A lógica da vida, capítulo 1: a estrutura visível

O primeiro capítulo do livro se chama “A estrutura visível” e trata do que Jacob denomina de estrutura de ordem um (seguida depois por três ordens que nela se encaixam “como bonecas russas” (p. 23): organização, célula e molécula, cada uma tratada num capítulo). Esse primeiro nível se identifica na virada do século XVI para o XVII e até o XVIII, época em que o ser vivo é visto como uma combinação de estruturas visíveis cuja continuidade é garantida pela pré-formação; a espécie é entendida como entidade fixa, um sistema inerte; e as ciências da vida têm como objetivo classificar os seres e como objeto a análise dessa estrutura visível. São tempos de animismo, de harmonia prestabelecida e de representação, ou seja, há uma concordância entre sujeito e objeto. Assim como Foucault (2000, p. 10-29), em seu texto “A prosa do mundo”, nos fala da mudança de estatuto do raciocínio por semelhança com o advento da modernidade, Jacob aqui nos narra essa mesma mudança no que diz respeito à explicação da manutenção da estrutura visível, que vai migrando gradativamente da noção de geração (criação e preformação) para a de reprodução (hereditariedade) no final do século XVIII.

A palavra e o conceito de reprodução só aparecem no final do século XVIII, para designar a formação dos corpos vivos. Anteriormente os seres não se reproduziam. Eram engendrados. A geração é sempre o resultado de uma criação que, em uma ou outra etapa, exige a intervenção direta das forças divinas. Para explicar a manutenção das estruturas visíveis por filiação, o século XVII remeterá à formação de todos os indivíduos pertencentes a uma mesma espécie a uma série de criações simultâneas, realizadas a partir de um mesmo modelo datado da origem do mundo. (p. 26)

Mas vamos por partes. Na primeira seção, “A geração” (p. 26-34), Jacob mergulha no universo do século XVI, lembrando-nos da relação entre matéria (quatro elementos) e forma, e de semelhança entre Natureza e Deus, visível e invisível, e entre pais e filhos:

É a Natureza que, para criar astros, pedras ou seres, coloca a forma na matéria. Mas ela é apenas um agente de execução, um princípio que atua sob a direção de Deus. […] Quando se vê uma igreja ou uma estátua, sabe-se perfeitamente que em algum lugar existe ou existiu um arquiteto ou um escultor que as realizou. Do mesmo modo, quando se vê um rio, uma árvore ou um pássaro, sabe-se também que existe um Poder supremo que os criou […]. Assim, para conhecer as coisas é necessário […] desvelar o sistema de semelhanças, a rede de analogias e similitudes através do que abre-se [sic] um acesso a certos segredos da natureza […]. Pelas analogias, “o invisível é visível”, diz Paracelso. […] E a semelhança de uma criança com seus pais é apenas um aspecto específico de todos os que ligam secretamente os seres e as coisas. (p. 26-27, meus grifos)

Jacob nos brinda com uma explicação sobre o fundamento do raciocínio por semelhança, que ele associa à noção de comunidade de qualidade, ou seja, a de que corpos com as mesmas propriedades se assemelham. Citando novamente Paracelso, entre outros autores contemporâneos, ele ainda complementa essa explicação com as noções de ordem e unidade da vida e da natureza. Há uma rede secreta que une tudo e que garante a continuidade e a hierarquia:

Um ser vivo não pode assim reduzir-se unicamente à sua estrutura visível. Ele representa uma malha da rede secreta que une todos os objetos deste mundo. […] O mundo vivo não pode, assim, ordenar-se somente de acordo com os critérios das formas. […] Tudo na natureza é contínuo e, mais que categorias, nela encontramos uma hierarquia. […] Mas, na hierarquia dos seres, a progressão se faz por gradações imperceptíveis. Entre estas formas que avançam umas sobre as outras, é bastante difícil definir onde cada domínio começa e onde acaba. (p. 28-29)

Nessa passagem ele também introduz o problema da dificuldade de distinguir os seres por meio do raciocínio por semelhança. Por isso o conceito de espécie, como “permanência das estruturas visíveis por filiação” (p. 29), só aparece posteriormente.

Na sequência, Jacob acrescenta outro problema relacionado, o de que a “produção do semelhante pelos corpos vivos não exprime uma necessidade da natureza” (p. 29-30), ou seja, Deus é sempre acionado na geração dos seres, que, como qualquer criação, demanda matéria, forma e “a intervenção direta das forças que regem o mundo” (p. 30). Essas forças de ligação são a alma, que é individual, natural e é implantada na matéria; e o calor inato, que é coletivo, “a própria marca da vida” (p. 30) e que se divide em dois tipos de geração: espontânea (seres vis e simples) e pelas sementes (seres perfeitos, complexos). A associação do calor inato com o calor dos alquimistas é inevitável, bem como a criação por Deus/Natureza com a criação humana, a sua produção artística, artesanal ou técnica.

É esse retrato natural que dá conta das semelhanças entre pais e filhos, através de que [sic] a hereditariedade se insere na rede de analogias e das similitudes. A hereditariedade de certa forma representa o papel do artista, esta mistura de forma, de constituição, de temperamento, mas não de matéria, que através da semente passa de geração para geração. […] Mas o retrato natural fica sempre submetido à influência das diversas forças que podem atuar enquanto o embrião se desenvolve […], a rede das similitudes acaba por desdobrar-se. Por um lado, a reprodução da forma e do temperamento é assegurada pela semelhança que a hereditariedade acarreta. Por outro, através das sensações tidas pelos pais ou sob o efeito de sua imaginação, o produto da geração fica exposto às influências do mundo exterior, que pode imprimir sobre a criança a assinatura de todas as analogias possíveis. (p. 32)

Aqui é importante destacar a ideia de fatores internos e externos na hereditariedade, e a ideia de que todos os possíveis são realizáveis. Nos próximos capítulos veremos como essas ideias se desenvolvem ao longo do tempo.

Para finalizar esta seção, Jacob ainda fala sobre monstros e erros também como expressões do jogo das semelhanças, “mas estas se tornam heteróclitas e não correspondem mais ao jogo normal da natureza” (p. 33), lembrando que a natureza não se engana e que também tem sua moral. Nesse sentido: “Físico ou moral, cada desvio da natureza dá um fruto contranatureza.” (p. 34)

Inserindo esse saber no seu contexto, que inclui magia e astrologia, Jacob reconhece a coerência  desse mundo ordenado por uma vontade divina e secreta, em que cada coisa/ser tem o seu lugar: “A geração é apenas uma das receitas utilizadas cotidianamente por Deus para manter um mundo que Ele formou.” (p. 34)

“A decifração da natureza” é o título da próxima seção do capítulo, que vai tratar da mudança do estatuto da semelhança no século XVII. As forças invisíveis que habitam a linguagem, na qual se fortalece a relação entre Deus/Natureza e a humanidade, começam a perder espaço, estabelecendo uma nova relação entre homem e natureza: “O que é lido ou ouvido não se iguala mais ao que é visto.” (p. 34-35). Com Descartes, Galileu e Leibniz, além de a ação migrar da vontade divina para o espírito humano, e o interesse se voltar mais para o funcionamento do que para a criação, “a ciência da natureza torna-se uma decifração” (p. 35). Em vez de contemplar, interpretar ou adivinhar, trata-se de decifrar a regularidade do mundo, pesquisar a sua ordem interna, as suas leis e analisar os fenômenos. E isso é condição de possibilidade para o advento da ciência moderna. Isso e o sistema de representação:

O signo não é mais a marca depositada nas coisas pelo Criador para permitir que o homem descubra suas intenções. É uma parte integrante do entendimento humano, ao mesmo tempo produto elaborado pelo pensamento para a análise e instrumento necessário para o exercício da memória, da imaginação ou da reflexão. De todos os sistemas de signos, o mais perfeito é evidentemente o das matemáicas. Com a ajuda dos símbolos matemáticos, é possível dividir o contínuo das coisas, analisá-las em combinações variadas. (p. 37)

Inicialmente geométrica, depois analítica, a linguagem matemática vai ser determinante no papel decisivo da física nos “esforços do pensamento para estabelecer uma ordem no mundo” (p. 38). Mas outros domínios também aderiram à pesquisa da ordem, que se caracteriza por:

[E]stabelecer a lei geral que permite agrupar objetos ou proposições, mesmo heterogêneos, fixar as classes e, nos limites desta ordem, percorrer à vontade o conjunto do domínio em que a lei se aplica. E, para isto é necessário encontrar um sistema de símbolos que seja conveniente para representar estes objetos e descobrir as relações entre eles. (p. 38)

Na seção “O mecanismo”, somos apresentados às duas correntes das ciências da vida nesse período: a história natural, com sua característica de inventário a partir da estrutura visível; e a fisiologia (medicina), com suas várias tendências, mas cujos conceitos e meios para abordar os seres vivos são limitados ao que já se conhece sobre as coisas. A aproximação entre natureza e máquina, entre seres e coisas, é muito forte, o “vivo se prolonga no inanimado sem descontinuidade […]. Ainda não existe divisão fundamental entre vivo e não-vivo” (p. 39-40).

O conceito de vida, como se verá no capítulo 2, só se define a partir do século XIX. No momento, o que temos é uma noção de organização baseada na visibilidade, na qual os corpos vivos são órgãos que funcionam à base de engrenagens e articulações, como a mecânica do universo.

[O] conjunto dos corpos deste mundo, vivos ou não, que está situado fora de qualquer interação à distância, de qualquer relação duvidosa, de qualquer atração ou repulsa por simpatia ou por antipatia. Nada mais é possível pelo jogo das forças mágicas. Tudo se torna possível pelo jogo das forças físicas. (p. 42)

Essa teoria dos animais-máquinas, muito tributária da física, viabiliza uma série de estudos, como os de Harvey sobre a circulação, mas apresenta limitações intrínsecas para tratar, por exemplo, o problema complexo da geração dos seres vivos, que se revela cada vez mais pelas observaçoes.  É nesse contexto que se destaca o animismo, numa reação ao mecanicismo, ao materialismo e sobretudo ao ateísmo, que tem como principal componente a valorização do que vive e que diz respeito a noções de hierarquia, perfeição, regularidade e inteligência. Todas essas noções, consideradas admiráveis, privilegiadas ou infinitas, implicam princípios que batem de frente com a noção de ciência vigente, que trata do visível, do analisável. Nesse sentido, segundo Jacob, “o animismo da Idade Clássica não funciona como operador do conhecimento” (p. 46), porque, nesse momento, o que importa é afastar crenças, fantasias, mistérios ou maravilhas, sendo o animismo “mais uma filosofia e uma moral que uma atitude de pesquisa científica” (p. 46). É diferente do vitalismo, como veremos no capítulo 2, que ganha força no final do século XVII e sobretudo no XVIII, e que vai ser importante na própria constituição da biologia como domínio autônomo: a força vital é entendida como uma qualidade da matéria.

Nessa relação muito próxima das ciências da vida com a física, vê-se, a partir de Newton, a incorporação da química, do mundo das substâncias, ao mecanicismo. Isso se dá por conta da nova representação do mundo das coisas, que:

[C]ombina as leis do movimento e a natureza corpuscular da matéria. Esta não é mais um substrato homogêneo infinitamente divisível, mas se compõe de um número ilimitado de partículas isoladas, separadas umas das outras e não idênticas. À matéria e ao movimento que constituíam o mundo de Descartes, o de Newton adiciona o espaço, isto é, um vazio em que se movem as partículas. O que mantém as partículas no lugar, o que as liga entre si para formar um universo coerente é a atração. Esta não é um elemento constituinte do universo, não participa de sua construção. Mas tece entre todos os átomos que o constituem uma rede de dependências que dá ao mundo sua coesão. (p. 47)

Com isso é dada a largada para a classificação das substâncias (Lavoisier), assim como se faz, por exemplo, com as plantas (Lineu), e toda uma linguagem, associada a técnicas e conceitos, vai constituindo um espírito analítico tipicamente químico. A fisiologia, no século XVIII, a partir da química, consegue analisar a digestão e a respiração, assim como, no século XVII, foi possível, junto com a física, analisar a circulação.

É Lavoisier que vai associar o corpo vivo a uma máquina a vapor “com uma fonte de calor que é preciso alimentar, um sistema de resfriamento e mecanismos para ajustar as operações das partes, para coordená-las, harmonizá-las” (p. 50) . Não se trata mais apenas de figura e movimento, mas de princípios variados e um conjunto de funções articuladas pelas leis da natureza.

Na seção “As espécies”, Jacob deixa bem marcado que a “velha rede de semelhanças é substituida pela das comparações” (p. 50). Para além da estrutura visível, há uma “organização oculta” (p. 50), “um conjunto de qualidades específicas dos seres” (p. 50), e é através das suas relações, identidades e diferenças que se pode conhecê-los. A estrutura visível de plantas e animais é observada, descrita e traduzida, e os detalhes são desprezados, mas não as propriedades singulares. A comparação é difícil, sobretudo por causa da complexidade. É o caráter classificatório da história natural que vai servir aqui de base, sobretudo com Lineu.

Há três principais dificuldades de classificação: a diversidade do mundo vivo, a sua continuidade e o fato de que, como disse Buffon, “na natureza só existem indivíduos” e que gêneros, ordens e classes nada mais são do que invenções nossas, porque não há ciência do indivíduo (p. 53-54). A classificação, portanto, tem a ver com denominação: identificar um caráter, uma marca própria, um traço e descrever, dizer o que é visível; e também caracterizar, selecionar no caos do visível as propriedades comuns que distinguem um grupo do outro. Jacob ainda apresenta as duas correntes classificatórias: os sistemáticos usam a dedução, partem de uma concepção a priori e recorrem às combinações; e os metodistas usam a indução para “comparar os objetos com rigor e minúcia para inferir as diferenças” (p. 56). O problema é que com princípios e procedimentos diferentes, a linguagem e os resultados também serão diferentes.

Jacob nos lembra, na sequência, que a lógica dos sistemas e dos métodos nada tem a ver com a realidade da natureza, e é justamente disso que se trata a classificação: distinguir o natural/real do arbitrário, o essencial do acidental. E é dessa discussão, da demanda por um elemento externo para além da estrutura visível (semelhança), desse algo universal que permanece ao longo das gerações (regularidade), que se cunha o conceito de espécie no final do século XVII.

No entanto, essa solução de uma unidade básica da classificação e da ciência dos seres é também um problema, tendo em vista o seu caráter fixista e pré-formista: “Através do conceito de espécie é garantida a permanência das formas vivas desde a criação.” (p. 59). Pafa Buffon, por exemplo, as espécies são seres perpétuos.

Na penúltima seção do capítulo, que se chama “A pré-formação”, adentramos mais propriamente no problema da geração em tempos de mecanicismo: “os fenômenos da geração não podem ser analisados por medidas de volumes, de movimentos e de velocidade, nem ser descritos em termos de alavancas, roldanas ou de bombas” (p. 59).

Como já foi dito aqui anteriormente, tanto a geração espontânea quanto a geração por sementes são facilmente explicadas no século XVI por meio da ação de forças divinas na matéria. O problema é que o século XVII se propõe a explicar os fenômenos a partir da matéria e das leis do movimento, e instrumentos, como a lupa e o microscópio, viabilizam a identificação da complexidade da estrutura visível do insetos. Com isso, a geração espontânea começa a titubear, sobretudo com os trabalhos de Francesco Redi, e, no final do século XVII: “Onde quer que apareça um ser vivo, havia um ser semelhante para engendrá-lo” (p. 62). No entanto, a geração espontânea se refugia no invisível, e só a consolidação do conceito de espécie pode dar conta disso.

A geração por sementes, por sua vez, precisa “substituir as forças ocultas por figura e movimento” (p. 62), substituir princípios e virtudes da força divina pelas partículas das leis do movimento. No final do século XVII, Régnier de Graaf identifica a semente feminina, “todas as fêmeas possuem ovos” (p. 62), e, quanto à semente masculina, ela é identificada com animálculos: “Não existem tantos homens na superfície do globo quanto animálculos no sêmen de um só macho, diz Leeuwenhoek” (p. 63). Assim o pré-formismo se mantém como “o único meio de assegurar a permanência das estruturas visíveis por filiação” (p. 66), pois a semente já contém o germe do ser semelhante aos pais, mas o problema continua: como essa estrutura se mantém no tempo? E ainda se desloca: qual semente contém o germe? A feminina ou a masculina? E como se forma o germe na semente? (p. 63-66)

Segundo Jacob, há dois tipos de pré-formismo/preexistência dos germes: o que localiza o germe fora dos seres e o que localiza o germe dentro do seres (p. 67). Em ambos os casos, os germes masculinos e femininos são diferentes e estão sujeitos às leis da natureza. Ou seja, apesar das limitações da pré-formação, a geração mudou de papel e estatuto no século XVII: em vez de criação isolada, uma “realização progressiva de um projeto a longo prazo” (p. 68), colocando “a geração dos seres no mesmo plano que os outros fenômenos da natureza” (p. 69).

No século XVIII  prevalece a pré-formação e, com a partenogênese, já se atribui ao ovo “o primeiro papel na geração” (p. 70), sendo incerto o papel dos vermes espermáticos (p. 71). Apesar de alguns indícios de que a estrutura primária não é pré-formada no ovo, e que ela “se organiza pouco a pouco por uma série de dobras” (p. 73), a epigênese não cabe nesse século.

A última seção do capítulo se chama “A hereditariedade” e começa elencando os indícios de insuficiência da pré-formação: 1) o tamanho do germe em relação ao do homem, já calculava Buffon, seria inimaginavelmente pequeno ao cabo de seis gerações; 2) os fenômenos de regeneração a partir de partes do corpo eram incompatíveis com a pré-formação, pois teria que admitir que cada parte está cheia de ovos; e 3) os fenômenos de hereditariedade, sobretudo a regularidade das semelhanças, não poderiam ser pré-formados, já que são sempre uma mistura dos traços do pai e da mãe (p. 74-75).

Nessa época só se faz observação de híbridos, não há propriamente experimentos, e “o mundo vivo é contínuo. Ele forma uma trama sem falhas” (p. 75). Com o fracasso das hibridizações entre espécies diferentes, que resultaram em esterilidade, foi reforçada “a idéia de que a noção de espécie deve basear-se na filiação” (p. 76). É nesse contexto que se limitaram as experiências às mesmas espécies, e a botânica conseguiu resultados de destaque, chegando a híbridos férteis, o que “dificilmente será explicável pela pré-formação” (p. 76).

A partir de exames genealógicos, “em que certas particularidades anatômicas são seguidas através de gerações até o mais longe possível” (p. 77), são introduzidos os métodos matemáticos, as leis do acaso e o cálculo de probabilidades nos estudos da hereditariedade. Esse procedimento resulta num nível de acerto melhor que o da física, pavimentando uma abordagem para os fenômenos relacionados aos seres vivos equivalente à abordagem dos fenômenos relacionados às coisas.

Para finalizar o capítulo, Jacob sintetiza esse longo percurso cumprido para tratar da estrutura visível, lembrando que são tempos em que o estudo da vida migra das mãos dos médicos para as dos naturalistas, e que a história natural está em fase de construção, não tendo propriamente métodos, conceitos e linguagem próprios. Ele ainda destaca que a ideia de finalidade na geração do ser vivo é muito forte para garantir a persistência das espécies, bem como a teoria de que os seres vivos nascem de germes pré-formados. No entanto há fatos que não se encaixam na teoria vigente, e como, segundo Jacob, “[a] lógica dos sistemas é substituída pela lógica dos fatos” (p. 79), o conceito de reprodução começa a ser usado, a princípio num sentido estrito de regeneração, mas depois num sentido mais amplo, dado provavelmente por Buffon, que buscava uma solução fora da pré-formação, e que abarca não só a regeneração, mas também a própria geração. E com estas palavras Jacob termina o capítulo:

[A] idéia de reprodução, a pesquisa de um mecanismo comum a todos os seres vivos, a necessidade de ultrapassar a superfície visível e recorrer a uma organização oculta, tudo isso contribuirá para tornar possível uma biologia, isto é, uma ciência da vida. (p. 80)

Referências:

FOUCAULT, Michel. A prosa do mundo. In: FOUCAULT, Michel. Arqueologia das ciências e história dos sistemas de pensamento. Tradução de Elisa Monteiro. RJ: Forense Universitária, 2000, p. 10-29 (Coleção Ditos e Escritos II).

JACOB, François. A lógica da vida: uma história da hereditariedade. Tradução de Ângela Loureiro de Souza. Rio de Janeiro: Editora Graal, 1983.

 

 

 

 

 

Uma resposta

  1. Excelente, Cristina! Dá gosto ler!

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