Em tempos de pandemia: alguma coisa está fora de ordem

Coluna da Marta no Jornal do Porto, 14 de abril de 2020

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Vírus-rei

Pensei muito em um nome para esta Coluna no Jornal do Porto. Diga-se de passagem, sou sobrinha de um dos proprietários do jornal e prometi me comportar nestas linhas da Coluna. Não que o jornal tenha me exigido algo. Simplesmente não vou tratar de política no sentido mais popular do termo, o de homens de partidos, eleições e polêmicas construídas pelas mídias oficiais.

Hoje, para iniciar a Coluna, resolvi pensar o coronavírus (calma, pessoas, vou falar apenas da presença dele) nas cidades, países, planeta como um evento que obriga a reclusão dos humanos, mas permite o revigorar das espécies de animais, de plantas, aquilo que chamamos de natureza.

Do ponto de vista dos seres, os vírus são bem mais velhos do que os homens e os outros animais. Isto lhes dá muitas vantagens de sobrevivência. Do ponto de vista da ciência Biologia, o coronavírus é da mesma família da gripe provocada pelo coronavírus SARS – Síndrome respiratória aguda grave – e do coronavírus Mers – Síndrome respiratória do Médio Oriente.

Darwin faria um bom texto descrevendo o processo de seleção natural do ramo corona, do Coronavírus 19 ou Covid-19. Na árvore genealógica desta família de vírus, o covid-19 é primo do Sars e do Mers, também chamado de Sars-CoV-2.

Sars e Mers provocam gripes com graves problemas respiratórios, dores no corpo, febre e tosse. O último caso de Sars foi em 2014. O Mers apareceu na Coreia do Sul em um homem que viajara ao Oriente Médio. Entre 2012 a 2018 houve muitos casos de Mers na Jordânia e Arábia Saudita.

Nenhum dos dois vírus foram criados em laboratório. Os vírus hospedam-se em animais tal qual tantos outros animais como, por exemplo, o mosquito Aedes aegypti hospeda o vírus da dengue. Sars e Mers se dispersaram da China e Oriente Médio aos EUA e outros países; dengue é conhecida desde 1762 e de 1818 no Egito. Dispersou da África para todo o mundo. No Brasil o vírus encontrou um bom lugar para viver e reproduzir. No século 19 temos descritos dois casos no Brasil, um em Curitiba, outro em Niterói. Nos séculos 20 e 21 a dengue já é a marca registrada do país.

O que podemos dizer? Que os vírus habitam florestas em vários hospedeiros. Se faltam matas e florestas, estes seres, assim como outros de origem animal, circulam pelo planeta pelas grandes levas migratórias, turísticas, religiosas e econômicas. Isto vale também para o Covid-19, o primo último na escala evolutiva. A diferença? O covid-19 está mais refinado que seus primos. Ele apresenta uma excelente afinidade com o tecido pulmonar, ou seja, se “dá bem com o pulmão” e se reproduz facilmente dentro das células deste órgão. Por isso, a violenta pneumonia e a fibrose pulmonar em quem adquire esse ser aparentemente simples.

Pensemos, então, na rápida disseminação do covid-19. Muitos ecologistas trabalham – e eu também – com a ideia de que a marcha do vírus nas cidades ocorreu com o desmatamento de florestas, com a construção de urbes sem jardins, árvores nas calçadas, praças, quintais, distanciamento entre as casas. As cidades se tornaram jardins de pedras. As plantas e animais foram afastados do homem. Folhas são lixos para os moradores. Deveriam ser adubo, mas não o são. Animais são meros objetos de afeto ou são comida exótica. Não estranhemos se chineses comem gatos silvícolas infectados por morcegos. Estes tipos de vírus também são encontrados em porcos confinados. Então, como ficamos? Tudo indica que uma vez que tiramos as matas, os morcegos e outros animais que alojam vírus migram para as cidades ou campos de criação de animais.

O resultado é esse: florestas derrubadas mais o comércio impróprio de carne de gato do mato e mesmo carnes comerciais dão ao vírus a capacidade de sua reprodução e, é claro, a gripe nos primatas humanos. Os troncos derrubados e os animais mortos se vingam dos homens. Vingam-se da sociedade.

Pois não é que um tatu foi filmado andando à noite longa extensão de uma das maiores e principais avenidas centrais de Maringá? No insólito chão de piche, na ausência de árvores e no asfalto, anda um mamífero. Quanta beleza nesta noite de segunda-feira, dia 30 de março de 2020!

A natureza tatu se move nas ruas de asfalto quando os homens se retiram. Meu terapeuta lembrou-me nesses dias um texto da revista Carta Capital sobre o orixá Omulu-Obaluaiê, de matriz africana, o médico dos pobres, ensinando que nenhum dinheiro compra a saúde. Nessas épocas de pandemia, é a doença que nos ensina que a saúde é um bem precioso.

O que podemos aprender nesses dias de quarentena? Aprendemos a consumir menos; a dar importância para o SUS, feito para não dar lucro. Aprendemos a pensar mais, procurar causas culturais para esta pandemia. Aprendemos que também os representantes da política do país não têm caminhos claros para a contenção da pandemia. E, principalmente, podemos reaprender alguma coisa sobre a nossa identidade humana vendo um tatu alegre no asfalto rude e dois pandas copulando num zoológico chinês depois de dez anos juntos.

Coluna da Marta no Jornal do Porto

Uma resposta

  1. Viva Darwin!

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