Origem das espécies – capítulos 10 e 11

darwinNow

Minha mãe, Odete, representante da Unati nas nossas leituras de Darwin, preparou o seguinte resumo dos capítulos 10 e 11, respectivamente “Sobre a imperfeição dos registros geológicos” e “Sobre a sucessão geológica dos seres organizados”:

Capítulo 10

Neste capítulo, Darwin procura explicar por que não se encontram formas intermediárias na natureza. Um dos motivos é o fato de os nossos registros geológicos serem incompletos. Outra possibilidade é o extermínio dessas formas por serem em menor quantidade e as novas formas suplantarem suas antecessoras. Por outro lado, Darwin enfatiza que não devemos cair na tentação de procurar formas intermediárias entre duas espécies próximas, mas sim entre as espécies e um ascendente comum.

Darwin mostra como exemplo o caso do pombo-de-papo e o pombo-de-leque que são descendentes do pombo-das-rochas (Columba livia). Mesmo não tendo todas as variedades intermediárias que devem ter existido, é possível determinar a origem dessas espécies por meio de provas históricas ou testemunhos indiretos (Darwin fez experiências com esses pombos).

Outro exemplo é de espécies selvagens: Darwin lembra como o cavalo e o tapir (anta), que não poderíamos supor terem uma ascendência comum, tiveram, pela teoria da seleção natural, alguma conexão na sua origem e foram se transformando ao longo do tempo.

Sobre a imperfeição dos registros geológicos, Darwin apresenta algumas possibilidades para explicar a ausência de variedades intermediárias nos dias de hoje. Uma delas é que essas variedades seriam em menor número, sendo exterminadas no processo de uma nova alteração, ainda que o próprio processo de seleção já seja um fator para que as novas variedades tomem o lugar das espécies de origem. O porquê de não encontrarmos nas formações geológicas elos intermediários se deve ao fato de conhecermos muito pouco, pois só uma pequena parte das formações geológicas foram estudadas.

Todavia, “pela teoria da seleção natural, todas as espécies vivas tiveram alguma conexão com a espécie-de-origem de cada gênero” (p. 401) e assim sucessivamente de modo retroativo até chegar a um “ancestral comum de cada grande classe” (ibid.). Assim, o número de formas intermediárias provavelmente foi imenso.

Mesmo não se encontrando fósseis que provem o número infinito dessas formas, é preciso analisar o tempo transcorrido, os agentes que atuaram nesse período, o papel desempenhado pela migração, além dos grandes intervalos de tempo das eras passadas.

Mais do que as marés, a superfície da Terra está exposta à ação química do ar, das águas da chuva, que contém ácido carbônico dissolvido, e da geada. Portanto, chuva, vento, córregos e rios contribuem para o desgaste ou espessamento das camadas rochosas, tudo isso levando milhões e milhões de anos.

Sobre a pobreza das nossas coleções paleontológicas, devemos considerar que a superfície da Terra é muito pouco explorada geologicamente e que fósseis são formados de forma acidental e rara. Outro fator importante é que as formações foram “separadas entre si durantes vastos intervalos de tempo” (p. 409), ou seja, essas formações são intermitentes, ocasionando uma descontinuidade no depósito de prováveis fósseis. Em vista desse e de outros fatores, os registros geológicos são imperfeitos, não sendo surpresa termos tão poucas amostras em nossos museus.

Quanto à aparição súbita de grupos inteiros de espécies aliadas, Darwin salienta que isso é pura aparência, pois não se pode esquecer da grandeza do mundo e de que tão pouco foi explorado geologicamente. Devemos levar em conta os grandes intervalos decorridos entre as formações, dando tempo para que as espécies pudessem ser multiplicadas a partir de uma espécie de origem.

Darwin reconhece que é grande a dificuldade de explicar a ausência de muitas camadas de estrato ricos em fósseis abaixo do período Cambriano (há mais de 500 milhões de anos). Contudo ele formula a hipótese de que onde hoje estão os oceanos existiam continentes, e vice-versa, e se pudéssemos converter os leitos dos oceanos em continentes, encontraríamos formações “mais antigas do que os estratos do Cambriano” (p. 432).

Capítulo 11

Aqui, Darwin defende que a sucessão geológica dos seres orgânicos é “ lenta e gradual por meio da variação e da seleção natural.” (p.435), e que a extinção de formas antigas está diretamente relacionada com a produção de novas formas (p. 439), que se tornam dominantes por conta da vantagem estabelecida por seleção natural (p. 448).

Assim como o aparecimento de novas espécies, a extinção de espécies antigas não é simultânea e acontece muito lentamente. A extinção, de acordo com a teoria da seleção natural, foi acontecendo devagar, em lugares diferentes, e é precedida pela raridade. Em poucos casos a extinção foi rápida.

Não se pode determinar o tempo de duração de uma espécie, pois algumas sobrevivem desde os primórdios até hoje, outras desapareceram totalmente. Diferentemente do indivíduo, cujo tempo de vida pode ser determinado, não se pode prever a duração de uma espécie. De todo modo – repetindo -, a extinção é muito lenta.

As mudanças quase simultâneas em todo o mundo – que seriam inexplicáveis pela seleção natural – podem ser explicadas se levarmos em conta que elas não acontecem de fato no mesmo ano ou século, sendo o termo “simultâneo” usado num sentido muito amplo. Elas ocorrem em várias partes do planeta, não por conta de correntes marinhas ou outras causas locais, mas pelas leis que regem o reino animal. Ou seja, pela teoria da seleção natural, as novas espécies têm alguma vantagem (vantagem que nem sempre significa aprimoramento) sobre a anterior, dando origem a mais variedades que se multiplicam e difundem por novos lugares lentamente, dependendo do clima e dos acidentes eventuais. Com o passar do tempo, essas formas acabam prevalecendo (p. 444-450).

Já as afinidades de espécies extintas entre si e com formas existentes (p.450-458) podem ser explicadas pela descendência com modificação, pois todas as formas extintas têm seu equivalente entre as formas existentes ou intermediárias. Ou seja, mesmo que grupos tenham passado por muitas modificações, sendo pouca a aproximação com os grupos mais antigos, Darwin diz que que a fauna atual tem características intermediárias entre a anterior e a posterior (p. 456).

Em comparação com as formas existentes (p. 458-462), o desenvolvimento das formas antigas aconteceu com o passar do tempo, pois as espécies novas devem ser superiores às anteriores. Contudo nem sempre é assim, pois alguns organismos permaneceram imutáveis ou quase, desde as mais antigas épocas geológicas, porque eles precisam permanecer adequados às condições mais simples de vida. Devido às imperfeições dos registros geológicos, não se pode provar o quanto os organismos evoluíram desde o início da história do mundo. Segundo a teoria da seleção natural, esses organismos, quando chegaram num determinado estágio, não precisaram sofrer mais mutações, a não ser pequenas adaptações às condições de vida. Para finalizar essa seção, Darwin cita Agassiz e outras autoridades, que “insistem que os animais antigos assemelham-se em certa medida aos embriões de animais recentes pertencentes às mesmas classes; e que a sucessão geológica de formas extintas é quase paralela ao desenvolvimento embriológico das formas existentes.” (p. 461). Vale lembrar que esse assunto é tratado no capítulo 14.

Na última seção do capítulo 11, “Sobre a sucessão dos mesmos tipos nas mesmas áreas durante os últimos períodos do Terciário” (p. 462-464), é feita uma introdução aos dois próximos capítulos sobre distribuição geográfica.

No fim do capítulo 11, Darwin faz um resumo desses dois capítulos sobre geologia, lembrando-nos que: 1) a produção de formas novas implica a extinção de formas antigas; 2) a seleção/extinção é um processo lento e complexo; 3) formas que se estendem muito, variam muito, deixando descendentes semelhantes, o que dá a impressão de simultaneidade; e 4) quanto mais antiga é a forma, mais diferente ela é das atuais, mais frequentemente ela é intermediária entre formas diferentes atuais, e mais perto do antepassado comum ela se encontra. Ele encerra o assunto assim:

“Se, então, o registro geológico é imperfeito, como muitos acreditam, pelo menos se pode afirmar que não é possível provar quanto é perfeito, as principais objeções à teoria da seleção natural diminuem muito ou mesmo desaparecem. Por outro lado, todas as leis principais da paleontologia afirmam, como me parece, que as espécies foram produzidas por meio de geração ordinária: as velhas formas foram suplantadas por formas de vida novas e melhoradas, produtos da variação e da sobrevivência dos mais aptos.” (p. 468)

Referência:

DARWIN, Charles. A origem das espécies. Tradução de Carlos Duarte e Anna Duarte. São Paulo: Editora Martin Claret, 2014.

2 Respostas

  1. Odete, muito lindo! Amei!

  2. Excelente trabalho,foi muito importante para minha pesquisa de graduação ,de minha disciplina Epistemologia das Ciencias .Obrigado

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