Em tempos de pandemia: folha de lótus, escorregador de mosquito

Mais um texto da coluna da Marta no Jornal do Porto:

As mil e uma noites dos animais numa floresta mostram a preciosidade das vidas, inclusive a da humana.

No meio das centenas de árvores os morcegos ouvem as frutas. Uma lagarta manipula o envelhecimento das folhas que come. Aquelas moscas pequeninas, de bananas, as drosófilas, afogam suas mágoas em álcool quando são rejeitadas por outras moscas na fecundação. Os pássaros são o suporte das árvores nas matas e florestas.

A espécie de árvore Ceratocaryum argentum, na África do Sul, manipula besouros rola-bosta para que estes pequenos insetos, enrolados em fezes, façam suas sementes germinarem mais depressa, antes de serem comidas pelos roedores.

Todas essas histórias estão no livro Folha de lótus, escorregador de mosquitos, de Fernando Reinack. São 96 crônicas sobre os seres vivos aliados dos humanos, mas que os humanos não sabem. Ou não querem saber.

As florestas são locais das mais variadas vidas, bioformas e poesia existencial de seres que não falam, não gritam por socorro, mas inventaram intercâmbios para sua sobrevivência.

Na floresta amazônica ou mesmo em florestas de semidesertos, a pressão que as árvores usam para obter água nas condições normais é próxima da pressão que elas sofrem embolia irreversível, diz Fernando Reinack.

No lugar onde chove muito, as árvores da Amazônia vivem no limite de sua pressão para capturar água. Se a água diminuir, elas sofrem embolia irreversível. O mesmo ocorre com uma árvore no cerrado. Neste local, as árvores trabalham com uma pressão mais alta, mas muito próxima da embolia.

Nesse intenso mar de vidas, as plantas conversam com os insetos. Nós, humanos, comemos feijão ou couve sem problema. Mas quando os insetos resolvem comer grãos ou suas folhas, as plantas revidam.

Conta-nos Reinack que uma couve-de-bruxelas, feliz sob o sol, recebe uma borboleta branca (Pieris brassicae) que deixa sobre ela muitos ovos. É uma ameaça à couve; logo larvas esfomeadas a comerão. Mas no terceiro dia, uma vespa localiza os ovos da Pieris e deposita, dentro de seus ovos, seus próprios ovos. Quando os ovos da vespa eclodem, suas filhas larvas comerão os ovos da borboleta. Ufa, a couve se salva dos herdeiros da borboleta.

Isto quer dizer que há uma vasta rede de comunicação nas florestas. Seja uma comunicação visual, uma comunicação de pequenos ruídos, dos cantos dos pássaros, ou dos macacos.

Há uma interdependência dos seres vivos. Graças a isso, muita comida chega aos humanos.

Existem também as comunicações afetivas. O amor das mães pelos filhotes entre macacos nada fica a dever àquele dos humanos. Nos pássaros também.

Até mesmo os machos das pequenas drosófilas ficam ressentidos se abandonados por fêmeas nas cópulas e bebem até cair.

Fica a minha pergunta: por que, então, matamos as florestas? Para plantar soja? Soja nem é alimento de humanos. Para criar gado? Mas como o gado vai sobreviver em locais com temperatura tão alta como no norte do país onde a floresta amazônica é devastada pelo próprio ministro do meio ambiente?

No Norte do Paraná, criadores de gado receberam o conselho de plantar árvores para o gado. Os bois não aguentam a temperatura local. Caem de cansaço.

Por que matamos milhares de vidas e de redes de comunicação que são muito parecidas com as dos humanos. Estaríamos matando-nos?

Minha conclusão é a mesma da bióloga estadunidense Lyn Margulis: não sobreviveremos, mas não fiquem chateados, o planeta Terra continuará no sistema solar, habitado por bactérias e vírus.

Uma resposta

  1. #forasallesebolsonaro

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