Origem das espécies – capítulo 6

origemPlanetaVivoCapa da nova (2009) edição portuguesa da Editora Planeta Vivo. Excelente tradução de Ana Afonso sobre a sexta edição da Origem.

O capítulo VI da Origem, objeto de nossas leituras e discussões ao longo do mês de abril/2015, chama-se “Dificuldades da teoria” e trata dos seguintes pontos: 1) Dificuldades da teoria da descendência com modificação; 2) Ausência ou raridade de variedades de transição; 3) Transições nos hábitos; 4) Hábitos diversos na mesma espécie; 5) Espécies com hábitos muito diferentes das de seus afins; 6) Órgãos de extrema perfeição; 7) Modos de transição; 8) Casos difíceis; 9) Natura non facit saltum; 10) Órgãos de pouca importância; 11) Os órgãos não são em todos os casos completamente perfeitos; 12) A lei de unidade de tipo e a lei das condições de existência estão incluídas na teoria da seleção natural.

O Wendell preparou o seguinte resumo:

No início do capítulo sexto, Darwin enumera quatro contra-argumentos à teoria da seleção natural. São eles: (i) ausência ou raridade de formas intermediárias; (ii) origem e transições dos seres vivos que têm estruturas e hábitos peculiares; (iii) seleção sobre instintos; e (iv) influência da hibridização intra- e interespecífica. Esses dois últimos assuntos são abordados separadamente nos capítulos sete e oito.

Na seção sobre a ausência ou raridade de formas intermediárias, o nosso ponto de partida está no fato de a seleção natural produzir, ao longo das gerações, uma   série de formas com algum grau de diferenciação. Isto, portanto, é diferente do que se observa na natureza: espécies bem definidas, em geral. Por que isso ocorre?

Para responder, Darwin nos faz pensar sobre a distribuição territorial das espécies. Cada população possui um território no qual está preferencialmente distribuída. Se nós nos aproximássemos dos limites deste território, perceberíamos que o número de espécimes diminuiria e, em seguida, diminuiria muito. A partir daí inicia-se o território de outra espécie e entre estas áreas uma delgada interseção. Nessas interseções podem existir populações menores de formas intermediárias. Essas populações intermédias, justamente por serem menores, possuem menos variação, menos caracteres que possam ser selecionados positivamente. Nesses casos, a adaptação seria mais devagar a ponto de, num dado momento, serem suplantadas por variedades com populações maiores, mais especializadas. Na perspectiva darwiniana, os elos intermediários são eliminados da natureza.

Adiante são discutidos casos de transição a hábitos peculiares, como a passagem de quadrúpede insetívoro (terrestre) a animal voador, que é caso dos quirópteros. Um dos pontos centrais dessa discussão é por que/como é possível a sobrevivência em estado intermediário? Para Darwin, precisamos considerar que as mudanças em cada estágio ocorrem lenta e sutilmente de modo que propiciem algum benefício a seus possuidores.

Os olhos, frequentemente, são apresentados como exemplos de órgãos que não poderiam ter surgido pela seleção natural, talvez por isso sejam tratados numa seção própria. Argumenta-se que são complexos demais, que seu surgimento envolveria o aparecimento simultâneo de diversas subestruturas, o que para alguns seria impossível sem um planejamento. Assim, esse argumento se desdobra na comparação do olho com um telescópio. Darwin nos chama a atenção para a enorme diversidade de olhos na natureza, em especial nos animais inferiores. Adicionalmente, se considerarmos que as modificações promovidas pela seleção natural são extremamente lentas e sutis, não precisamos supor que ocorram simultaneamente. Sobre a comparação do olho com um telescópio, Darwin (2009, p. 163) diz: “Poderá esta dedução ser presunçosa? Temos nós o direito que [sic] presumir que o Criador faz a sua obra através de faculdades intelectuais, como as do ser humano?”

Os modos de transição são abordados na seção seguinte. Darwin os divide em três categorias. Primeira, um único órgão pode desempenhar duas ou mais funções distintas entre si, por exemplo, o sistema digestório de peixes do gênero Cobitis e das larvas de libélulas, que digere, excreta e respira. A segunda é quando dois órgãos distintos, ou o mesmo mas com duas formas diferentes, desempenham num indivíduo a mesma função, por exemplo, peixes Dipnoi, que respiram ar dissolvido na água por brânquias e ar aéreo por bexigas natatórias. Darwin usa esses exemplos para nos chamar atenção ao fato de que um órgão pode ser convertido em outro com uma função muito diferente da que desempenhara primitivamente. A terceira forma de transição é o retardo ou aceleração do período reprodutivo. Alguns animais podem reproduzir-se muito antes da idade adulta, e se isso se desenvolvesse, o estado adulto poderia, em algum momento, perder-se. Dessa forma teríamos grandes modificações na espécie. No entanto Darwin não se posiciona assertivamente se este processo é frequente na natureza ou até mesmo se já ocorreu.

Posteriormente Darwin discorre sobre o que chamou de “dificuldades especiais”. Aqui vemos, por exemplo, os órgãos elétricos encontrados em diversos peixes, os órgãos bioluminescentes de insetos, os olhos, as adaptações à dispersão de pólen e sementes, e os órgãos de respiração aérea de crustáceos estudados por Fritz Müller. Esses órgãos podem ser encontrados em grupos tão afastados entre si que não poderiam ser transmitidos por hereditariedade. Nesses casos, Darwin aponta para a mesma direção: apesar de desempenharem funções análogas, podemos, ao examiná-los atentamente, encontrar as diferenças. Essas diferenças nos sugerem que não houve hereditariedade na transição desses órgãos, e sim que eles tenham surgido independentemente uns dos outros. A natureza, portanto, atinge constantemente um mesmo fim (função) por diversos meios. Isto atualmente é chamado de “convergência evolutiva”.

Outro problema apontado é a existência de órgãos aparentemente pouco relevantes. Esses órgãos, segundo o que percebemos, dificilmente se formariam por meio da seleção natural, que proporciona vida aos indivíduos mais aptos, morte aos menos aptos, nada além disso. Em primeiro lugar, essas afirmações esbarram num problema que nem sempre se dá atenção, mas para o qual Darwin nos alerta: nossa ignorância. Em suas palavras, “somos demasiado ignorantes relativamente à economia de qualquer ser vivo para podermos dizer quais são as modificações que têm ou não importância” (p. 172). Mesmo assim, se uma estrutura não possui relevância atualmente é porque provavelmente foi relevante a um antepassado sendo transmitida às gerações atuais. Um segundo problema é nossa incapacidade de justificar as variações entre organismos domésticos e muito menos entre os selvagens.

Na última seção temos dois assuntos: i) até que ponto é verdadeira a doutrina utilitária; e ii) como se adquire a beleza. No primeiro, Darwin não admite que cada pormenor estrutural surgiu para beneficiar o indivíduo que o porta. Assim, através da hereditariedade, as características que um indivíduo possui surgiram em algum momento, presente ou passado, por trazer alguma vantagem. Sobre como se adquire a beleza, encontramos total rejeição à crença de que a beleza dos seres vivos surge para o deleite dos seres humanos. Darwin argumenta que, para que a beleza exista com tal propósito, se faz necessário, portanto, provar que antes do surgimento da espécie humana o mundo seria mais feio.

DARWIN, Charles. A origem das espécies, 6a. ed. Tradução de Ana Afonso. Leça da Palmeira, Portugal: Editora Planeta Vivo, 2009.

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