Origem das espécies – capítulo 9

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A Marta preparou um resumo do capítulo 9 da Origem, “Hibridismo”, que tem as seguintes seções: 1) Distinção entre a esterilidade dos primeiros cruzamentos e a dos híbridos; 2) A esterilidade varia em grau, não é universal, é afetada pelo cruzamento entre indivíduos afins e é removida pela domesticidade; 3) Leis que regem a esterilidade dos híbridos; 4) A esterilidade não é uma característica especial, depende de outras diferenças, e não é acumulada por seleção natural; 5) Causas da esterilidade dos primeiros cruzamentos e dos híbridos; 6) Paralelismo entre os efeitos das condições de vida alteradas e dos cruzamentos; 7) Dimorfismo e trimorfismo; 8) A fertilidade das variedades cruzadas e dos seus descendentes mestiços não é universal; 9) Híbridos e mestiços comparados independentemente da sua fecundidade.

A fecundidade de cruzamentos entre variedades, isto é, entre formas que se sabe ou se supõe descendentes de pais comuns, assim como a fecundidade entre mestiços, é pela minha teoria tão importante como a esterilidade das espécies; porque parece resultar destas duas ordens de fenômeno uma distinção bem clara e distinta entre as variedades e as espécies (DARWIN, 1981, p. 260).

No capítulo IX de A origem das espécies (DARWIN, 1981), o capítulo Hibridez ou Hibridização, que também chamamos de especiação [1], vai defender que espécies hibridas podem produzir espécies fecundas contrariando a ideia geral à época de que espécies de descendência hibrida resultavam estéreis. As espécies hibridas mostravam-se difíceis de cruzar e não se mantinham por sucessivas gerações. No entanto, à luz dos trabalhos de botânicos como Joseph Gottlieb Kölreuter (1733-1806), Carl Friedrich von Gärtner (1772-1850) e outros, que ele chamava de experimentadores, Darwin encontrou pormenores em plantas que, embora híbridas, mantinham-se fecundas nas gerações posteriores. Esses estudos foram importantes para sua tese na Origem das espécies, porque mostravam que a natureza poderia inovar-se mesmo nos casos de hibridização.

De acordo com Bizzo (2008), Gätner apoiou-se nos experimentos do horticultor inglês Thomas Andrew Knight (1759-1838), que estabeleceu os procedimentos básicos para a realização de cruzamentos verdadeiros entre variedades de ervilhas, desenvolveu no início do século XIX a variedade chamada “ervilha doce”, que está até hoje a venda em freezers de supermercados, além de variedades de morangos, maçãs, peras e muitos outros vegetais” (BIZZO, 2008, p. 320).

Gärtner (1772-1850) foi lido por Darwin e também por Mendel; é citado por Darwin como um botânico admirável por ter feito experimentação com plantas em locais fechados e locais abertos, indicando o problema da hibridização em locais fechados, que tende a levar as espécies à infertilidade.

Sobre Knight, diz Bizzo (2008, 321-322):

“Suas ilustrações de novos cultivares, como Pomona herefordiensis, uma nova maçã amarela com uma mancha avermelhada, apareceram em uma publicação de 1811, disputada até hoje por antiquários e leiloeiros. Foi ele que estreou, em 1787, o estudo de cruzamentos de ervilhas visando aplicar seus resultados em maçãs, cerejas e outras espécies de interesse econômico. As espécies arbóreas se tornam produtivas apenas após alguns anos, o que inviabiliza a realização de cruzamentos; as ervilhas, por outro lado, 322 com um ciclo anual, permitem acelerar enormemente tais estudos. As possibilidades de criar essas novas formas passaram a ser estudadas em ensaios com outras espécies, de ciclo mais rápido. Pelo fato de serem anuais e de possuírem linhagens puras, além de possibilitarem cruzamentos verdadeiros, com muitas linhagens conhecidas, as ervilhas foram escolhidas por Knight como modelo experimental. Em outros termos, mesmo tendo em vista aplicações tecnológicas, a ervilha tinha sido escolhida como planta experimental muito antes de Mendel. Knight recebeu a Medalha Copley em 1806, uma comenda que Darwin também receberia quase 60 anos depois. De fato, em 1822 foi publicado na Inglaterra um resultado de cruzamento de ervilhas realizado por John Goss, que antecipava de alguma forma os resultados de Mendel. O cruzamento entre ervilhas brancas e a variedade produzida por Andrew Knight, chamada ‘anã-azul’, tinha como resultado, na primeira geração, apenas ervilhas brancas. Deixadas a se autopolinizar, as plantas ‘anãs-azuis’ tinham apenas ervilhas do mesmo tipo como resultado. No entanto, ao autocruzar as ervilhas brancas, pode-se recuperar grande quantidade de outras ervilhas brancas, mas também algumas ‘ervilhas azuis’ (Gasking, 1959, p. 62). Tais resultados, embora apresentados inicialmente apenas aos horticultores da época, não passavam despercebidos aos teóricos da hereditariedade, mesmo se buscassem modelos mais amplos e generalizações mais abrangentes. Os trabalhos de Andrew Knight foram transcritos nos anais da Royal Society, de maneira a torná- los conhecidos da comunidade científica.”

Os estudos de Kölreuter eram sobre o sexo no reino vegetal e mostravam que os híbridos tinham o elemento masculino (pólen) e feminino em espécies de tabaco e isso permitia novas espécies. Kölreuter estudou, enfatiza Darwin (1981, p. 283), as variedades do tabaco, seus cruzamentos e as formas dos elementos masculino e feminino.

“Diversas espécies de tabaco foram por ele investigadas – o que demonstrava essa aliança entre questões puramente teóricas e aplicações tecnológicas – mas elementos quantitativos de variação contínua (como morfologia floral) mostravam híbridos intermediários em muitas espécies. Mesmo assim, essas inovações quantitativas foram tomadas como evidências das possibilidades de criação de novas espécies por meio de cruzamentos planejados, que apenas repetiriam processos naturais que promoveriam a constante origem de novas espécies.”

Gärtner, diz Darwin, descobriu muitas estratégias entre as espécies híbridas. Resumindo, podemos dizer que:

1 – Há, sim, fecundidade entre os híbridos, mas há graus de fecundidade e nem sempre é a mesma em todos os indivíduos da mesma espécie, para ele, “isso parece depender em parte da constituição dos indivíduos que foram selecionados para a experiência” (DARWIN, 1981, p. 267);

2 –  A fecundidade varia muito em diversos indivíduos originários das sementes contidas na mesma capsula e expostas no mesmo ambiente;

3 – Há espécies hibridas que não são fecundadas por terem formas femininas (ovários) alongadas dificultando a passagem do pólen. Ou têm grãos de pólen de tamanhos diferentes entre outras formas;

4 – Não foi (ou é) a seleção natural que produziu a esterilidade dos primeiros cruzamentos e a de seus produtos híbridos. Mesmo quando o embrião morre nesses cruzamentos, isso tem a ver com as perturbações causadas à geração;

“Diz Darwin, sobre as questões práticas envolvidas na hibridização: ‘Sem uma única exceção, todos esses naturalistas (os hibridizadores) diversos dos quais devotaram suas vidas ao assunto, insistem da maneira mais enfática, na necessidade absoluta de isolamento perfeito da flor castrada.’ (Darwin [1856] apud Stauffer, 1975, p. 49). Neste ponto, ele inseriu uma nota, na qual se lê: ‘v. o trabalho de Gärtner, o mais admirável de todos os observadores do assunto, e sua grande ênfase no assunto em sua obra Bastardzeugung, s. 670. Experimentos feitos ao ar aberto, ele diz, devem ser obrigatoriamente rejeitados’. Darwin termina a nota – mais propriamente um lembrete – com outras referências bibliográficas, sendo o trecho aproveitado vinte anos depois no capítulo 10 de seu livro sobre fertilização (ibid.). Darwin aponta como evidências da extraordinária susceptibilidade os órgãos do sistema reprodutor a influências externas a impossibilidade de reprodução de espécies em cativeiro: ‘Porque muitos animais recolhidos ainda jovens, perfeitamente amansados, saudáveis e longevos, não procriam, é impossível explicar. Só se pode explicar a mudanças nas suas condições de existência.’ Em seguida ele cita relatórios de Jardins Zoológicos e associações de criadores de aves. Um exemplo citado é o do quati ‘do Paraguai’, que nunca foi criado em cativeiro, embora tenha sido mantido em casais. Mas, nas plantas aparece mais perfeitamente a argumentação da sensibilidade dos órgãos reprodutores às condições de existência. Darwin fala de suas próprias experiências e das daqueles que afirma ser o excesso de adubação nitrogenada a razão da esterilidade. A adubação exagerada levaria a grandes floradas sem frutos e sementes e, novamente, cita a autoridade no assunto de hibridização de vegetais: ‘Gärtner também faz menção ao excesso de flores de algumas espécies estéreis, e compara o fato ao excesso de flores em híbridos estéreis: em outros casos, muito adubo, especialmente se acompanhado de muito calor, […], impede a floração.’ Regar as plantas em períodos impróprios também conduziria à esterilidade (Darwin [1856] apud Stauffer, 1975, p. 83)” (BIZZO, 1981, p. 327).

Essa meticulosa busca dos estudos sobre hibridização e sua própria experimentação foi mais uma de sua jornada para tornar evidente que a seleção natural não produz esterilidade aos animais e plantas.

Diz Darwin (1981, p. 288), “esta fecundidade perfeita e quase universal não deve causar-nos admiração, se pensarmos no círculo vicioso no qual caminhamos no que diz respeito às variedades no estado selvagem, e se nos recordarmos que a grande maioria das variedades foi produzida no estado doméstico pela seleção de simples diferenças exteriores, e que jamais foram expostas muito tempo a condições de vida uniformes.”

Mais uma vez fechamos um capitulo, no caso o IX, com a defesa – teórica e experimental – de sua teoria. Um livro genial que, a cada capitulo, tira a prova e reafirma a seleção natural.

Notas:

[1] Especiação é uma discussão sobre como uma espécie gradualmente varia em outra – anagênese – ou como uma espécie se transforma em duas, cladogênese. No geral temos quatro modos de especiação, a chamada simpátrica, a parapátrica, a alopratica e a peripátrica, além de ser induzida artificialmente.

Referências:

BIZZO, Nélio. A teoria genética de Charles Darwin e sua oposição ao mendelismo. Filosofia e História da Biologia, v. 3, p. 317-333, 2008. Disponível em: http://www.abfhib.org/FHB/FHB-03/FHB-v03-17-Nelio-Bizzo.pdf. Acesso em: 20 de junho de 2016.

DARWIN, Charles. A origem das espécies. 6.ed. Tradução (pretensa) de Eduardo Fonseca. São Paulo: Hemus, 1981. [EDIÇÃO NÃO RECOMENDADA PELO GRUPO]

 

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