Seminários “A ciência tal qual se faz” – geografia histórica dos laboratórios

Texto da Francine

O penúltimo capítulo de A ciência tal qual se faz foi confiado a Simon Shaffer (1955-), historiador da ciência inglês, coautor do livro Leviathan air-pump: Hobbes, Boyle and the experimental life (1985), que atua como professor de história e filosofia da ciência em Cambridge, Reino Unido. Dentre os vídeos dele no nosso canal do youtube, encontra-se este, de 1983, sobre Newton:

O texto de Schaffer, “As instituições científicas: a geografia histórica dos laboratórios, possui 21 páginas e nenhum subtítulo. É evidente, contudo, que há quatro divisões temáticas em seu desenvolvimento, que vão de uma abordagem histórica geral para três casos mais específicos e ilustrativos.

De antemão, Shaffer recorda o leitor da natureza típica dos trabalhos produzidos por historiadores da ciência, que geralmente envolve o relato dramático de grandes acontecimentos sucessivos que implicariam o avanço cumulativo do entendimento. Também logo de início declina essa tendência e convida a examinar um aspecto peculiar da abordagem histórica dos processos científicos, o qual aciona um olhar mais detido à dinâmica das relações entre ciência e sociedade: a geografia histórica dos laboratórios.

Para isso, Shaffer se vale de três vívidas situações exemplares, relacionadas às atuações científicas de Isaac Newton e dos newtonianos, que até hoje são motivo de disputa e controvérsia entre estudiosos da física: “[…] o trabalho de Newton acerca da luz e da cor […]”, “[…] os ataques conduzidos pelos newtonianos nos anos vinte do século XVIII contra as pretensões de um artesão alemão que havia construído uma roda de movimento perpétuo […]” e a produção, no final do século XVIII, de uma máquina destinada a provar a verdade dos trabalhos de Newton, a Máquina de Atwood (p. 418-419).

Antes de abordar essas situações, entretanto, o autor faz uma excursão pelas ideias e circunstâncias que atribuíram processualmente ao laboratório o estatuto de território hermético, sagrado, que protegeria o trabalho do cientista de qualquer influência ou perturbação externa.

Essas ideias e circunstâncias podem ser buscadas desde o século XVI, quando os laboratórios eram localizados em mosteiros e, geralmente, caracterizavam-se como lugares de reclusão, nos quais se produziam medicamentos e se conduziam outros processos químicos úteis. Segundo Shaffer, “na Veneza da Renascença, por exemplo, o sigilo dos laboratórios estava assegurado pelo facto de, como se dizia, ninguém neles poder entrar sem prometer que neles ficaria para sempre” (p. 416). Essa dicotomia, “sociedade-laboratório”, devia-se ao fato de que as instituições que geralmente os acolhiam eram caracterizadas como apartadas das coisas públicas.

A identidade do laboratório, construída no decurso entre os séculos XVI e XVIII, contribuiu significativamente para a caracterização social da ciência. O hermetismo atribuído ao laboratório foi tratado como uma das principais virtudes dessa prática. Como afirma Shaffer: “alguns filósofos da ciência impressionam-se sobretudo com a distinção entre o mundo-da-vida da nossa experiência cotidiana e o universo abstracto e racional das ciências da natureza” (p. 416).

Contudo, o viés social do laboratório logo se revela quando se passa a observar esse território como o contexto de acontecimentos reais, animado por personalidades, com seus devidos interesses.

Notadamente, a posição histórica da teoria newtoniana deve-se, em grande parte, às interações entre as práticas planejadas e executadas no laboratório de Newton, em Cambridge, e as apresentações públicas realizadas em seu nome para a Royal Society londrina e em outros cantos da Europa.

Despertar para o interesse e garantir a atribuição de credibilidade aos experimentos “cruciais” comprobatórios de uma teoria incluía levar o laboratório ao público e realizar uma verdadeira performance diante de uma plateia cuidadosamente selecionada. O primeiro exemplo apresentado por Shaffer (relativo à teoria newtoniana das cores) ilustra a maneira pela qual essa prática era conduzida e ajuda a entender parcialmente o processo de institucionalização da ciência newtoniana entre os séculos XVII e XVIII.

Após concluir o primeiro de seus experimentos passível de ser replicado diante de um auditório – no final da década de 60 do século XVII –, Newton tratou de organizar manuais descritivos (cartas, cadernos de notas) para publicitar seu feito. Durante 18 meses trabalhou no aprimoramento técnico da experiência e também na conversão da teoria em produtos, tais como os telescópios feitos com espelhos (mais eficientes do que os feitos com lentes). Nesse período Newton tinha 24 anos e era membro de um college tradicional (Cambridge).

Tornar a teoria e o experimento conhecidos era vital, mas não suficiente. Newton precisava fazer com que a Royal Society de Londres considerasse seu experimento como crucial, algo que demandava a organização de replicações convincentes.

Newton não foi a Londres, em vez disso enviou descrições dos passos a serem seguidos ao curador de experimentos da Royal Society: Robert Hooke.

A questão, entretanto, não é tão simples como aparenta. Os meticulosos movimentos planejados e executados por Newton em seu laboratório constituíam uma fórmula complexa. Qualquer alteração implicaria o insucesso da experiência. Newton sabia que os indivíduos acostumados a lidar com a vida experimental estavam conscientes de que, quando a replicação de um experimento não endossa a teoria, duas conclusões são possíveis: a teoria está errada ou o experimento foi mal feito.

O texto de Shaffer sugere que Newton tenha se aproveitado desse conhecimento para gerar marketing pessoal. De certa forma, sua “descrição” do experimento foi um boicote a Hooke, já que omitia informações importantes da metodologia a ser seguida. Shaffer não expressa dúvida: “Newton sabia que suas receitas iniciais eram incompletas” (p. 422). O processo que se seguiu implicou a desmoralização de Hooke como experimentador e a valorização do gênio de Newton que, desta forma, teve que prestar numerosas assistências extras até que sua experiência (dita por ele como simples para um bom experimentador) fosse finalmente praticada corretamente.

Quando Hooke presenciou o resultado da experiência, não o considerou como crucial relativamente a um ponto central da teoria: a constituição dos raios de luz por partículas. E de fato, a experiência de Newton não permite tomar uma decisão quanto a esse aspecto. A conclusão de que eles seriam o resultado do agrupamento de partículas (Newton) é tão plausível quanto a consideração de Hooke de que eles seriam constituídos por ondas. Contudo, a condução que Newton impôs ao caso lhe rendeu vantagens diante da controvérsia.

Ao fim das contas, a Europa do século XVIII era newtoniana. E isso não apenas em função da forma engenhosa como Newton se movimentou entre seus pares, mas também porque aqueles que consumiam os objetos por ele desenvolvidos tendiam a sentir-se como parte da confirmação de seu trabalho.

Na segunda história narrada por Shaffer encontram-se evidências de que a “defesa” dos pressupostos lançados por Newton também envolveu uma intensa campanha para demover ideias opostas.

O belo exemplo contido no texto refere-se à máquina de movimento perpétuo desenvolvida pelo engenheiro e relojoeiro Johann Ernst Elias Bessler, mais conhecido na literatura como conde de Orffyreus. A possibilidade de uma máquina de movimento perpétuo é contraditória com a Segunda Lei de Newton (“a mudança da quantidade de movimento de um corpo é proporcional à força exterior que actua sobre o corpo” (p. 431)), bem como com a Lei Áurea da Mecânica, segundo a qual o trabalho aplicado é igual ou maior que o trabalho realizado. Orffyreus, entretanto, afirmava ter realizado a proeza de construir uma.

Quando Orffyreus organizou a apresentação de seu invento no castelo do príncipe de Kassel, na Alemanha, Newton logo recebeu notícias por meio de um de seus colaboradores – o holandês s’Gravesande – que estaria presente para o espetáculo. Até hoje os desdobramentos do encontro ocorrido entre s’Gravesande e a máquina de movimento perpétuo de Orffyreus estão cercados de rumores e imprecisões.

Shaffer relata uma versão da história, segundo a qual s’Gravesande teria organizado um grupo para comprar o segredo da máquina pelo preço de vinte mil libras esterlinas, gerando insegurança e irritação em Orffyreus, que, por sua vez, destruiu seu próprio engenho e foi embora, deixando para trás apenas uma carta de revolta, escrita em uma das paredes de seu quarto, no castelo.

A Internet, entretanto, contém muitas outras versões desse evento (que podem ser consultadas pelo leitor). Duas delas, especialmente dramáticas, merecem ser citadas. Uma das histórias conta que Orffyreus manteria uma criada dentro da máquina para movimentá-la; e outra, que uma extensão da máquina para outro quarto do castelo permitiria que ela fosse movimentada por algum indivíduo envolvido no logro. Ambas as versões (contadas a sério em blogs, sites e até em textos acadêmicos) têm o mesmo desfecho: Orffyreus, pressentindo a descoberta de seu embuste, teria destruído sua máquina de movimento perpétuo num surto de ira.

O fato é que até hoje, estudiosos de diversas áreas ainda investem na ideia de Orffyreus, enquanto outros afirmam que ela é impossível “porque contraria a Segunda Lei de Newton” (pode ser difícil acreditar, mas não é raro encontrar esse argumento em textos de físicos, engenheiros, matemáticos etc.).

Finalmente, segundo Shaffer, “o projeto do movimento perpétuo é normalmente relegado para a margem da história tradicional da mecânica porque parece pertencer ao mundo obscuro da magia barroca” (p. 427). A dúvida restante é se foi a natureza ou a segunda lei de Newton o que ofereceu maior resistência à máquina do conde de Orffyreus.

A terceira história mencionada por Shaffer refere-se à Máquina de Atwood. Um engenho criado com a intenção de comprovar a veracidade da segunda lei de Newton. “Um mundo sem fricção” que, como explica Shaffer (p. 432), seria capaz de oferecer uma experiência crucial aos alunos de Cambridge.

Seu criador, George Atwood (1745-1807), estudou no Trinity College (Cambridge) e participou da Royal Society, como professor e investigador. Sua máquina integrava alguns mecanismos finos e precisos, mas, na essência, consistia em “dois cilindros equilibrados ligados por um fino cordão de seda suspenso sobre uma roldana” (p. 432).

O invento foi levado a público em um momento muito oportuno, já que ele permitia dirimir uma controvérsia dos newtonianos com o filósofo e religioso Joseph Priestley. Esse último vinha afirmando que não havia inércia na matéria e que a teoria de Newton era de natureza herética.

Lançou-se mão de recursos como a propaganda e o espetáculo e, dessa forma, uma plateia cuidadosamente selecionada foi convencida de que Newton tinha razão.

O problema é que os resultados obtidos no laboratório não correspondiam às observações de indivíduos comuns em seus moinhos e oficinas. A teoria newtoniana pressupunha um conjunto de condições ideais às quais esses indivíduos não tinham acesso. Como podemos imaginar, os cientistas da época preferiam que esses indivíduos se limitassem a acreditar nos resultados cuidadosamente obtidos em situações simuladas.

Para Shaffer, casos como os apresentados apelam para uma história das ciências com espaço para as “especificidades geográficas” que compõem o trabalho nos laboratórios (além do treino). Uma abordagem assim permite, por exemplo, entender que tipo de circunstâncias estão envolvidas na criação de um “Beatle” da física.

Nossa atual história da ciência segue a tendência de atribuir papéis muito bem definidos aos seus “personagens”: Newton é o gênio; Hooke é o exímio experimentador; e Orffyreus é o impostor. A geografia dos laboratórios proposta por Shaffer torna tudo mais complexo, porque evidencia o fato de que esses indivíduos tinham personalidades e relações sociais. Curiosamente isto havia sido esquecido.

Referência:

SHAFFER, Simon. As instituições científicas: a geografia histórica dos laboratórios. In: GIL, Fernando (Coord.). A ciência tal qual se faz. Lisboa: Edições João Sá da Costa, 1999, p. 415-436. (Coleção Humanismo e Ciência).

Uma resposta

  1. Texto inspirador!

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