Seminários “A ciência tal qual se faz” – as imagens da objetividade

Neste seminário de dezembro/2015, discutimos o texto “As imagens da objectividade: a fotografia e o mapa”, da historiadora da ciência Lorraine Daston, pesquisadora e diretora do Instituto Max Planck de História da Ciência, em Berlim. Há vários vídeos dela no nosso canal do youtube, dentre eles o seguinte:

Em seu belo e esclarecedor texto, Daston (1951-) defende que, em história da ciência, é preciso ter uma concepção filosófica não fundamentacionista já que, em seu cerne, o que há são modos de ver coletivamente aprendidos e que não devem sua existência a qualquer indivíduo, laboratório ou disciplina. Para isso, ela desmistifica uma das noções mais caras à ciência – a objetividade -, mostrando que essa nova virtude epistêmica tem uma história, é plural e se trata de uma visão sem preconceito, sem pensamento e cega.

Seu argumento parte da análise do termo “objetividade” desde o século XIV em Scot e Occam, quando, curiosamente, dizia respeito às coisas como se apresentam à consciência, ao contrário de “subjetividade”, que dizia respeito às coisas em si. Ou seja, mais ou menos o contrário do que significam hoje em dia. Traços disso ainda se encontram em Descartes, mas, logo depois, esses termos caem em desuso, só vindo a ser recuperados por Kant, que vai inspirar toda uma nova significação, mais próxima da atual. (p. 79-80)

Já prevendo contestações sobre esse caráter histórico e plural da objetividade que está propondo, Daston se pergunta: será que “as práticas e os ideais da objectividade científica precederam a palavra?” (p. 80). Se sim, “a objectividade científica é uma propriedade trans-histórica” e “pode ser aplicada a numerosos exemplos da história da ciência, pelo menos a partir do século XVII” (p. 80-81). Se não – e é isso que ela pretende demonstrar -, há um erro básico nessas objeções, e de ordem epistemológica.

Para Daston, a objetividade é uma dentre várias outras virtudes epistemológicas da ciência, como verdade, certeza, alcance explicativo e estruturas matemáticas, mas a sua hegemonia é tal que as outras parecem invisíveis ou coincidentes com ela. No entanto às vezes há conflitos e é preciso escolher a virtude prioritária num dado contexto. Às vezes, por exemplo, há que se sacrificar a verdade à objetividade pelos mais diversos motivos, como questões instrumentais e metodológicas, por exemplo. E para dar conta da história da objetividade, é preciso então distingui-la das outras virtudes, lembrando que sempre “todas as formas de objectividade procuram combater algum aspecto do ‘eu’, não apenas como subjectivo, mas como perigosamente subjectivo.” (p. 82).

O regime epistemológico da objetividade aparece no século XIX e se apresenta em duas formas – objetividade mecânica e objetividade comunitária – que implicam “métodos, metafísicas e morais específicas” (p. 83). O regime anterior (século XVIII) é chamado por Daston de “fidelidade à natureza”, e ambos os regimes serão tratados no que diz respeito às suas representações visuais. Mais precisamente, vamos das ilustrações (fiéis à natureza) às fotografias (objetividade mecânica) e aos mapas (objetividade comunitária).

O regime de fidelidade à natureza caracterizou-se pela subjetividade tanto no que diz respeito à interpretação (projeção do sujeito na natureza) quanto à idiossincrasia e ao paroquialismo. A “habilidade pessoal para desvelar e representar as verdades da natureza” (p. 85) era valorizada, por isso editar e embelezar ilustrações fazia parte das práticas científicas. Eram tempos de uma simetria ideal e absoluta vista por trás de qualquer variação, ou seja, a intervenção era bem-vinda para “extrair a regularidade da variabilidade individual” (p. 86) e para padronizar objetos científicos (e não os sujeitos). O que se pretendia na seleção e construção desses objetos era o rigor, e não a objetividade (p. 87).

A partir do século XIX, com o nascimento da objetividade, a “fidelidade à natureza” é substituída pelo “deixe-se a natureza falar por si mesma” (p. 87). Com isso, a simetria, a perfeição e o idealismo ficam sob suspeita – deixam de ser virtudes e passam a ser vícios -, e a intervenção passa a ser entendida como distorção. Esse novo ethos da ciência exige autenticidade e autodomínio para refrear generalizações, improvisações e projeções dos cientistas. Trata-se da objetividade mecânica. Surge um novo tipo de representação e de observador, agora mecanizados, e a natureza parece “retratar-se a si mesma sem qualquer mediação humana” (p. 90). A fotografia encarna essa demanda de uma nova objetividade, que é “nominalista na sua metafísica, mecânica nos seus métodos e auto-contida na sua moral” (p. 88). Apesar das suas limitações, a fotografia responde pela conversão ao regime de objetividade, ou seja, de “fidelidade ao que é visto, em vez da fidelidade à natureza” (p. 90).

Além da projeção do sujeito na natureza, o regime de objetividade veio também para combater a idiossincrasia e o paroquialismo. Entra em cena agora a objetividade comunitária. Segundo Daston, “como a objectividade mecânica, a objectividade comunitária emergiu em meados do século XIX, como resposta a uma nova forma de investigação científica, a colaboração internacional permanente” (p. 90). Esses grandes projetos de cooperação internacional – como o da carta do céu, iniciado em 1887 – indicam uma nova consciência dos fenômenos, que não se restringem ao aqui e agora, e dependem de uma ampla rede de observadores, além de padronização de métodos e instrumentos (p. 91). O mapa representa bem essa objetividade, tendo em vista o seu caráter coletivo.

Apesar de o exemplo da carta do céu reunir os dois tipos de objetividade (mecânica e comunitária) – tratava-se de um mapa fotográfico dos céus -, a objetividade mecânica distingue-se da comunitária em alguns aspectos. A mecânica preza a velocidade, a permanência e a autenticidade, enquanto a comunitária preza a globalidade, a uniformidade e a solidariedade. A objetividade comunitária abre mão do rigor em função da padronização e da uniformidade (p. 94-5), e isso se reflete no diferente tom moralizador que aqui aparece. Em vez do autodomínio interpretativo da objetividade mecânica, na comunitária é preciso “abnegação na sua escolha de métodos e equipamentos” (p. 96) e “sacrifício de interesses locais em prol do objectivo comum” (p. 98).

Descrito o quadro do regime da objetividade, Daston começa a encaminhar um diagnóstico de doenças epistemológicas daí decorrentes: “Tanto a objectividade mecânica como a comunitária eliminavam alguns obstáculos ao conhecimento científico, mas erigiam outros em seu lugar.” (p. 99). E o principal problema que ela detecta é o divórcio entre objetividade científica e epistemologia filosófica, ou seja, além de práticas e preceitos diferirem nos dois regimes de objetividade diferentes, num mesmo regime também se desenvolveram conflitos entre preceito e prática.

“Daí que as práticas científicas da objectividade não tenham sido sempre fiéis à sua inspiração epistemológica. As fotografias pouco claras, a preto e branco, eram preferidas a desenhos naturalistas finamente detalhados, em nome da autenticidade; medições menos precisas eram preferidas a medições mais precisas em nome da solidariedade. […] Os ideais morais profundamente arreigados [autenticidade e solidariedade], bem como as práticas substancialmente enraizadas, divorciaram a objectividade científica da epistemologia filosófica.” (p. 100)

E é justamente nesse ethos da objetividade que Daston localiza a sua força. Sem isso, diz ela, “a objectividade seria tão estéril do ponto de vista científico quanto a epistemologia” (p. 102). Numa franca crítica à epistemologia, ela ainda complementa dizendo que, mesmo quando o ethos não é cumprido (afinal, a interpretação e a competição existem junto com a autenticidade e a solidariedade), ainda assim ele é honrado, porque “há uma vasta diferença entre uma comunidade que falta ao cumprimento dos seus ideais e uma que, pura e simplesmente, não reconhece ideais” (p. 103). Trata-se, pois, de uma empreitada social, epistemológica e ética.

Referência bibliográfica:

DASTON, Lorraine. As imagens da objectividade: a fotografia e o mapa. In: GIL, Fernando (Org.). A ciência tal qual se faz. Tradução de Paulo Tunhas. Lisboa: Ed. João Sá da Costa, 1999.

Uma resposta

  1. Muito bom.

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