Origem das espécies – capítulo 4

origemMadrasCapa da edição brasileira da Origem, traduzida por Soraya Freitas e publicada pela Editora Madras em 2011. Aparentemente é a melhor tradução brasileira da sexta edição que se encontra no mercado.

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O quarto capítulo da Origem é o maior e talvez o mais importante do livro, ele se chama “Seleção natural ou a sobrevivência dos mais aptos”.

O Vitor preparou um resumo, que veremos a seguir, mas, antes, algumas palavrinhas sobre um termo-chave de Darwin.

Já mencionamos o problema com a expressão “sobrevivência dos mais aptos”, que, no original, é “survival of the fittest”, mas também vemos traduzido como “sobrevivência dos mais adequados”, “sobrevivência dos mais fortes” ou “sobrevivência dos mais adaptados”. Aparentemente, a tradição consagrou a primeira tradução com todos os seus problemas embutidos, a começar por algo que o próprio Darwin (2009, p. 72) fala no capítulo anterior, que essa denominação é do Spencer:

“A este princípio, segundo o qual mesmo uma variação ligeira se conserva e se perpetua desde que seja útil ao indivíduo, dei o nome de selecção natural, de forma a demarcar a sua diferença em relação ao poder de selecção do homem. Herbert Spencer utiliza a expressão sobrevivência dos mais aptos, que é mais exacta e por vezes mais conveniente.”

Por que isto é problema? Porque, como sabemos, Spencer é o pai do darwinismo social e do que mais tarde se chamará sociobiologia, dos quais queremos distância, apesar da grande influência que teve no Brasil. Ademais, é público e notório que Darwin não concordava com Spencer nem nesta nem em outras questões, como fica claro mais adiante neste capítulo, quando Darwin critica a noção de progresso de Spencer (ibid., p. 119). Vale lembrar também que, em sua autobiografia, Darwin confessa a antipatia que nutre em relação a Spencer e que não tirou proveito nenhum das suas ideias. Então resta perguntar por que diabos citá-lo nesse momento?

Seguindo adiante no capítulo, Darwin tratará dos seguintes pontos: 1) Potência da seleção natural; 2) Seleção sexual; 3) Exemplos de seleção natural; 4) Cruzamentos; 5) Circunstâncias favoráveis à seleção natural; 6) Extinção produzida pela seleção natural; 7) Divergência de características; 8) Efeitos da seleção natural; 9) Progressos na organização; 10) Convergência de características.

Eis o resumo do Vitor:

Logo no início do capítulo Darwin faz perguntas sobre como a luta pela existência, que foi o assunto do capítulo anterior, vai agir quanto à variação nos seres vivos, e também como a seleção que o homem faz em suas produções pode ser feita pela natureza. O homem não é o causador das variedades, ele apenas pode preservá-las e multiplicar as que surgirem. E é o que acontece na natureza, só que de maneira mais eficiente. Darwin define seleção natural desta forma:

“Pode ser, então, improvável, vendo que as variações úteis de alguma forma a cada ser na grande e complexa batalha pela vida possam ocorrer durante muitas gerações sucessivas? Se isso ocorrer, podemos duvidar (lembrando que nascem mais indivíduos do que podem sobreviver) que indivíduos com vantagens, por menores que sejam, teriam uma melhor chance de sobreviver e procriar sua espécie? Por outro lado, podemos ter certeza de que qualquer variação prejudicial seria destruída. A essa preservação de diferenças individuais e variações favoráveis e à destruição das prejudiciais chamei de seleção natural ou a sobrevivência do mais preparado.” (Darwin, 2011, p. 84)

Vários autores foram contra o termo “seleção natural”, pois, segundo eles, ela induziria a variabilidade em vez de apenas preservá-las. Outros alegavam que o termo sugeria uma escolha consciente dos animais modificados, e ainda que plantas não sofreriam ação da seleção natural, pois elas não possuem vontade própria. Mudanças nas condições de vida, como clima e oferta de alimento, causam uma tendência à variações, que também incluem as variações no nível de indivíduo.

A seleção natural atua apenas para o bem do ser, ao contrário da seleção feita pelo homem, que seleciona apenas as variações que lhe são úteis, ou seja, para o seu próprio bem. Além disso, o homem atua somente em caracteres externos ou visíveis, enquanto a natureza atua em todos os órgãos internos, em todas as estruturas, pois qualquer diferença de estrutura, por menor que seja, “pode desequilibrar a balança da luta pela vida e ser preservada.” (ibid., p. 86).

“Como são fugazes os desejos e esforços dos homens! Como seu tempo é curto! Consequentemente, como serão pobres seus resultados, comparados com os acumulados pela natureza durante várias eras geológicas!” (ibid., p. 86).

A seleção natural atua todo dia e toda hora sobre qualquer variação, mantendo as favoráveis e excluindo as desfavoráveis. Entretanto, não é possível perceber essas mudanças em desenvolvimento, mas somente num nível maior, observando as eras geológicas.

Darwin define seleção sexual como uma forma de seleção que não ocorre na luta pela existência, mas numa luta pela reprodução. Assim, não acarreta a morte do indivíduo, “mas pouca ou nenhuma prole.” (p. 90)

São apresentados alguns exemplos da seleção natural e, na sequência, ele acrescenta que a transmissão para a prole pode não ser da variação propriamente dita, mas da tendência à mesma variação. Nos termos de Darwin (traduzidos por Soraya Freitas), se um “indivíduo variável não transmitir a seus descendentes o caráter recém-adquirido, transmitiria com certeza a eles, desde que as condições existentes permanecessem as mesmas, uma forte tendência a variar da mesma forma.” (p. 93).

Ao final desta seção, Darwin afirma que, assim como a geologia acabou com a história bíblica do diluvio, a seleção natural eliminará a ideia de que os seres foram criados, bem como a ideia de modificações bruscas nas suas estruturas (p. 96).

Sobre os intercruzamentos de indivíduos, os seres com sexos separados obrigatoriamente devem se cruzar para cada nascimento, o que não ocorre com seres hermafroditas, que não necessitam se juntar para cada nascimento. Entretanto, ocasionalmente, esses seres se juntam para a reprodução (p. 96-97)

Ainda que a seleção natural exija um período de tempo muito grande para atuar, esse período não é indefinido, porque, na natureza, se uma espécie não se modificar, os seus competidores podem ultrapassá-la e exterminá-la. Nesta seção é ressaltada a importância do isolamento para a ação da seleção natural, pois, numa área isolada, os indivíduos serão modificados pelas condições de vida no ambiente para uma mesma direção. Para atestar isso, Darwin usa o exemplo de uma ilha oceânica na qual a maioria das espécies é endêmica, ou seja, só são encontradas ali. Além disso, o isolamento dá tempo para que uma determinada variação ocorra. (p. 102-103)

Assim como o tempo, a vastidão da área também tem muita importância na produção de espécies, já que uma área grande e aberta, além de possuir uma população maior e uma grande quantidade de espécies, possui uma maior complexidade nas condições de vida. E se uma espécie se aprimora, outras terão de se aprimorar também para não serem extintas. (p. 103)

Segundo Darwin, graças ao crescimento dos seres vivos em progressão geométrica, cada área possui muitos indivíduos, então aquelas formas favorecidas vão aumentar em quantidade, enquanto as menos favorecidas diminuirão, tornando-se raras, o que leva à extinção. (p. 105)

Para demonstrar como os descendentes que apresentarem alguma modificação obterão mais êxito por diversificarem mais em estrutura, Darwin apresenta o diagrama abaixo. Neste diagrama, A seria uma espécie qualquer, e as linhas pontilhadas provenientes de A seriam sua prole variável. O cruzamento de uma linha horizontal com uma linha pontilhada é marcado por uma letra numerada, e indica que houve um acúmulo de variação que formou uma variedade. (p. 110 – 112)

diagramaArvoreOrigem_capIVCada linha horizontal pode representar mil ou mais gerações, então a espécie A produziu duas variedades após mil gerações, a1 e m1. Em seguida, a1 produziu a2, m1 produziu s1 e m2, e assim sucessivamente. Os ramos inferiores que não chegam a alcançar uma linha horizontal representam uma prole não muito bem adaptada, e que foi destruída pelos mais bem adaptados. (p.112 – 113)

Os seres orgânicos estão sempre se aprimorando, e o aprimoramento aqui significa uma maior especialização dos órgãos. A especialização leva os órgãos a desempenharem com maior eficiência suas funções e, dessa forma, as variações que causam especialização seguem a regra da seleção natural. Darwin ainda enfatiza que a seleção natural, ao contrário das ideias de Lamarck, não está relacionada ao “aperfeiçoamento progressivo” (p. 119) dos organismos.

DARWIN, Charles. A origem das espécies e a seleção natural. Tradução de Soraya Freitas. São Paulo: Editora Madras, 2011.

___. A origem das espécies. Tradução de Ana Afonso. Leça da Palmeira, Portugal: Editora Planeta Vivo, 2009.

2 Respostas

  1. Acabei de ler o resumo do Vitor e gostei muito.

  2. Gabriel Rodrigues Ribeiro Rosa | Responder

    Maravilhoso o artigo! Deixando mais claro e organizando as principais ideias de Darwin apresentadas no capítulo. Me ajudou muito na compreensão do capítulo, pois estava com dificuldade de entende-lo. Parabéns pela matéria e muito obrigado

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