Jung, leitor de Paracelso

O primeiro capítulo de O espírito na arte e na ciência, de Jung, se chama “Paracelso”, e é uma palestra proferida em 1929. Para caracterizar seu sujeito de estudo, Jung começa falando do mapa astral de Paracelso (1493-1541), nascido com o Sol em Escorpião, que é regido por Marte: “Paracelso não desmentiu esta natividade” (p. 9): tornou-se médico e uma pessoa deveras briguenta.

Do céu para a terra, Jung define como melancólica a cidade de Einsiedeln, na Suíça, terra natal de nosso médico e também de sua mãe: “o poder da terra prevalece” (ibid.). Seu pai, por outro lado, era suábio (região da Baviera), médico, filho ilegítimo, ressentido e amargurado. Segundo Jung: “Nada exerce maior influência psíquica sobre o meio ambiente da pessoa, sobretudo das crianças, do que a vida não vivida dos pais.” (p. 10). Paracelso torna-se, então “vingador da iniquidade cometida contra o pai” (ibid.).

Com uma aparência horrível, Paracelso carregava uma enorme espada, era autodidata e viajava muito. Em 1525 foi nomeado como médico na Basileia durante uma epidemia de sífilis, mas escandalizava seus colegas na universidade porque questionava a autoridade vigente dando aulas em alemão e trajando avental.

Com a meia-idade (38 anos!) de Paracelso, houve, de acordo com Jung, uma “inversão de direção na vida psíquica” (p. 12), um tipo de “espiritualidade especulativa ou intuitiva” (ibid.). Apesar da influência da Igreja, eram tempos de paganismo na arte e no espírito, de filosofia escolástica, de Marsílio Ficino e “outros espíritos progressistas” (p. 13). Uma nova era de perda da “segurança metafísica do homem gótico” (ibid.). Jung marca bem aqui a diferença entre países latinos e países bárbaros, germânicos: “originalidade bárbara, mas cheia de força primitiva, através de uma linguagem violenta que prescindia da tradição e da autoridade” (p. 14). Além de lecionar em alemão, Paracelso adotou uma terminologia filosófica extravagante.

Para Jung, a matéria primitiva, força original, heimarmene (compulsão dos astros) dos estoicos ou hen de Pitágoras e Empédocles são ressignificadas por Paracelso: “Estas imagens primitivas pertencem, na verdade, à humanidade em geral e podem reaparecer em qualquer cabeça de modo ‘autóctone’, independentes do tempo e do espaço.” (p. 14). Trata-se, pois, de um princípio materialista (não mecanicista) que se contrapõe à cosmovisão cristã, apesar de ser animista (anima mundi) e incluir noções de macrocosmo, microcosmo e correlação/correspondência: “homem e mundo são um agregado vivo da matéria” (p. 15). Acerca desse período de transição, Jung aproveita para profetizar sobre a modernidade: “Logo o mundo das ondinas e sílfides chegará ao fim e somenta na era do espírito terão festiva ressurreição quanto então, surpresos, perguntaremo-nos como foi possível esquecer tão antigas verdades. Contudo, é bem mais fácil admitir que aquilo que não se entende, não existe.” (ibid.).

A doutrina das marcas (semelhança de formas) é muito valorizada por Paracelso, que define as doenças não como corpos, “um odioso corpus alienum, como nós a entendemos hoje” (p. 16), mas como uma semente, parte da vida, algo espiritual. A cada ens morbi corresponde um arcanum da natureza.

No fim deste capítulo, Jung lembra o pluralismo de fontes e experiências, evoca a “concepção paracélsica da matéria animada pela psique” (p. 17), de homem como parte da natureza, e atribui a Paracelso, com sua noção de progresso como contradição (espírito + matéria), a paternidade das ciências naturais, das ciências que estudam a matéria e suas qualidades.

No segundo capítulo, “Paracelso, o médico”, que é uma conferência proferida em 1941, Jung repete alguns dados biográficos e da obra de Paracelso, e aprofunda alguns conceitos da “arte médica” (p. 24), como a doutrina do astrum in corpore (p. 22). Apesar de combater seus abusos, Paracelso reafirma a relação entre astrologia e medicina, na qual inclui também a alquimia e a filosofia: “O médico precisa, pois, de conhecimentos alquimistas a fim de poder, por analogia, diagnosticar as doenças das pessoas, partindo das doenças dos minerais.” (p. 26). Vale lembrar aqui que a alquimia é entendida como um processo de transformação filosófica, psíquica. Ainda sobre a astrologia, Jung nos lembra que: “O médico não deve ser apenas alquimista, mas também astrólogo” (ibid.). Sem isso, trata-se de um pseudomédico, pois o céu é um corpo que é parte do corpo humano, indica diagnóstico e terapia, é fonte de luz natural, ou seja, tem importância filosófica e epistemológica. O médico conhece o céu interior e, como astrólogo-astrônomo, também o exterior.

Aqui Jung nos lembra que o “céu estrelado” de Kant, seu imperativo categórico, substituirá, na modernidade, a heimarmene estoica, mas que Paracelso ainda é um seguidor da tábua de esmeralda, da noção de pai-céu, “o que há em cima é como o que há embaixo”. Ou seja, “o médico deve tirar suas conclusões sobre a doença e a saúde através da condição do pai, […] a constelação é etiológica.” (p. 29). Segundo Paracelso, “os astros copiam no homem” (ibid.), não entram nem enviam raios. Trata-se de corpora microcosmi astralia herdados do pai, equivalentes aos corpos sydereum sive astrale.

Além de diagnóstico e prognóstico, a astrologia serve para orientar a terapia e a produção dos remédios: é aí que se encontra a arte! Não há medicamentos universalmente bons para isso ou aquilo, é preciso um “céu favorável” (p. 30). Segundo Jung, Paracelso foi o primeiro a perceber isso.

A filosofia paracélsica é, segundo Jung, algo oculto dentro da matéria, um estado mental primitivo, a identidade inconsciente de sujeito/objeto, “é como um espelho” (p. 33) dos quatro elementos: filosofia da esfera superior (dos astros) e filosofia da esfera inferior (dos minerais), representadas, respectivamente, pela astronomia-astrologia (fogo/ar) e pela filosofia propriamente dita (terra/água). Ambas são inatas à natureza (incluindo o ser humano), mas é preciso mágica para revelar esse arcano. Importante destacar que a filosofia é vista como uma prática, um método alquimista: “o conhecimento filosófico é realmente uma atividade do objeto, […] lança para o homem seu sentido”. (p. 34)

Jung não poderia terminar esse texto sem explicitar a relação de Paracelso com a psicoterapia, e a sua bela noção de “conversar a doença” (p. 36), de relacionar cura e causa, que implica a influência sugestiva do médico sobre o doente, lembrando que a compaixão é inata ao médico: “onde não existir amor não haverá arte” (p. 37).

JUNG, C. G. O espírito na arte e na ciência. Tradução de Maria de Moraes Barros. Petrópolis/RJ: Editora Vozes, 2011.

3 Respostas

  1. Odete de Amorim Machado | Responder

    Resumo muito proveitoso pra mim. Obrigada.

  2. Maravilhoso texto!

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