Jung, leitor de Freud

Os capítulos 3 e 4 do livro O espírito na arte e na ciência, de Jung, são dedicados a Freud. O primeiro, publicado em 1932, chama-se “Sigmund Freud, um fenômeno histórico-cultural”; e o segundo, publicado logo depois da morte de Freud, chama-se “Sigmund Freud (1939)”.

Logo no início do capítulo 3, Jung declara a importância de Freud: “Sua doutrina […] deveria hoje ser conhecida por todo leigo de certa cultura” (p. 38). Mais adiante destaca também o seu mérito de “derrubar falsos ídolos e trazer à luz, impiedosamente, a podridão da alma contemporânea” (p. 42). No fim do capítulo ainda cabe mais um louvor a Freud, que, segundo Jung, cumpriu sua missão histórico-cultural com glória (p. 45).

Isso não o impede, no entanto, de efetuar uma crítica forte, sobretudo ao condicionamento histórico da ideia central da psicanálise, que é a repressão sexual na infância (p. 39). Para Jung, essa base negativa da teoria, esse “menos infantil” (p. 40), se deriva da época vitoriana, de um moralismo burguês, ou seja, Freud é um filho da sua época.

Apesar da tonalidade positivista de Jung, que se refere a essa mentalidade vitoriana como algo que antecede as “luzes do materialismo e racionalismo científicos” (p. 39), é de ressaltar a sua preocupação ética:

“os motivos éticos, como fatores determinantes da vida humana, desaparecem na doutrina freudiana, […] substituídos por uma moral convencional vitoriana” (p. 40).

Ainda nessa tonalidade, Jung diz que “[c]ientificamente, a teoria da sexualidade do lactente tem pouco valor” (p. 41), principalmente pelo seu reducionismo ao princípio do prazer, mas a desmistificação que operou da santa maternidade, por exemplo, é libertadora e lança suspeitas sobre outras condições históricas que transformaram “fatos completamente naturais em virtudes morais e sentimentais” (ibid.).

Embora a questão da sexualidade seja reconhecidamente a grande diferença teórica entre ambos, nesse texto parece que a principal crítica de Jung a Freud é de ordem prática: “ninguém sabe o que fazer com os desejos incompatíveis” (p. 42) ou, em outros termos:

“o programa de Freud não apresenta nenhum plano para o futuro” (p. 43)

O conceito de sublimação, de Freud, é uma tentativa de lidar com isso, mas Jung o entende como “uma piedosa imagem ideal, inventada para sossegar inoportunos questionadores” (p. 43).

Jung ainda acrescenta que, inconscientemente, a capacidade científica de Freud foi submetida à sua missão cultural “às custas do verdadeiro desenvolvimento de sua teoria” (ibid.). Logo na sequência, Jung larga seu tom positivista e afirma com todas as letras:

“Mas também a ciência não é imune à concepção insconsciente do mundo.” (p. 44)

Para finalizar o aspecto prático da sua crítica, Jung diz que a neurose não é uma criação pós-vitoriana (p. 44) e que a teoria de Freud, por seu caráter histórico-cultural, não se aplica a outros contextos (ibid). Jung reafirma, assim, o seu universalismo:

“A alma humana não é apenas produto do espírito da época, mas algo bem mais estável e imutável.” (p. 45)

Freud e Jung nos Estados Unidos em 1909

Apesar de ser um necrológio, o capítulo 4 é um texto em que Jung revisita a vida e a obra de Freud, tece os devidos elogios, mas não se abstém de também apontar alguns problemas.

Logo no início, Jung fala do alcance de Freud: “com exceção das ciências naturais exatas, ele tocou em tudo onde a alma humana tinha primazia”, afinal, as questões da alma mexem “com as bases psíquicas de todas as ciências do espírito” (p. 46). Reconhece que, apesar de seu déficit filosófico e foco na clínica, Freud conseguiu “sair da limitação das horas de consulta” por meio da “ponte” entre uma “mentalidade local e contemporânea” que todo paciente representa (p. 47).

Jung recupera um pouco da trajetória de Freud, que passa pelas contribuições de Charcot – hipnotismo, sugestão e relação entre sintomas histéricos e “certas representações que teriam tomado posse do ‘cérebro’ dos doentes” (p. 47) -, Janet – desdobramento nas noções de ideia fixa e obsessão – e Breuer – “as ‘representações’ que provocam a doença são as lembranças de certos acontecimentos que ele qualifica de traumatizantes” (p. 47) . Diante desses afetos bloqueados, que nunca vieram à tona, há que se proceder uma “ab-reação”. (p. 48)

O trabalho independente de Freud inicia-se, portanto, com o desenvolvimento da teoria do trauma sexual, mas o problema é que os pacientes são sugestionáveis, ou seja, “esta teoria se movia num terreno escorregadio e perigoso” (ibid.). Quando atribui o momento traumático “a uma fantasia infantil anormal” (ibid.), essa sexualidade infantil não foi bem recebida nem científica nem publicamente. Esta foi a primeira violação da psicologia geral. A segunda viria da sua tentativa de demonstrar, em A interpretação dos sonhos, que “os sonhos são a satisfação dos desejos ocultos” (p. 49).

“O fato de trazer um assunto tão impopular como o sonho para uma discussão séria era um ato de coragem científica que não poderia ser desprezado.” (p. 50)

Abre-se a possiblidade de uma compreensão a partir de dentro, diferentemente da psiquiatria, que descreve a partir de fora. Mas, antes, Jung nos mostra que Freud desenvolve uma sintomatologia da neurose a partir da teoria da repressão: um afeto traumático é bloqueado, com repressão de material incompatível, ou seja, um desalojamento (da consciência) de afetos “por um certo comportamento moral” e impedimento “de serem relembrados por uma inibição específica” (p. 49).

Jung avalia mal alguns textos-ideias de Freud, como a teoria do chiste, Totem e tabu e O futuro, uma ilusão, sobretudo pela insuficiência filosófica, mas reconhece alguns pontos sólidos (p. 50-1). E, de novo, fala sobre a falta de plano mencionada no capítulo anterior:

“em parte alguma [Freud] aponta para forças que ajudem e curem e que possam fazer com que o inconsciente se torne proveitoso para o doente” (p. 51)

De acordo com Jung, o ceticismo condicionado pelo seu tempo é valoroso (p. 52), bem como seu envolvimento iluminista (p. 53), mas o fraco da psicanálise são seus estreitos pressupostos científicos materialistas, sua insuficiência filosófica e sua unilateralidade teórica (ibid.).

Jung finaliza o necrológio lembrando de uma derradeira conversa entre ambos na qual ele tentou fazer Freud “entender melhor o sentido de probare spiritus si ex Deo sint (verificar se os espíritos procedem de Deus). Infelizmente não consegui. E assim o destino teve que seguir seu curso.” (p. 54)

Cena do filme “Um método perigoso”, de David Cronenberg (2012), com Viggo Mortensen (Freud) e Michael Fassbender (Jung)

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