Spencer, honorável monista ingênuo

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Em julho/2016 fizemos um Clube de Revista sobre o evolucionismo de Spencer. Não por gosto, mas por necessidade, tendo em vista que, por conta das nossas pesquisas sobre Darwin e Wallace,  já sabíamos de antemão que a recepção do darwinismo tem uma coloração spenceriana. Discutimos o seu livro sobre o progresso, Progress, its law and cause, traduzido às vezes como Do progresso, sua lei e sua causa, às vezes como Lei e causa do progresso.

Veja o que a Marta escreveu sobre a nossa conversa.

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Herbert Spencer (27 de abril de 1820 – 8 de dezembro de 1903), engenheiro inglês chamado também de filósofo, escreveu vários livros. Dentre eles, talvez o mais comum entre nós, brasileiros, seja Do progresso, sua lei e  sua causa.

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A luta de Spencer parece ter sido aquela devotada à criação de uma teoria que pudesse dar conta de todas as dimensões da vida; uma teoria única para explicar a origem das espécies, dos humanos, das sociedades, das línguas, das artes, do modo de vida dos diferentes povos.  Iniciou sua jornada antes da publicação de A origem das espécies por Darwin em 1859. Em 1830 já havia escrito algo em direção à sua ideia mais famosa, a de progresso. O progresso cunharia as modalidades da vida biológica e da existência humana em seus aspectos políticos, econômicos e sociais. Nada que nos surpreenda, porque o século XIX europeu era o próprio progresso tecnológico e das ciências de acordo com seus pensadores, inventores, cientistas, médicos, educadores, escritores; a exceção eram os primeiros contestadores da sociedade capitalista, como os blanquistas (seguidores de Louis Auguste Blanqui [1805-1881]), os socialistas, os anarquistas e, mais tarde, os comunistas.

Spencer foi na direção dos iluministas sem, claro, a época e a profundidade deles. Queria analisar todos os aspectos da sociedade, a população, a indústria, a religião, a família, a escola, como fizeram os iluministas, e propor o uso da razão e da observação científica, mas para afirmar a sociedade industrial diante de seus obstáculos que, na visão de Spencer, eram aqueles que queriam o fim do Estado.

Na terceira década do século XIX, entre 1830 até 1848, na França, os operários iniciam um período de contestação da sociedade capitalista. Era a pressão dos/as trabalhadores/as contra a longa jornada de trabalho, o trabalho exaustivo e os baixos salários. Esse movimento também ocorria na Grã-Bretanha, Alemanha, Polônia, Suíça, entre outros países. Nessa época, os sindicatos já eram reconhecidos. Hobsbawm (2015, p. 58) descreve o período:

“As organizações blanquistas do final das décadas de 1830 e 1840 eram consideradas fortemente constituídas de membros das classes mais baixas. Da mesma maneira se considerava a Liga Alemã de Proscritos (que por sua vez transformou-se na Liga dos Justos e na Liga Comunista de Marx e Engels), cuja espinha dorsal se constituía de artífices alemães expatriados. Mas este foi um caso muito excepcional. A grande maioria dos conspiradores consistia, como antes, de homens das classes profissionais ou da baixa nobreza, estudantes e escolares, jornalistas etc, embora talvez com um componente menor (fora dos países ibéricos) de jovens oficiais do que no apogeu do período carbonário. Além disso, até certo ponto, toda a esquerda europeia e americana continuava a lutar contra os mesmos inimigos, a partilhar aspirações comuns com um programa comum. ‘Repudiamos, condenamos e renunciamos a todas as desigualdades e distinções hereditárias de ‘casta”, escreveram os Democratas Fraternos (compostos de ‘naturais da Grã-Bretanha, da França, da Alemanha, da Escandinávia, da Polônia, da Itália, da Suíça, da Hungria e de outros países’) em sua Declaração de Princípios. ‘Consequentemente, consideramos os reis, as aristocracias e as classes que monopolizam os privilégios em virtude de suas posses de terras como usurpadores. Os governos eleitos e responsáveis por todo o povo são o nosso credo político’.”

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A obra de Spencer – Do progresso, sua lei e sua causa ou Lei e causa do progresso – afirma as leis das mudanças do mais simples ao mais complexo, do uniforme ao heterogêneo, do indefinido e indeterminado ao definido e determinado. Essas leis operariam no desenvolvimento dos organismos biológicos e socais, a evolução seria o processo infinito agindo por meio de agentes externos, e não haveria estado de equilíbrio; daí a dissolução, caso o desequilíbrio não se mantivesse. É uma forma de pensar o desenvolvimento social e biológico de maneira cíclica, mas em direção ao progresso, estado esse que não poderia ocorrer por revoluções ou reformas bruscas.

Seu contato com a obra de Darwin levou-o a acrescentar os conceitos de “sobrevivência do mais apto” e “seleção natural” à sua noção de progresso. A pressão pela sobrevivência e a seleção natural tornam-se leis que regem as duas etapas de evolução social: a militar e a industrial. Na primeira predomina a defesa da nação mais do que do indivíduo; daí a necessidade do exército. Na segunda, deve sobressair a atividade livre e independente, a cooperação e a divisão do trabalho. Spencer chega a supor uma federação pacífica dos povos pelo desenvolvimento de um espirito altruísta, o mais complexo espirito. Essa formulação de progresso do espírito faz dele um dos intelectuais mais lidos do liberalismo estadunidense.

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A teoria de Spencer – sem nenhuma base na experiência humana ou na experimentação científica – afirma que todas as dimensões do mundo biológico e social têm uma origem única. Chamarei essa redução de monismo, que entendo aqui por meio da definição de Winograd (2004, p. 1): um sistema filosófico que considera o “conjunto das coisas como redutível a uma unidade, seja do ponto de vista das leis lógicas ou físicas, seja do ponto de vista moral”. A palavra monismo se aplica, segundo Winograd (2204, p. 1), “às ontologias que remetem as coisas à matéria ou somente à alma, daí monismo materialista ou monismo idealista”. Do ponto de vista lógico e metafisico, o monismo liga-se à ideia de existência do absoluto e, nesse sentido, opõe-se ao pluralismo. Do ponto de vista científico, filosófico e moral, monismo significa unidade do universo sem contradição entre espírito e matéria (Winograd, 2004).

Longe de classificar as teorias, minha referência a um monismo de Spencer vem de sua insistência – bastante ingênua e irritante – de que tudo, absolutamente tudo, vem de um início indefinido e indeterminado e que evolui para algo complexo; do protoplasma à sociedade inglesa. Do protoplasma à língua inglesa, do protoplasma à indústria inglesa.

Durant (s/data), em estudo do percurso de Spencer, expõe as opiniões do engenheiro e filosofo inglês sobre muitas questões. São interessantes suas afirmações sobre a inteligência e a maternidade. Para Spencer, a maternidade acarreta a diminuição da atividade intelectual e, por isso, ora essa mulher poderá votar, ora não. Essa embriologia social mostra que o crescimento da matéria (humana) leva ao progresso histórico das sociedades. E, é claro, da sociedade inglesa.

Esse monismo de Spencer, que junta todas as dimensões humanas em apenas uma (a redução de todos e tudo à lei de causa e efeito, do imperfeito ao perfeito ou à extinção, se mantiver a imperfeição), fez dele um intelectual assaz sintético. Ele próprio diz que, até os quarenta anos, sua “vida poderia ter sido adequadamente caracterizada como miscelânea” (Durant, s/data, p. 27) e que, para reduzir essa mistura a uma lei, mostrou a evolução da matéria, da mente, da sociedade, da nebulosa até o homem, por uma única via.

Creio que o leitor já percebeu meu desgosto com Spencer, mas dele retiro duas questões que, penso, são interessantes para o debate de hoje, no século XX:

A primeira é que o reducionismo monista é ainda uma tentação de muitos estudiosos. A ideia de que apenas uma teoria explica todas as manifestações do mundo e do humano cria, ainda hoje, certos exageros. Ouso dizer que uma ou mais correntes marxistas (e aviso: sou partidária de Marx) tomam a teoria de Marx como sendo capaz de explicar as manifestações da mente, da inteligência, da arte, entre outras.

A segunda é a de que a relação de igualdade entre biologia e sociedade nem sempre dá bons frutos. Geralmente, o sinônimo entre a biologia e a cultura dá saídas únicas para responder o que é o homem. Uma delas é o determinismo genético ou neurológico. É possível discutir essas duas dimensões? Sim, é. Na minha opinião, o debate entre biologia e sociedade é fecundo na obra de Jean Piaget e também em outras, como Noam Chomsky. Deixemos essa discussão para outro momento.

Referências

DURAN, Will. A filosofia de Herbert Spencer. Editora Tecnoprint Ltda, sd.

HOBSBAWM, Eric. Pessoas extraordinárias. Resistência, rebelião e jazz. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.

SPENCER, Herbart. Do progresso, sua lei e causa. Disponível em: www.ebooksbrasil.org, 2002.

WINOGRAD, Monah. Freud é monista, dualista ou pluralista? Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica, Rio de Janeiro, vol. 7, n.2, julho/dezembro 2004. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-14982004000200002. Acesso em: 25 de julho de 2015.

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