Ciência e Arte em Jung (continuação)

O sétimo capítulo do livro O espírito na arte e na ciência, de Jung, que se chama “Psicologia e poesia” e foi publicado em 1930, parece ter uma continuidade em relação ao anterior, repetindo e aprofundando alguns conceitos já apresentados antes, bem como a crítica à psicanálise, ao dogmatismo e ao racionalismo. Há um destaque aqui à diferenciação entre obra de arte e artista, que se reflete inclusive nos títulos das duas seções do texto – “A obra” e “O poeta”, como veremos a seguir. Mas antes Jung nos fala dessa relação profunda entre literatura e psicologia, mostrando que uma coisa é analisar a estrutura psicológica de uma obra de arte, e outra, as circunstâncias psicológicas do homem criador. O objeto da primeira é a obra de arte, fruto intencional de atividades anímicas complexas, e o da segunda, o ser humano, seu aparelho psíquico. Apesar de relacionadas, não se explicam mutuamente:

“A psicologia pessoal do criador revela certos traços em sua obra, mas não a explica.” Se explicasse, “seria necessário admitir que aquilo que a obra contém de pretensamente criador não passaria de um mero sintoma […]. Se a psicologia pudesse exibir causalidades indubitáveis no tocante à obra de arte ou à criação artística, todo o âmbito da especulação sobre a arte seria reduzido a um apêndice da psicologia.” (p. 88)

O que não é o caso. Psicologia e crítica de arte partem de princípios diferentes. A primeira parte de premissas causais do material psíquico, e a segunda trata a psique como ente na obra ou no artista. E para complicar ainda mais, Jung relembra a limitação da psicologia nessa tarefa:

“A totalidade dos processos psíquicos que se dão no quadro do consciente pode ser explicada de maneira causal; no entanto, o momento criador, cujas raízes mergulham na imensidão do inconsciente, permanecerá para sempre fechado ao conhecimento humano. Podemos somente descrevê-lo em suas manifestações, pressenti-lo, mas nunca será possível apresá-lo.” (p. 88)

No início da seção “A obra”, Jung propõe uma distinção entre o modo psicológico e o modo visionário (p. 90), logo depois de afirmar que “obras de valor literário extremamente duvidoso podem muitas vezes parecer particularmente interessantes para o psicólogo” (p. 89), como é o caso dos romances não psicológicos, que permitem interpretações profundas, só acessíveis ao especialista, ao contrário dos romances psicológicos, que apresentam noções psicológicas compreensíveis por qualquer ser humano (p. 90). Ou seja, o modo psicológico trata de conteúdos da consciência captados pela alma do poeta, transformados e esclarecidos; e o modo visionário trata de conteúdos desconhecidos, estranhos, profundos e arcaicos (p. 91). A pergunta pelo significado só aparece nas obras visionárias:

“Sentimo-nos surpreendidos, desconcertados, confusos, desconfiados ou, o que é pior, chegamos a experimentar repugnância. Elas nada evocam do que lembra a vida cotidiana, mas tornam vivos os sonhos, as angústias noturnas, os pressentimentos inquietantes que despertam nos recantos obscuros da alma.” (p. 92-3)

Na sequência, Jung retoma a sua crítica ao entendimento freudiano das obras visionárias, que reduz a “vivência visionária a uma experiência pessoal” (p. 94), perdendo seu caráter originário, reduzindo-se à sintoma e transformando o caos em perturbação psíquica: “a visão perturbadora dos abismos existentes além do humano então se revela como pura ilusão e o poeta, um enganador enganado.” (p. 94)

Para Jung, essa redução se atém à psicologia do poeta, desviando-se da psicologia da obra, que vira “uma simples expressão de um complexo pessoal” (p. 95). Para explicar psicologicamente a obra de arte, “é necessário encarar com atenção o seu embasamento, ou seja, a vivência originária” (p. 95), apesar da dificuldade, já que “apresenta algo que não tem correspondência na experiência corrente” (p. 95). Esse caráter metafísico pode levar a vivência originária a ser vista como licença poética inclusive por certos poetas:

“O que um poeta diz de sua obra frequentemente não é o que de melhor pode ser dito sobre ela. O importante é defender a seriedade da vivência originária, mesmo contra as resistências do poeta.” (p. 95)

Ainda sobre a experiência visionária, Jung critica o racionalismo e uma cientificidade antimetafísica, que tenta restringir a sua dignidade e construir um mundo ordenado de consciência:

“A visão é uma vivência originária autêntica, apesar das restrições do racionalismo. […] Pouco nos importa se seu conteúdo é de natureza física, anímica ou metafísica. Ela constitui uma realidade psíquica, que tem pelo menos a mesma dignidade que a realidade física. […] No sentimento, vivenciamos coisas conhecidas; a intuição, no entanto, conduz-nos a áreas desconhecidas e ocultas, a coisas que, por sua natureza, são secretas. […] Elas se escondem ao olhar do homem e este delas se esconde por um temor supersticioso, protegendo-se com o escudo da ciência e da razão. O cosmos é sua crença diurna, que deve preservá-lo da angústia noturna do caos.” (p. 96)

Há saberes, mitos e tradições que são comuns a todas as culturas, semelhanças simbólicas que refletem experiências interiores, “coisas obscuras que ultrapassam o mundo humano e diurno e suas lembranças e, por outro lado, dizem respeito à sabedoria que deve reger a ação dos homens”. (p. 98) O poeta se apropria desses símbolos. Não se trata de tema tradicional, mas de vivência originária para a qual não há palavra nem imagem, é “um turbilhão que se apodera de tudo o que se lhe oferece, imprimindo-lhe uma forma visível […]. E nada falta na escala que vai do incompreensível e sublime até o perverso e grotesco.” (p. 99)

Jung associa a sua concepção de visão ao inconsciente coletivo e aparentemente à lei biogenética de Haeckel, que postula que a ontogenia recapitula a filogenia. E ainda arremata com uma bela metáfora para o inconsciente: eclipse da consciência. Assim ele formula:

“O que aparece na visão, com efeito, é uma imagem do inconsciente coletivo, a saber, da estrutura inata e peculiar dessa psique que constitui a matriz e a condição prévia da consciência. De acordo com a lei filogenética, a estrutura psíquica, da mesma forma que a anatômica, deve conter os degraus percorridos pela linhagem ancestral. […] Durante o eclipse da consciência, no sonhos ou nas doenças mentais, vêm à superfície conteúdos que apresentam todas as características da condição anímica primitiva, não só pela forma como também pelo sentido […], embora dissimulados na linguagem moderna das imagens.” (p. 99)

Sem esquecer do caráter compensatório das manifestações do inconsciente coletivo em relação à situação consciente, é preciso considerar que nem sempre as compensações são evidentes não só aos leigos, mas também aos especialistas, como é o caso dos sonhos: “as coisas mais simples são, às vezes, as mais difíceis”. (p. 100)

Para Jung, portanto, o ato criador é fruto do inconsciente coletivo e da consciência da época, que, assim como o indivíduo, precisa de compensação. Diz ele:

“Sempre que o inconsciente coletivo se encarna na vivência e se casa com a consciência da época, ocorre um ato criador que concerne a toda a época; a obra é, então, no sentido mais profundo, uma mensagem dirigida a todos os seus contemporâneos. […] Todas as épocas têm sua unilateralidade, seus preconceitos e males psíquicos. Cada época pode ser comparada à alma de um indivíduo”. (p. 100)

Para o bem ou para o mal, o poeta ou visionário “exprime o inexprimível de uma época, […] suscita pela imagem ou pela ação o que a necessidade negligenciada de todos está almejando. […] Esses poetas falam por milhares e dezenas de milhares de seres humanos, proclamando de antemão as metamorfoses da consciência de sua época.” (p. 100-101)

E é falando dos poetas que Jung prepara a seção 2, “O poeta”, que começa fazendo um elogio a Freud, que tem o mérito de ter: “demonstrado a extensão da influência do mundo pessoal do poeta em sua própria obra, e ter revelado os modos singulares e as analogias mediante os quais ela se produz” (p. 102-103). Mas ele não para por aí, repetindo sua crítica ao reducionismo da psicanálise, que trata a obra de arte como neurose. Para Jung, a obra de arte é coletiva e impessoal:

“A essência da obra de arte não é constituída pelas particularidades pessoais que pesam sobre ela – quanto mais numerosas forem, menos se tratará de arte; pelo contrário, sua essência consiste em elevar-se muito acima do aspecto pessoal. Provinda do espírito e do coração, fala ao espírito e ao coração da humanidade.” (p. 103)

E o artista “enquanto artista ele é sua obra e não um ser humano” (p. 103), um “homem coletivo, portador e plasmador da alma inconsciente e ativa da humanidade” (p. 104). Essa dualidade do artista, que é ao mesmo tempo uma personalidade humana e um processo criador impessoal, carrega consigo tensões evidentemente, mas “o artista deve ser explicado a partir de sua arte, e não através das insuficiências de sua natureza e de seus conflitos pessoais”. (p. 104-105)

Para finalizar, Jung reafirma a natureza feminina, noturna e profunda da arte, que tem suas raízes no inconsciente coletivo, sendo de caráter simbólico e arquetípico:

“[A] obra nasce do seu criador, tal como uma criança de sua mãe […]. Não é Goethe quem faz o Fausto, mas sim a componente anímica Fausto quem faz Goethe. E, afinal, o que é Fausto? É um símbolo, […] a expressão de um dado antigo, vivo e atuante na alma alemã, que Goethe devia dar à luz. […] Um arquétipo em si mesmo não é bom nem mau. É um numen moralmente indiferente. Só através de sua confrontação com o consciente torna-se uma coisa ou outra, ou então uma dualidade de opostos” (p. 105-107)

A obra de arte, portanto, ultrapassa a biografia do seu autor, e seu sentido é como o de um sonho a ser interpretado:

“Para compreender seu sentido, é preciso permitir que ela nos molde, do mesmo modo que modelou o poeta. Compreenderemos então qual foi a vivência originária deste último. […] Sua biografia […]; interessante ou não, é secundária em relação ao que o poeta representa como ser criador.” (p. 108)

Referência:

JUNG, Carl Gustav. Psicologia e poesia. In: O espírito na arte e na ciência. Tradução de Dora Ferreira da Silva e Ruben Siqueira Bianchi. Petrópolis/Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2011, p. 85-108.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s