A lógica da vida, prefácio

              François Jacob (sentado) e Jacques Monod no Instituto Pasteur em 1971

Pouco antes dessa foto aí em cima, François Jacob (1920-2013) havia publicado o seu livro A lógica da vida, que estamos lendo e discutindo nos nossos encontros às quartas-feiras. Além de ser considerado um dos fundadores da biologia molecular, e de ter dado uma contribuição monumental às ciências da vida (Prêmio Nobel de 1965 junto com Jacques Monod e André Lwoff por sua pesquisa em regulação genética), Jacob tem uma visão de filosofia e história da biologia extremamente esclarecedora.

Já no prefácio, apesar da sua abordagem “isentona” em relação à ciência sobre a qual falarei em seguida, Jacob dá ênfase à “natureza das questões” (p. 7) sobre a hereditariedade, ou seja, ele faz uma história da biologia que toma como fio da meada a “gradual transformação da maneira de considerar a vida e o ser humano” (ibid.). Nesse sentido, ele contribui para uma desmistificação da ciência, apresentando-a como um saber local, provisório e parcial, ao contrário de noções idealizadas associadas à ciência, como universalidade, eternidade e revelação da realidade. Evidentemente, ele está bem ciente que esse conflito entre universal e particular não é de hoje e que, em geral, implica um “diálogo de surdos” (p. 8), como é o caso de evolucionistas e criacionistas. Jacob desmistifica também o cientista, pois há “pessoas imbecis e sem caráter […] em todas as amostras de uma população” (ibid.), e o dogmatismo em geral: “Nada é mais perigoso que a certeza de ter razão. Nada causa tanta destruição quanto a obsessão de uma verdade considerada absoluta.” (ibid.)

No entanto, apesar desse movimento geral de desmistificação, Jacob ainda afasta ciência e paixões, apostando numa neutralidade e numa concepção de ciência apenas como produção teórica: “A frieza, a objetividade frequentemente apontadas como características condenáveis dos cientistas talvez sejam mais convenientes que a febre e a subjetividade para tratar de certos assuntos humanos. Pois não são as ideias da ciência que engendram as paixões. São as paixões que utilizam a ciência para sustentar sua causa.” (ibid.).

Mas será possível para qualquer pessoa deixar sua subjetividade de lado ao fazer qualquer coisa? Ou será que a ciência não é uma coisa feita por humanos? E será que as ideias da ciência realmente não engendram paixões? Para não ir muito longe, fiquemos com o momento pandêmico que vivemos hoje e as paixões despertadas por todas as ciências mobilizadas.

Apesar de Kuhn, Feyerabend, entre outros filósofos, historiadores e sociólogos da ciência dos anos 1960 já apontarem para uma prática científica não apartada de sua condição humana, social e política, para além da produção de teorias, ainda esperaremos uma década para que “a ciência tal qual se faz” comece a ter a sua importância reconhecida por Ian Hacking, Bruno Latour, Harry Collins, entre vários outros autores dos science studies.

Uma resposta

  1. amei seu texto.

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