Pérolas dos alunos – Beatriz

Beatriz Vesco Diniz_biomedicina_2016

Beatriz Vesco Diniz – aluna de Biomedicina/2016

O canário kuhniano

Thomas Kuhn trouxe, com A estrutura das revoluções científicas, uma nova abordagem da ciência, causando novas reflexões sobre essa área tão valorizada pela sociedade. É possível estabelecer uma ligação entre as ideias de Kuhn e o conto “Ideias do Canário”, de Machado de Assis, e é este o objetivo da dissertação que se segue: analisar o conto machadiano, relacionando-o com os conceitos de Kuhn, através de uma síntese de ambos e posteriormente estabelecendo a ligação entre eles.

“Ideias do Canário” conta a história de Macedo, “um homem dado a estudos de ornitologia”, e o canário falante que ele adquire em uma loja de belchior. Macedo estuda o pássaro e, ao longo do texto, pergunta várias vezes ao canário: “O que é o mundo?”, e o pássaro dá cada vez uma resposta diferente. Primeiro ele diz que o mundo é uma loja de belchior, depois um jardim e por último o céu azul com o sol.

Já em A estrutura das revoluções científicas, Kuhn define ciência como uma atividade que busca resolver problemas. Os conceitos criados por ele são: paradigma, ciência normal, quebra-cabeças, anomalia e revolução científica. O primeiro é a visão de mundo do cientista, os métodos e teorias já aceitas pela comunidade científica. A ciência normal é a ciência cotidiana e que busca resolver os quebra-cabeças do paradigma vigente. Quebra-cabeças são os problemas propostos pelo paradigma, que podem ser resolvidos pelos cientistas. Anomalias são os quebra-cabeças não resolvidos ou problemas inesperados, podendo indicar a inadequação do paradigma. Os cientistas se esforçam para adequar a anomalia ao paradigma, mas, se isso não for possível, ocorre uma revolução científica, que é a substituição de um paradigma por um novo. Nesse período de crise do paradigma ocorrem controvérsias e discussões na comunidade científica, até que se entre em um acordo e comece uma nova ciência normal.

Assim, percebe-se no conto a troca de paradigmas do canário. Cada vez que ele muda de “casa” (loja de belchior, jardim e livre na natureza) ocorre literalmente uma mudança na visão de mundo para o canário, ele esquece o que antes achava correto e adquire uma nova perspectiva do mundo (paradigma), como se fosse uma “revolução científica”. Ele também vivia feliz em cada lugar (ciência normal) até que surgisse a “anomalia” (Macedo comprá-lo, fugir da gaiola). E se esquecer completamente da visão de mundo anterior equivale à noção de “progresso não cumulativo entre os paradigmas”.

Portanto, é possível interpretar e comparar o conto com as ideias de Kuhn de modo que as definições dos conceitos se encaixam em momentos da história. Dessa forma, o canário machadiano é como um cientista de Kuhn, pois ambos possuem uma visão de mundo definida, mas passível de mudança.

Referências

KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. Tradução de Beatriz e Nelson Boeira. SP: Perspectiva, 1996.

MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Ideias do canário. In: ___. Páginas recolhidas. SP: W. M. Jackson Inc. Editores, 1957.

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O texto da Beatriz foi produzido a partir da seguinte questão:

Em que sentido o conto “Ideias do canário”, de Machado de Assis, pode ilustrar o conceito de paradigma, proposto por Thomas Kuhn em A estrutura das revoluções científicas? Escreva um texto que articule a sua reflexão sobre o conto e os principais conceitos (paradigma, revolução científica, anomalia, ciência normal e quebra-cabeças) que se encontram na obra de Kuhn.

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