Origem das espécies – capítulo 15

 

darwinLivroBusto

Texto da Marta

Por fim, chegamos ao último capítulo de A origem das espécies, de Charles Darwin, após dois anos e meio de leitura nas tertúlias de quarta-feira do GP de Science Studies da UEM, sob coordenação da professora Cristina de Amorim Machado. Como escreveu nossa querida amiga e estudiosa de Darwin, Anna Carolina Regner, a obra de Darwin revolucionou os estudos dos campos das ciências biológicas e a nossa maneira de ver e conceber a atividade científica.  Ela também nos lembra que (Regner, 2009):

“Na Inglaterra, a história natural que Darwin encontrou confundia-se com uma “teologia natural”, quando os naturalistas (muitas vezes pacatos párocos) tomavam a aparente perfeição de adaptações e coadaptações como evidências de desígnio divino, enfatizando a harmonia de toda a natureza. O pano de fundo das indagações vinha marcado por grandes polêmicas, a respeito das quais o pensamento de Charles Darwin será decisivo.”

No capítulo 15, “Recapitulação e conclusão”, Darwin nos oferece um resumo belíssimo da sua teoria. Nesse capítulo, ele revê os anteriores, desenhando seu percurso e enunciando, ao final, sua colaboração para a compreensão da história da natureza.

Darwin termina A origem das espécies, sintetizando, em primeiro lugar, o que é o mecanismo de seleção natural, isto é, o mecanismo de preservação e acúmulo das variações úteis aos seres vivos e de eliminação de outras “contraproducentes” às espécies. Desse movimento resultam formas novas de vida ou, como diz Darwin, mais aperfeiçoadas ou ainda adaptadas. Nos termos de Regner (2009):

“Darwin, em sua Introdução à Origem, disse que à defesa do evolucionismo não basta admitir a evolução sem mostrar seu mecanismo. (Por isso, em Darwin, é discutível distinguir-se uma teoria da evolução de sua teoria da seleção natural.) Esse novo modo de ver a questão-chave da Origem refletirá decisivamente na pesquisa das várias áreas da história natural, com vários departamentos novos sendo criados e reorganizados: ‘Quando as visões desenvolvidas por mim neste volume e por Mr. Wallace, ou quando visões análogas sobre a origem das espécies forem geralmente admitidas, podemos divisar que haverá uma considerável revolução na história natural’ (1872, p. 425).”

Após a apresentação do mecanismo de seleção natural, Darwin comenta sua teoria em contraposição às teorias de seus oponentes. Enriquece o debate afirmando que sua teoria tem uma base empírica: mostra como fez suas observações, como obteve dados de criadores de animais e suas próprias experimentações. Regner (2009) recorda a estratégia de apresentação de Darwin e como ele expôs, minuciosamente, vários procedimentos de obtenção de dados, como fez uma observação sistemática, seus estudos de casos, como construiu uma rede com criadores de animais em uma vasta correspondência para troca de dados e comparações.

“Comparar a acuidade e maior alcance de sua visão com a visão adversária será uma das estratégias básicas de Darwin ao construir e defender a sua própria teoria. Um resultado importante dessa estratégia é que ‘explicar’ resulta em apresentar a melhor alternativa explicativa possível – que acontece ser a teoria darwiniana – e que, mais adiante, se torna a única explicação (racional) possível. Ao comparar a sua teoria com a de seus oponentes, por meio da resposta a objeções, Darwin normalmente faz uso de vários procedimentos reconhecidos como ‘científicos’: observação sistemática, experimento, subsunção de fatos sob regras, estudo de casos exemplares, classificação, uso de diagramas, ilustrações, discussões, tábuas comparativas e analogias. Alguns outros procedimentos são bastante inovadores, como a rede de informações que criou em sua correspondência, o tratamento de dificuldades e objeções à teoria, o jogo do atual (o que está dado) e do possível (do que pode ser dado, sem impossibilidade lógica ou fática) ao explicar e avaliar os méritos de nossas explicações, sua solicitação de que seja considerado o poder explicativo da teoria ‘como um todo’, o uso que ele faz de imaginação, metáforas, e seus apelos ao poder explicativo como um todo, à extensão de nossa ignorância apesar de nossos esforços, à autoridade da comunidade científica, seus valores e ideais, às condições psicológicas de investigação científica e ao avanço da pesquisa que uma teoria permita. Tais procedimentos ‘inovadores’ encontram eco em muitas das recentes análises da atividade científica, que ressaltam seja as relações entre teoria e ‘modelos’, atentas às complexidades das relações entre a unidade teórica e a testabilidade empírica, seja o papel substantivo das estratégias argumentativas.” (REGNER, 2009)

Darwin responde uma a uma as objeções feitas à sua teoria, apresentadas em seu livro a partir do capítulo 6. Entre esses capítulos estão aqueles dos debates geológicos e paleontológicos. Aí, centrou-se na polêmica entre os catastrofistas e gradualistas ou uniformistas. Os primeiros defendiam que cataclismos transformavam radicalmente o planeta Terra; os segundos, que as mudanças na natureza eram operadas pela ação do tempo, de causas observáveis. Os primeiros recorriam à tese criacionista, e o segundo grupo recorria aos fatos observáveis e às hipóteses sobre a alteração da natureza no tempo e espaço. Como diz Regner (2009):

“No plano dos debates geológicos e paleontológicos, a grande polêmica era a do ‘catastrofismo versus uniformitarismo’. Os uniformitaristas defendiam um ‘gradualismo’, a ocorrência de mudanças lentas e graduais, segundo uma uniformidade na operação das leis da natureza pela ação, através do tempo, de causas observáveis e ainda hoje responsáveis pelo curso fenomênico, sem recorrer a eventos incomuns o u poderes extraordinários para explicá-las. Os catastrofistas admitiam a ocorrência de catástrofes, cataclismos, que alteravam radicalmente a face da Terra e suas condições de vida e requeriam a intervenção restauradora de uma força extraordinária. Tal atitude casava perfeitamente com a visão ‘criacionista’, no que tange à origem das espécies. A respeito dessa última questão, a grande polêmica foi a do ‘criacionismo versus evolucionismo’, exibindo fortes tons locais, marcados, na Inglaterra, pela influência da ‘teologia natural’. Ambos os termos sofreram diferentes determinações. No que concerne ao ‘evolucionismo’, as diferenças foram, sobretudo, referentes ao mecanismo da mudança. Quanto ao ‘criacionismo’, o termo comportou diferentes níveis de comprometimento com a ideia de intervenção divina para a explicação dos fenômenos naturais. O criacionismo contra o qual Darwin claramente se coloca tem um sentido bem técnico: trata-se da visão de que cada espécie seja fruto de um ato especial de criação.”

Por fim, Darwin encerra o último capítulo mostrando que sua teoria abrirá um novo campo de investigação sobre as causas e leis da variação, sobre a correlação dos animais e plantas. Sobre essa fecundidade do campo dos estudos biológicos prevista no fim da Origem, usamos a tradução de Regner (2009):

“Os outros e mais gerais departamentos da história natural crescerão em interesse enormemente. Os termos usados pelos naturalistas de afinidade, relação, comunidade de tipo, paternidade, morfologia, caracteres adaptativos, rudimentares e órgãos abortados etc. cessarão de ser metafóricos e terão plena significação. Quando não mais olharmos a um ser orgânico como um selvagem olha a um navio, como algo totalmente fora de sua compreensão; quando considerarmos cada produção da natureza como uma que teve uma longa história; quando contemplarmos cada estrutura complexa e instinto como o somatório de muitas engenhosidades, cada uma útil a seu possuidor, do mesmo modo que qualquer grande invenção mecânica é o somatório do trabalho, experiência, razão e mesmo dos erros de numerosos trabalhadores; quando assim virmos cada ser orgânico, quão mais interessante – falo de minha própria experiência – torna-se o estudo da história natural!”

Vale notar que, além de responder às objeções à evolução, uma dimensão maravilhosa de seu texto é o uso de analogias e metáforas para construir bons argumentos. Como leitora, fiquei admirada de um escritor do campo naturalista dizer “estou usando essa metáfora porque a considero apropriada…”. Não há como não escrever do lado da página do livro: – Darwin, eu te amo. (Desculpe-me, leitor/a, não consegui não dizer isso.)

Termino aqui trazendo de novo a querida e incansável estudiosa de Darwin, Anna Carolina Regner, que, em minha opinião, tem tudo a ver com o nosso grupo de pesquisa, porque traz o debate das teorias e sua relação com os dados empíricos, o papel importante dos estudos de caso, os inúmeros procedimentos científicos que Darwin empregou em sua caminhada para a construção da teoria da seleção natural. Ademais, Darwin nos fornece um belo exemplo do que estudamos no Ciência em ação de Latour. Ele utilizava ilustrações, diagramas, tábuas comparativas (as inscrições que Latour menciona) e trouxe, explicitamente, a retórica como teoria da argumentação enriquecendo a narrativa. Nas palavras de Regner (2009):

“[…] o trabalho de Darwin trouxe-nos, entre outras mudanças, uma nova visão de padrões de procedimentos científicos. A relação da ‘explicação’ darwiniana com os critérios e procedimentos ‘científicos’ de sua época é tão rica, multifacética e, por vezes, tão ambígua quanto tais padrões de cientificidade o são. Mas as conotações que Darwin empresta ao que seja a tarefa explicativa representam um dos mais fortes indicadores de sua presente contemporaneidade. Em todos os momentos da sua tarefa explicativa, Darwin está atento ao fato de que ‘explicar’ sempre depende de uma determinada visão teórica ou suposição e, em particular, da comparação de visões diferentes, sobretudo em casos como o seu, quando, segundo suas palavras, não há um único dos fatos arrolados que não possa ser visto de uma maneira diferente da sua.”

 

Este foi um trabalho excepcional: dar a um inseto, uma folha, um aracnídeo, um filamento de grama, uma história, uma longa história, a história da natureza.

Referências

DARWIN, Charles. A origem das espécies. 6.ed. Tradução (pretensa) de Eduardo Fonseca. São Paulo: Hemus, 1981. [EDIÇÃO NÃO RECOMENDADA PELO GRUPO]

REGNER, Anna Carolina Krebs Pereira Regner. Darwin e uma nova visão de ciência. Revista Fapesp, março de 2009. Disponível em: http://revistapesquisa.fapesp.br/2009/03/01/darwin-e-uma-nova-visao-de-ciencia/. Acesso em: 10 de junho de 2016.

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