Origem das espécies – capítulo 14

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Segue o resumo da Marta sobre o capitulo 14 da Origem, “Afinidades mútuas dos seres organizados: morfologia, embriologia, orgãos rudimentares”:

Neste capitulo 140, o título parece chamar a atenção para a discussão de morfologia, homologia e analogia das espécies, questões correntes em livros didáticos. No entanto, Darwin, mais uma vez – com sua excepcional qualidade de bom argumentador – nos leva à direção dada desde o primeiro capítulo de A origem das espécies: somos produtos de um movimento que transforma, varia e dispõe novas modificações nos organismos animais e vegetais que, por sua vez, mantém e modifica novamente as espécies vivas. E mais: somos produto de um tronco comum. Com os argumentos sobre as afinidades mútuas dos seres organizados, como sua morfologia, embriologia e órgãos rudimentares, o foco é na classificação de Lineu (1707 – 1778), publicada como Sistema da Natureza, em 1735. Afirmo que esse capítulo, mais do que o debate sobre a comparação das semelhanças e diferenças dos órgãos do mesmo animal e entre animais de outras espécies, trata da resposta de Darwin ao sistema natural de Lineu. O sistema de Lineu – sistema de categorização de animais e plantas – foi elaborado com base na reunião de animais com caracteristicas iguais e separação dos diferentes. Essa bonita e arcaica forma de classificação de objetos e, no caso de Lineu, das espécies vivas, encontra em Darwin seu crítico.

Ressalto duas questões que me chamam a atenção nesse capitulo: a) uma de ordem da epistemologia da classificação, e b) da afirmação da evolução das espécies.

Quanto à questão primeira, ela é de longa data um dos problemas epistemológicos das Ciências Biológicas. Darwin chama a atenção para o fato de que Lineu, antes de compreender o que são as espécies vivas, elaborou uma classificação e depois a ocupou com grupos animais. Em outras palavras, fez um sistema de categorias – desculpem-me a ênfase – imaginou categorias e, dentro de cada uma delas, inseriu grupos de animais e plantas. Uma caixa e um grupo. Duas caixas e mais dois grupos. O que Darwin chama a atenção é naquilo que chamamos de empirismo ingênuo: a realidade é encaixada no categoria; não é a categoria um produto de nossa invenção. Maravilhosa percepção de um naturalista do século XIX.

A segunda questão é a abordagem que Darwin faz desde os primeiros capitulos: as origens das espécies remetem ao surgimento das variações das espécies, o que ressignifica a classificação. Não imaginamos categorias e inserimos os grupos; esse modo lineano de classificar pode disfarçar os diferentes graus de modificações das espécies, que é “a única causa conhecida da semelhança dos seres organizados”. Ou seja, classificar os animais e plantas como muitos outros objetos, de acordo com seus caracteres isolados, é impedir que vejamos a evolução dos seres vivos. Diz Darwin: “Nada mais inexato!”.

Pode-se, diz Darwin, fazer a classificação em semelhanças e diferenças, pois se elas existem é porque os seres vivos derivam de um tronco comum ou do parentesco comum das formas vivas; houve a “coordenação de todos os seres organizados que viveram de tempos em tempos em grupos subordinados em outros grupos” (p. 430). O sistema de Lineu é um ensaio sobre “essa coordenação genealógica em que os diversos graus de semelhanças adquiridas se exprimem em variedades, espécies, gêneros, famílias, ordens e classes” e isso precisa ser visto pelo princípio da descendência com modificações. É isso que explica as variações pequenas e contínuas.

Há muitas questões que podemos levantar de cada capítulo desse maravilhoso livro; em particular levantei, neste comentário, um debate que considero caro aos que apreciam os estudos das Ciências Biológicas: o terreno que Darwin pisa não é o de mero descritor das espécies, mas de um argumentador arguto que também pensou a epistemologia de sua teoria. Não confundiu suas observações e experimentos com a realidade derivando um realismo ainda presente na Biologia, nem tampouco analisou “seus bichos e plantas” com o determinisno frequente no campo biológico. Supôs a realidade dos animais e plantas como um movimento e alertou para as dificuldades de, no futuro, manter a classificação estática de Lineu.

Referência:

DARWIN, Charles. A origem das espécies. 6.ed. Tradução (pretensa) de Eduardo Fonseca. São Paulo: Hemus, 1981. [EDIÇÃO NÃO RECOMENDADA PELO GRUPO]

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