma entidade que tivesse sido batizada em uma ocasião histórica definida” (p. 165). Assim, o que passou a importar para o termo “méson” não foi a seu significado original, mas sim o significado que se desenvolveu com pesquisas posteriores. O significado do termo se tornou “um tipo de sentido fregeano” (p. 165).

Nesse capítulo fichado pelo André vimos o relato de Putnam sobre o significado de significado para evitar a incomensurabilidade. No próximo, Hacking falará do realismo interno e de por que Putnam abandonou o realismo estrito.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s