Pérolas dos alunos – Jaqueline

jaquelineJaqueline Bauer Uber – Aluna de Bioquímica/2015

A ciência segundo Gilberto Gil e o positivismo lógico

A discussão sobre o critério de demarcação do que é ou não ciência tem diversos pontos de vista, desde o positivismo do Círculo de Viena até os Science Studies. A análise da música “Quanta”, de Gilberto Gil (texto 1 abaixo) e do trecho de “O que é a ciência afinal?” de Chalmers (texto 2 abaixo), objetivam identificar tal discussão e suas visões acerca da ciência.

No texto 1, Gilberto Gil coloca a arte e a ciência no mesmo patamar, ao chamá-las de irmãs (versos 28 e 29). Ele usa palavras consideradas “científicas” juntamente com palavras mais usuais, gerando um contraste. Por exemplo, nos versos 8 e 9, ele utiliza “Quantum”, um termo de mecânica quântica, juntamente com “mel” e “sal”. Dessa forma, ele diz que a ciência está presente no dia-a-dia, não sendo algo distante. Tal contraste repete-se no verso 10. Nos versos 12 e 13, Gil também iguala a ciência e a arte ao aproximar “cântico” de “quântico”, de sons semelhantes e significados diferentes. Assim, nota-se que a visão do autor sobre o entendimento do ser humano é uma mescla entre ciência e arte, não sendo nenhuma superior a outra. Para Gil, o saber é criado pelos homens (verso 22), e para que as descobertas ocorram, é necessário inspiração e contemplação a partir de uma teoria (versos 21, 24 e 25).

Essas interpretações do texto 1 levam a Popper, de onde um enunciado universal (hipótese) gera vários enunciados particulares, que são falseados ou corroborados (método hipotético-dedutivo). A corroboração é provisória, pois a teoria continua em teste, já que com o passar do tempo surgem novas tecnologias, que fazem com que haja mais falseadores potenciais, levando a teoria a ser mais científica. Tal falseamento é visto, no texto 1, no último verso (30).

No texto 2, a visão sobre a ciência tem caráter positivista. Para o texto 2 e os positivistas, o conhecimento científico é provado através da experiência e observação, ou conhecimento empírico (método indutivo). Isso contrasta com o texto de Gil, em que é necessário “contemplar” uma teoria e depois tentar falseá-la (método hipotético-dedutivo). Ou seja, a teoria não pode ser provada. Outro contraste surge quando, no texto 2, exclui-se a metafísica da ciência: “Opiniões ou preferências pessoais […] não têm lugar na ciência”. No texto de Gil, essa postura é diferente, já que, para ele, arte e ciência são irmãs.

A partir da análise realizada, é possível concluir que os textos 1 e 2 se aproximam, respectivamente, das visões de ciência de Popper e do positivismo lógico. Tais visões são divergentes em vários aspectos, principalmente em seu método que, para Popper, é hipotético-dedutivo e a teoria pode ser falseada, e para o positivismo lógico, indutivo, e a teoria pode ser provada.

Referências:

HAHN, Hans; NEURATH, Otto; CARNAP, Rudolf. A concepção científica do mundo – o Círculo de Viena. Tradução de Fernando Pio de Almeida Fleck. Cadernos de história e filosofia da ciência 10, p. 5-20, 1986.

POPPER, Karl. A lógica da pesquisa científica. Tradução de Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota. SP: Editora Cultrix, 1975.

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O texto da Jaqueline foi produzido a partir da seguinte questão:

Leia os textos abaixo e, a partir dessa leitura e da bibliografia estudada no curso, disserte sobre as concepções de ciência expressas em cada um dos textos.

Texto 1: Quanta, Gilberto Gil

Quanta do latim

Plural de quantum

Quando quase não há

Quantidade que se medir

Qualidade que se expressar

Fragmento infinitésimo

Quase que apenas mental

Quantum granulado no mel

Quantum ondulado do sal

Mel de urânio, sal de rádio

Qualquer coisa quase ideal

Cântico dos cânticos

Quântico dos quânticos

Canto de louvor

De amor ao vento

Vento arte do ar

Balançando o corpo da flor

Levando o veleiro pro mar

Vento de calor

De pensamento em chamas

Inspiração

Arte de criar o saber

Arte, descoberta, invenção

Teoria em grego quer dizer

O ser em contemplação

Cântico dos cânticos

Quântico dos quânticos

Sei que a arte é irmã da ciência

Ambas filhas de um Deus fugaz

Que faz num momento e no mesmo momento desfaz

Texto 2

Conhecimento científico é conhecimento provado. As teorias científicas são derivadas de maneira rigorosa da obtenção dos dados da experiência adquiridos por observação e experimento. A ciência é baseada no que podemos ver, ouvir, tocar, etc. Opiniões ou preferências pessoais e suposições especulativas não têm lugar na ciência. A ciência é objetiva. O conhecimento científico é conhecimento confiável porque é conhecimento provado objetivamente. (Chalmers, A. O que é ciência afinal? São Paulo: Brasiliense, 1992. p. 23)

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