Seminários “A ciência tal qual se faz” – história social da prova

Neste seminário discutimos o texto “Para uma história (social) da prova nas ciências e nas técnicas. Reflexões gerais e estudo de dois casos: as experiências de Hertz e a imunização magnética dos navios.”, de Dominique Pestre (1950-), sociólogo, historiador da ciência e diretor da École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris. Há vários vídeos dele no nosso canal do youtube, dentre eles o seguinte:

Como diz Fernando Gil (1999, p. 12) na introdução do livro: “A história das ciências sugere que a recepção das teorias não depende apenas do teor das provas demonstrativas e experimentais.” Isso porque, na prática, “a prova tal qual se faz” não é fruto de uma racionalidade predeterminada por demonstrações matemáticas e experimentos, e sim de uma racionalidade construída por consensos, que implicam estratégias argumentativas, pragmáticas e retóricas.

E é disso que trata o texto de Pestre: de como se constroem esses consensos. Para mostrar a variedade de tipos de provas, ele se remete teoricamente a Harry Collins, cujo texto já analisamos aqui, e se apoia em dois estudos de caso: um sobre a recepção das experiências de Hertz entre 1888 e 1892; e outro sobre o problema de imunização magnética dos navios (contra minas magnéticas) na França de 1940.

Antes de entrar nos estudos de caso, Pestre faz uma pertinente discussão sobre o campo dos science studies, apresentando o seu velho problema de denominação. Ele acaba usando o termo “história social das ciências”, sabendo que o adjetivo “social” é problemático por conta da sua filiação ao programa forte da sociologia, o que pode  “fazer esquecer a dimensão material das práticas – bem como a necessidade de pensar o social e o material em termos de co-produção” (Pestre, 1999, p. 346). Para ele:

“Esta história deve então ser simultaneamente uma história de práticas materiais e de interações complexas com o mundo – práticas que são no entanto socialmente negociadas e cujo sentido não é unívoco – e uma história de práticas intersubjetivas culturalmente e socialmente definidas – práticas que são no entanto marcadas materialmente por uma relação repetida e decisiva com objectos e com o mundo físico.” (ibid)

Ele apresenta suas premissas sobre a verdade, a razão e o real que, apesar de não serem universais, não significa, em seus termos, “que tudo se equivalha”, trata-se apenas de “um simples princípio de realidade” (p. 347). E, na sequência, formula a sua hipótese de trabalho, que se baseia na negociação constante da prova no interior da comunidade científica, ou seja, na capacidade de convencimento da prova numa determinada situação. Para Pestre (p. 348), a prova só pode ser julgada “a partir dos fazeres e dizeres dos receptores” – não basta o julgamento daquele que produz a prova – e, portanto, é uma história em construção.

No primeiro estudo de caso, Pestre nos conta brevemente a história do que normalmente se chama “descoberta das ondas electromagnéticas por Hertz” (p. 348), que se desenrola entre as primeiras publicações sobre a produção e propagação de oscilações elétricas (1887-8) e o momento de pico das controvérsias (1890).

Nesses dois anos depois da publicação de Hertz, foram os maxwellianos que “inventaram a narrativa de um Hertz […] que teria vindo para decidir o debate secular que opõe acção à distância e acção pela proximidade” (p. 352). Apesar de, por formação (seu mestre foi Helmholtz, que defendia a ação à distância), se opor a ideia de ação por um meio (éter) contida nas teorias de Maxwell, Hertz acaba se tornando um maxwelliano e aceitando o papel de que teria apresentado “provas irrefutáveis de de ora em diante definitivas da veracidade das teorias maxwellianas da propagação no éter” (p. 352). Os maxwellianos se apropriam do fenômeno e do know how de Hertz e começam a fazer divulgação das ondas em “grandes encenações públicas” (p. 353) cujo objetivo é basicamente didático. No entanto, apesar de essas “provas” públicas não terem grandes pretensões científicas, elas acabavam produzindo inovações técnicas, “e os dispositivos, concebidos para a demonstração pública, passam imediatamente para o laboratório, ou inversamente” (p. 355).

Por outro lado, aparecem também algumas vozes dissonantes, como Thompson, que não chega a acusar publicamente um erro de medição de Hertz; Sarasin e La Rive, que não criticam Hertz abertamente, mas que têm algum impacto, produzindo “um debate mais vasto sobre o que é que Hertz havia exactamente medido e calculado, sobre a fiabilidade das suas experiências” (p. 357); Cornu, que critica Hertz abertamente e demonstra logicamente “que nem tudo o que Hertz fez corre perfeitamente bem” (p. 360); e finalmente Poincaré, que “descobre um erro de cálculo trivial, mas de consequências assaz desastrosas para Hertz e para a fiabilidade do seu trabalho experimental” (p. 361). Instala-se a dúvida, o que produz um aumento significativo de estudos sobre o assunto, que agora não são mais puramente demonstrativos.

Pestre finaliza o estudo de caso dizendo que “a prova não é nunca um acontecimento simples e não ambíguo” (p. 363) e que a complexidade se encontra tanto na sua produção quanto na sua recepção.

No segundo estudo de caso, Pestre nos leva a um centro de pesquisa da marinha francesa em 1940, quando Louis Néel, um jovem físico teórico, faz uma proposta para imunizar magneticamente os navios contra minas magnéticas alemãs. Já havia uma solução conhecida, mas ela era cara e demorada. A de Néel era mais barata e mais simples, no entanto era teórica, não havia nenhuma prova formalizada. Mas o contra-almirante Fénard foi convencido, mesmo sem prova, e, com isso se instala uma estação na qual algumas realizações práticas são bem-sucedidas, aumentando o número de pessoas convencidas, entre oficiais, engenheiros, entre outros. Mas nem tudo são flores e, apesar das adaptações locais e de o princípio proposto ser bom, alguns problemas de desmagnetização começam a ocorrer e “para os marinheiros encarregados da imunização efectiva, e que terão contas a prestar se um navio explode sobre uma mina, a validade ‘geral’ da teoria não é a questão decisiva.” (p. 368-9). Novos dados tornam o problema mais complexo em termos de tempo, altura, lugar, homogeneidade etc. Os juízos e atitudes diante desses novos dados variam. Alguns, como o capitão de mar e guerra Piéri, estão convencidos da eficácia do método e atribuem os problemas a erros de medição e problemas locais; outros, como Fénard, são mais prudentes, ele “acredita no princípio de Néel, sabe que ele deve ser melhorado na prática – mas sabe igualmente que tal não é suficiente: subsiste uma dúvida” (p. 371). Diante disso, o almirante Darlan decide que os navios devem se comportar “no mar como se não tivessem sido imunizados” (p. 371). Néel conseguiu neutralizar 520 navios e acabou recebendo uma grande distinção da marinha, mas “o facto de nenhum navio ter sido afundado por uma mina magnética […] não pode, com efeito, ser atribuído unicamente à ideia de Néel”.

Para finalizar o seu texto, Pestre enuncia seis teses aqui resumidas: 1) “Obter uma prova é raramente algo simples”; 2) “requer um duro labor de convicção dos outros”; 3) “as provas de uns suscitam muitas vezes a contestação de outros”; 4) as ciências devem “mais aos saber-fazer que controlamos e aos objectivos pessoais que perseguimos, do que a vontades de ‘verificação'”; 5) “as provas administram-se através de toda a espécie de canais paralelos”; e 6) “os diversos actores podem trabalhar para o mesmo objectivo sem, necessariamente estarem identicamente convencidos pelas mesmas coisas.” (p. 373-4)

Referências:

GIL, Fernando. Introdução. In: ___. (Org.). A ciência tal qual se faz. Tradução de Paulo Tunhas. Lisboa: Ed. João Sá da Costa, 1999.

PESTRE, Dominique. Para uma história (social) da prova nas ciências e nas técnicas. Reflexões gerais e estudo de dois casos: as experiências de Hertz e a imunização magnética dos navios. In: GIL, Fernando (Org.). A ciência tal qual se faz. Tradução de Paulo Tunhas. Lisboa: Ed. João Sá da Costa, 1999.

 

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