A lógica da vida, capítulo 3: o tempo

Resumo feito pela gloriosa Marta Bellini:

Mais do que um conceito abstrato, no capítulo 3 de A lógica da vida, Jacob enuncia o tempo como a duração indissociável da origem do mundo e de sua evolução. Uma duração é o entrelaçamento da história das espécies, sua permanência e sua variação, ampliação, imanência, contínua, persistente. Dos seres mais rudimentares aos mais complexos, todo ser vivo sobrevém de uma sucessão de transformações conforme os novos naturalistas do século XVIII. A ideia de tempo está ligada às ideias de origem, continuidade e contingência (acaso, circunstância), diz Jacob (p. 137).  Origem porque considera o surgimento da vida na Terra, continuidade porque somente do ser vivo aparecem outros seres vivos; contingência porque não há, na natureza, nenhum a priori para a existência do mundo vivo assim como é hoje. Todo ser vivo está associado ao espaço que o circunda e ao tempo que levou para chegar ao mundo de hoje.

Até o século XVIII os seres vivos não têm história. Seriam imutáveis, sem mudanças, idênticos a si mesmos. Após este século, o tempo penetra no mundo vivo, diz Jacob (p. 138). Os seres vivos apresentam um passado, um presente e, quiçá, um futuro. Isso é história. Ao fixismo de Lineu opõe-se a corrente transformista de Robinet, Benoit de Maillet, Charles Bonnet, Diderot, Buffon e Maupertuis.

Maillet fez muitas observações sobre a morfologia de peixes e aves. Bonnet afirmou que havia um ser protótipo de todos os seres; Robinet também declarava que havia um só plano de organização, haveria uma “progressão” dos seres, assim como combinações e transformações.  Para Buffon e Maupertuis, nesse percurso temporal, apareceriam nos seres vivos elementos de variação. Buffon fala em movimento regular de evolução dos seres vivos com dois pontos: um de fecundidade ilimitada das espécies e o outro de obstáculos que reduziriam a fecundidade a uma quantidade determinada e constante de indivíduos de cada espécie. Chamou esse evento de compensação. Em Darwin ocorre a mesma ideia, mas a ocorrência seria a de competição.

A ideia de reprodução dá um passado aos seres vivos, indica a cadeia de parentesco, avós, pais, filhos das espécies. Burnet, Woodward, Benoit, de Maillet e o evolucionista Buffon descreveram sucessões de cataclismos que indicam épocas, idades, história, enfim. Esses estudos não se adequaram mais às narrativas da Bíblia, para as quais, na Terra, apenas o Dilúvio é reconhecido como cataclismo.

A ideia de tempo dispõe o planeta Terra como construção via cataclismos em um tempo de longuíssima duração. Um tempo da Terra. Nesse sentido, houve um tempo para os climas mudarem. A Terra, de quente, resfriou e modificou-se, mudando também os seres vivos. Nesse percurso de mudança, os fósseis deram, aos naturalistas do século XVIII, o testemunho da história passada dos seres vivos.

Buffon foi um dos naturalistas preocupados em datar este tempo, a distribuição dos oceanos e continentes, a diversidade geográfica, climática, a diversidade de vegetação, a de animais. É um precursor do evolucionismo. Os fatores externos, para Buffon, desempenharam um papel na estrutura do mundo vivo tal como ele é hoje. O cavalo, a zebra e o asno pertencem claramente à “mesma família”, são os ramos colaterais de um tronco comum. Mas mesmo com essa concepção pró-evolucionista, sua visão não relacionou a progressão das formas com o tempo. A variação das espécies foi compreendida como o afastamento da espécie de sua “pureza”.

Ao contrário de Buffon, Maupertuis se interessou pela variação. Em seus estudos indicou que as mudanças internas dos organismos das espécies eram transmitidas por hereditariedade, acarretando as variações.  Além da hereditariedade, haveria o cruzamento de indivíduos de variedades diferentes. Para Maupertuis, assim como para Darwin um século depois, a arte dos criadores serviria como modelo para pensar os animais e plantas na natureza sem intervenção humana.

Em direção à evolução temos o debate sobre as transformações com o protagonismo de Lamarck no século XVIII, os estudos sobre os fósseis no século XIX e a teoria de Darwin e Wallace na segunda metade do século XIX.

Com Lamarck a transformação dos seres vivos adequa-se a uma regularidade de progressão. Podemos pensar, com Lamarck, uma cadeia linear de sucessão dos seres vivos.

Com os fósseis, a cadeia linear que progride com o tempo (Lamarck) é repensada. Os seres vivos se modificam não apenas pelas circunstâncias externas, e nem pelas utilidades dos órgãos. Nesse debate, entram Comte e Cuvier. Para Comte, o tempo é o tempo da Terra e seus movimentos (cataclismos, clima, variações do calor etc.). Para Cuvier, o tempo geológico demarca os seres vivos como “monumentos das revoluções passadas”. São os fósseis que nos dão a certeza de que o globo terrestre nem sempre teve o mesmo invólucro. A geologia estabelece um parentesco entre os continentes, os fósseis, a separação. Nesse sentido, há pouca coisa em comum entre os seres do passado e os de hoje. Cuvier chega a pensar em troncos diversos, um após cada catástrofe.

Coube aos geólogos, sobretudo Lyell, exorcizar o papel das catástrofes. A catástrofe dependia da natureza e da intensidade para que os seres desaparecessem.

Lyell teve um papel importante na evolução. Há espécies de diversos locais, como a água, doce e salgada, e outros lugares. Arquivos geológicos mostravam a história de locais conservados em que poderiam ser decifradas as histórias de seres vivos.

Darwin e Wallace inauguraram o novo naturalista. A história das variações pode ser estudada por meio de viagens e de coletas de seres vivos e estudos paleontológico e geológicos.

As coletas numerosas foram a base para o entendimento do parentesco entre seres, suas variações, suas diferenças por estarem em diferentes continentes ou ilhas, enfim, para investigar as pressões ambientais a que as espécies foram submetidas.

Com essas questões, o capítulo 3 traz o tempo e suas dimensões para a teoria da evolução de Darwin e Wallace. Nesse caminho temos os fundamentos para a constituição da descendência da espécie ou evolução, que são:

1 – As variedades que se tornaram muito distintas umas das outras acabam por ser promovidas “na série das espécies”. Temos que levar em consideração para isto duas variáveis, a do tamanho das populações e a frequência com que aparecem as diferenças entre indivíduos.

2 – As novidades de uma espécie permitem que ela explore com mais eficácia os recursos de seu meio.

3 – Quanto aos mecanismos da evolução que atuam na variação dos seres, de sua organização e de sua adaptação, há três princípios: as causas do passado que regeram a evolução dos seres vivos, como afirmava Lyell; não há harmonia entre as espécies, como dizia Lamarck; o surgimento das espécies é feito de uma longa luta de ações opostas entre o organismo e o meio ambiente. A capacidade que os seres vivos têm de modificar suas formas é inerente ao vivo. Nesse ponto da teoria, Darwin e Wallace pensaram em como a população cresce ou diminui. Recorrer a Malthus foi a solução de Darwin à sua teoria. Traduziu a luta pela existência dos seres vivos.

Embora no século XIX não tenha havido a reunião dos estudos de hereditariedade de Mendel com a noção de seleção natural de Darwin, o século XIX produziu a teoria da seleção natural, da transformação das espécies e abriu caminho para o campo da genética na Biologia.

Referência:

JACOB, François. A lógica da vida: uma história da hereditariedade. Tradução de Ângela Loureiro de Souza. Rio de Janeiro: Editora Graal, 1983.

 

Uma resposta

  1. Como gosto deste capítulo! Tempo, tempo, tempo.

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