O golem, capítulo 1

O Roger preparou um resumo bem-humorado do capítulo 1, “Conhecimento comestível: a transferência química da memória”.

“Ser planária algum tempo atrás”, dizia meu avô, “que era complicado”. Um maluco aí pegou um monte delas, colocou num trem, deu banho, raspou o cabelo, jogou num campo de concentração. Era treino de percurso em labirinto todo dia, era ficar no claro e depois no escuro, tinha choque a rebento, dedo no olho, chute no saco, e o canibalismo rolava solto, muleke. A ordem era tocar o terror nas planárias, “planária não era gente”, e se fosse hoje, tinha “worm lives matter” e o escambau pra todo lado. Vê se rato de laboratório era tratado assim. Esses aí tinham luxo e requinte, comiam bem, labirinto aquecido e férias três vezes por ano. Planária, não, era pior que gado.

McConnell era o nome dele, fez o que quis, se lambuzou todo com as planárias, parecia cafetão da baixa augusta, botava as meninas pra trabalhar sem dó, e batia na cara se chiasse. E qual a finalidade? Provar que a memória poderia ser sintetizada e transferida de um ser a outro. Senhor McConnell não poderia simplesmente pedir que uma contasse a outra como fazer o percurso correto? Claro que não. Precisava da malícia, da coisa malfeita, da experiência, do carimbinho de qualidade cientifica. Tudo isso porque o sujeito não queria ler Shakespeare, aprender tabuada ou um outro idioma, mas consumir um comprimido e sua memória estaria repleta de informações deste tipo obtidas por outro ser humano.

Esta audácia ou preguiça de McConnell, dependendo do ponto de vista, custou mais de duas décadas de experimentos. E tudo para nada, porra nenhuma, niente. Os únicos comprimidos que tenho à disposição neste sentido são para esquecer as coisas, ou para torná-las mais aprazíveis. Você está me devendo McConnell!!! Poderia ter passado por anos de graduação com apenas algumas cápsulas, mas tive que ler intermináveis textos e livros. Deus salve Unabomber (os entendedores entenderão…). Mas esperar o quê de um cientista que aparentemente não sabe como funciona a comunidade na qual está inserido? O cara vai lá e se mete em controvérsias atrás de controvérsias… Primeiro escolhe uns vermes insignificantes para discutir memória em mamífero. Véio… você quer pílula de Shakespeare mas estuda o tiozão do whatsapp? Vacilo. Depois treina os bichos para fazer percurso em caixa de vidro, “ah mas tratei com carinho”, meu filho de 4 anos faz essas experiências também, tio. Aí o que acontece? Vira piada. Aí como o sujeito se defende? Cria uma revista científica, dá um nome bizarro “the worm runners digest” e publica quadrinhos e sátiras da própria pesquisa… Valeu, Campeão!

Assunto morreu então? Claro que não, tem louco pra tudo, até pra pílula de memória. Quando tudo estava perdido, aos 45 do segundo tempo, a comunidade rindo do mané, as planárias rindo, rolando no visco, estudante secundarista rindo, Shakespeare rindo, vem um discípulo, sim, todo louco tem um, e resolve continuar a pesquisa. “Ungar é o nome dele, Galvão, dizem que é dibrador e menino transante da periferia, vai partir pro gol”. Chegou cheio de marra, nada de planária, a coisa é com rato e peixinho dourado, isso mesmo, você pega esses peixinhos que têm no teu aquário e bota pra brincar de claro escuro até os bichos ficarem putos contigo, extrai do cérebro deles um troço químico e sintetiza no teu liquidificador da walita, mas é aquele do polishop que custa teu salário todo ou em 20x com juros. Foi lá o Ungar, Escotofobina F.C., gingou pra todo lado, levou a bola no peito, e foi derrubado pelo zagueirão troncudo que mete medo até na mãe do juiz. “O que foi isso, Casão?” “Ah, Galvão, era um talento, mas faltou maturidade, olha lá ele estirado no chão”. É a prova viva de que estatísticas não valem muito… e a gente fica aqui esperando a pílula de Game of Thrones.

Bibliografia:

COLLINS, Harry; PINCH, Trevor. O golem: o que você deveria saber sobre ciência. Tradução de Laura de Oliveira. São Paulo: Editora Unesp, 2003.

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