O golem, capítulo 3

Em nossos Seminários de Science Studies às quartas, o Pedro apresentou o capítulo 3, “O sol em um tubo de ensaio: a história da fusão fria”, do livro O golem: o que você deveria saber sobre ciência, de Harry Collins e Trevor Pinch.

Para ver os slides, clique aqui ou na imagem acima. O resumo que ele preparou segue abaixo:

O Sol em um tubo de ensaio

No dia 23 de março de 1989, em uma coletiva de imprensa realizada na Universidade de Utah, Stanley Pons e Martin Fleischman, dois dos eletroquímicos mais respeitados do mundo com suas reputações construídas através de pesquisas de alto risco, anunciaram que haviam conseguido mais um milagre: domar o próprio Sol.

Na verdade, o mecanismo usado para isto era bem simples. Uma célula de eletrólise consistindo em um frasco de água pesada (água formada com átomos de deutério, ao invés do hidrogênio comum), um cátodo de paládio, um ânodo de platina e deuteróxido de lítio como sal. De acordo com Fleischmann e Pons, neste caldeirão, com uma descrição digna de uma obra de ficção científica, os átomos de hidrogênio pesado se fundiriam em hélio, gerando subprodutos nucleares, trítio (outro isótopo do hidrogênio conhecido como hidrogênio superpesado) e muita energia na forma de calor. Estava aí a motivação para as pesquisas em “fusão fria”, copiar o processo que as estrelas usam para gerar energia sem necessitar da mesma quantidade de matéria e espaço.

A notoriedade deste episódio da história da ciência é devida ao uso de meios não convencionais de difusão da informação. Como dito acima, o anúncio da descoberta foi em uma coletiva de imprensa, não por meio de um artigo revisado por pares, ao que se seguiu um frêmito de cientistas que se inteiravam da situação por e-mails, televisão, faxes e boca-a-boca, ansiosos para replicar o experimento. Infelizmente, os resultados positivos surgiam para, logo em seguida, serem desacreditados.

Acusações de fraude e roubo de ideias contribuíram para manter a controvérsia na mídia. Mais de 60 anos antes, Paneth e Peters, com a intenção de inventar um processo de produção de hélio, chegaram a uma célula de eletrólise muito parecida com aquela de Pons e Fleischmann. Inicialmente o experimento parecia ter obtido sucesso, mas em 1927 a dupla se retratou, informando que o hélio detectado era um contaminante. Os cientistas de Utah afirmavam desconhecer esse histórico, mas a edição de 29 de abril de 1989 da revista New Scientist diria: “pode ser mais do que coincidência que Paneth e Fleischmann estiveram no mesmo departamento de química na década de 50”.

Outro pesquisador envolvido nesta controvérsia foi Steven Jones. Físico de formação, ele já havia realizado pesquisas sobre fusão fria em 1982, e voltou a trabalhar com o assunto em 1986 chegando a um mecanismo muito próximo da célula de eletrólise de Pons e Fleischmann. Embora o laboratório de Jones também fosse localizado no estado de Utah, ele só tomou conhecimento do trabalho da dupla pois foi parecerista de um pedido de financiamento enviado por eles ao governo americano.

Jones, Pons e Fleischmann negociaram que ambos enviariam seus artigos para a Nature no dia 24 de março de 1989. A controvérsia estourou quando um resumo de Jones foi vazado, motivando a dupla a anunciar seus resultados em uma conferência de imprensa para protegerem sua prioridade. Cabe lembrar que os resultados de Jones eram muito mais modestos, e não alardeavam a possibilidade de energia farta e alto retorno econômico como a dupla fazia, apenas que pequenas quantidades de deutério podiam se fundir em hélio dentro do paládio produzindo pouca ou nenhuma energia excedente. Jones era um cientista clássico, controlando sua retórica para proteger sua reputação, enquanto Pons e Fleischmann viam uma possibilidade de se tornarem os fundadores do próximo modo de produção de energia que supriria a humanidade.

Ao todo, podemos elencar sete pontos principais que motivaram essa controvérsia e levaram ao descrédito do grupo apoiador da fusão fria:

  • Falta de credibilidade como físicos: Pons e Fleischmann eram eletroquímicos “se metendo” no assunto de físicos. Houve, portanto, um estranhamento e a criação de uma situação “nós versus eles”, na qual os físicos não aceitariam um resultado positivo, especialmente ante as implicações sociais e monetárias;
  • Impossibilidade teórica da fusão: Aliado a questão político-departamental, os físicos tinham a teoria vigente a seu lado. Teoricamente, a pressão necessária para a fusão seria impossível de ocorrer dentro do paládio;
  • Histórico de fraudes no campo: Os físicos e a comunidade científica em geral tinham motivos para serem céticos, frente a diversos anúncios de fusão fria malogrados que faziam parte de sua história. A pesquisa de Pons e Fleischmann, para eles, era apenas mais uma;
  • Falta de detalhamento intencional: A onda de replicações do experimento gerou resultados convenientes para todos, por um lado os resultados negativos poderiam ser justificados pois os times não haviam reproduzido o mecanismo exato de Pons e Fleischmann e os resultados positivos eram suspeitos devido à mesma falta de informações metodológicas. Collins e Pinch afirmam que isso poderia ser uma preocupação da dupla em garantir sua patente, mas também quanto a periculosidade do experimento que gerava muita energia e produzia trítio, um componente das bombas H;
  • Medições questionáveis de nêutrons: As medições de nêutrons realizadas pela dupla não eram satisfatórias para a comunidade de físicos.
  • Medição de trítio: Após diversas falhas na medição de nêutrons a dupla passou a medir trítio, uma decisão científica infeliz uma vez que o trítio é um contaminante do deutério, assim qualquer resultado positivo obtido era explicado pela oposição como pré-existente;
  • Possibilidade de fraude: Em uma apresentação em Harwell, as medições de nêutrons da dupla foram questionadas e suspeitamente apareceram corrigidas na publicação oficial de 1989. Esta manobra gerou uma série de acusações de fraude e contribuíram para o desgaste da imagem dos químicos que agora pareciam não só alheios ao campo da física, mas incompetentes em suas medições;

Vale lembrar que para Pons e Fleischmann o ponto importante de seu experimento eram os resultados calorimétricos, em outras palavras, a quantidade de calor liberada pela reação, de modo que o artigo contendo os resultados finais (de 1990) não se apoiava sobre a medição de nêutrons. Os físicos, porém, não achavam estes resultados convincentes sem algum tipo de lastro para explicá-los, eles afirmavam que o calor poderia estar vindo de reações meramente químicas.

Douglas Morrison, fundador da newsletter que acompanhou a controvérsia na época, delimita quatro milagres que deveriam ser explicados para que algum crédito pudesse ser conferido às alegações de Pons e Fleischmann: 1) A estrutura cristalina do deutério impede que eles se fundam, mesmo dentro do paládio; 2) Havia contradições entre os proponentes da fusão fria que haviam reportado resultados positivos tanto com hidrogênio pesado quanto com o leve, que deveriam ser mutuamente excludentes; 3) A quantidade de energia produzida de acordo com Pons e Fleschmann teria gerado radiação o suficiente para matar os pesquisadores; e 4) as proporções de subprodutos nucleares não batem com o que é esperado.

Collins e Pinch concluem que o erro daqueles que seguem a narrativa da ciência oficial sem reflexão é acreditar que os experimentos dos opositores da fusão fria foram cruciais e alheios a todas as falhas, quando na verdade eles também são sujeitos a ambiguidades e negação pelo grupo atacado. Outro ponto importante é que Pons e Fleischmann não deveriam ser estigmatizados por seu uso da mídia, eles fizeram o que qualquer um faria com um invento de tamanho potencial, garantiram sua prioridade. Cientistas são sujeitos à sua realidade social, portanto sujeitos às pressões da mídia, e a ciência não é diferente.

Para ver uma linha do tempo simplificada desta controvérsia, acesse: https://time.graphics/pt/line/252559.

REFERÊNCIAS

COLLINS, Harry; PINCH, Trevor. The Sun in a test tube: the history of cold fusion. In: _________. The golem: what everyone should know about science. Nova York: Cambridge University Press, 1993. p. 57-78.

PRACONTAL, Michel de. A impostura científica em dez lições. São Paulo: UNESP, 2002. p. 137-151.

NEW ENERGY TIMES. Disponível em: <newenergytimes.com>. Acesso em: 19 abr. 2019.

 

 

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