Traduções luso-brasileiras da Origem

Darwin na fachada da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra

Enquanto ainda escrevo o artigo com os resultados da minha pesquisa de pós-doc sobre as traduções luso-brasileiras da Origem, aproveito para registrar alguns dados levantados no ano passado. O relatório de pesquisa já se encontra aqui.

Neste momento, o levantamento bibliográfico e a catalogação das traduções e dos tradutores, além dos plágios e traduções problemáticas, tem a seguinte configuração cronológica:

EM PORTUGAL:

1877 – Tradução de um pequeno trecho do capítulo 3 da Origem por Teófilo Braga em seu livro Traços gerais de filosofia positiva (sem informação se foi direto do inglês);

1882 – Tradução (do inglês) de vários trechos da Origem em artigos científicos de Francisco de Arruda Furtado, naturalista português que também era correspondente de Darwin;

1886 – Tradução de uma seção inteira – “O instinto escravagista das formigas” – do capítulo 8 da Origem por tradutor anônimo no jornal O Povo de Aveiro (sem informação se foi direto do inglês);

1913 – Tradução completa da Origem (sexta edição), a partir de uma tradução francesa, feita pelo médico Joaquim Dá Mesquita Paul e publicada pela Livraria Chardon, de Lelo e Irmão (depois Lello & Irmão);

1939 – Tradução dos dois primeiros capítulos da Origem pelo professor e engenheiro António Lobo Vilela em seu livro Seleção artificial (sem informação se foi direto do inglês);

1941 – Tradução de vários trechos da sexta edição inglesa da Origem por Alberto Candeias em seu livro A vida e a obra de Darwin;

2005 – Primeira tradução portuguesa completa da Origem feita diretamente do inglês (primeira edição) por Dora Batista para as Publicações Europa-América;

2007 – Tradução dos capítulos 3, 4, 6 e parte final do último, feita por Susana Almeida para a Editora Coisas de Ler (sem informação se foi direto do inglês);

2009 – Reedição revisada por João Arrepia da tradução de Joaquim Dá Mesquita Paul feita por Lello Editores;

2009 – Tradução completa da Origem diretamente do inglês (sexta edição), feita por Ana Afonso para a Editora Planeta Vivo (atual Editora Exclamação);

2009 – Tradução completa da Origem diretamente do inglês (primeira edição), feita por Vítor Guerreiro para a Editora Guimarães (saiu também pela Círculo deLeitores);

2011 – Publicação da mesma tradução do Vítor Guerreiro pela Editora Verbo-Babel.

NO BRASIL:

1982 – Tradução de uma edição ilustrada e reduzida da Origem escrita por Richard Leakey (Trad. Aulyde Soares, ed. UNB/Melhoramentos);

1985 – Tradução da primeira edição da Origem por Eugênio Amado (Ed. Villa Rica/Itatiaia);

1992 – Tradução do esboço da Origem, escrito por Darwin em 1842-4, por Mario Fondelli (Ed. Newton Compton);

2011 – Tradução da sexta edição da Origem por Soraya Freitas (Ed. Madras);

2014 – Tradução da sexta edição da Origem por Anna e Carlos Duarte (Ed. Martin Claret);

2018 – Tradução da primeira edição da Origem por Daniel Miranda (EdiPro);

Em andamento – Tradução da sexta edição da Origem pelo biólogo Felipe A. P. L. Costa (Edição do Autor).

Infelizmente a história da tradução da Origem no Brasil, além de ser tardia, é marcada por plágios e edições problemáticas. Segue o histórico:

1974 – Publicação pela Editora Hemus de uma tradução da Origem das espécies, supostamente feita por um desconhecido Eduardo Fonseca, mas que, na verdade, é plágio da edição portuguesa de Joaquim Dá Mesquita Paul [essa mesma tradução foi republicada várias vezes pela própria Editora Hemus e por outras editoras, como Ediouro (1987), Pocket Ouro (versão reduzida, só capítulos 3, 4, 6, 7 e 15 num livro chamado A luta pela sobrevivência de 2009) e Folha (2010)];

2001 – Publicação pela Editora Martin Claret de uma tradução da Origem atribuída a um fictício tradutor chamado John Green, mas que é, de fato, um plágio que mescla a edição portuguesa de Joaquim Dá Mesquita Paul e a brasileira de Eugênio Amado (em 2014 a editora se redimiu publicando uma tradução real, já mencionada acima, feita por um casal de tradutores que realmente existem e com quem entrei em contato);

2004 – Publicação pela Editora Madras de uma tradução da Origem atribuída a Carolina Furukawa, que sequer é tradutora, e sim ex-funcionária da editora que teve seu nome usado indevidamente nesta e em outras traduções. Trata-se de mais um plágio da tradução de Joaquim Dá Mesquita Paul. A editora se redimiu em 2011 com uma nova edição do livro já mencionada acima, cuja tradução foi feita por uma tradutora que realmente existe, mas com quem, infelizmente, não consegui contato.

E o maior problema de todos, já mencionado aqui e aqui:

2009 – Ano em que se comemoravam os 200 anos de Darwin e os 150 anos de publicação da Origem das espécies – Publicação pela Editora Escala de uma tradução da Origem feita por André Campos Mesquita. Essa tradução, além de conter muitos erros grosseiros, problemas de formatação, revisão etc., apresenta termos em espanhol no meio do texto, o que nos leva a crer que se trata de um plágio de edição espanhola. Investigando justamente esse tema – plágios de tradução – Denise Bottmann (2012) descobriu a edição espanhola que serviu de base para essa tradução: trata-se de uma tradução feita em 1921 pelo biólogo Antonio de Zulueta, facilmente encontrada na internet. Clique aqui para ver o material da Denise sobre os plágios da Origem.

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