Origem das espécies – capítulos 12 e 13

novaOrigemMartinClaretNovíssima tradução (2014) de Carlos Duarte e Anna Duarte publicada pela Martin Claret, editora famosa por publicações problemáticas, cuja edição anterior da Origem era um plágio de tradução (cf. blog não gosto de plágio). Aparentemente, a editora se redimiu, publicando uma tradução decente e com prefácio de um especialista, o professor Nélio Bizzo (USP).

O Pedro preparou o seguinte resumo dos capítulos 12 e 13, ambos sobre distribuição geográfica:

Antes de começar o resumo propriamente dito, devo esclarecer que devido ao uso de duas traduções feitas por Carlos Duarte e Anna Duarte para a edição da Martin Claret e de Joaquim da Mesquita Paul para a editora Lello & Irmão, as citações foram escolhidas de acordo com sua clareza didática e fidedignidade em relação ao texto original para cada ocasião e foram marcadas como CAD e JMP, respectivamente.

Nos capítulos XII e XIII, Darwin discorre sobre os aspectos da distribuição geográfica dos organismos pelo planeta. O primeiro é utilizado para estabelecer as bases teóricas em relação aos meios de dispersão e à origem das espécies, se surgem em regiões separadas ou em um único ponto e se espalham a partir dele. Já o segundo foca-se na aplicação dos conceitos desenvolvidos anteriormente a certos problemas propostos pelo autor.

O capítulo XII inicia com a tese de que tanto as semelhanças quanto as diferenças entre os organismos não podem ser explicados unicamente por condições físicas ou climáticas, comparando o Velho Mundo com o Novo: “Não há por assim dizer, no velho mundo, um clima ou uma condição que não tenha seu equivalente no novo mundo […] Apesar desse paralelismo geral entre as condições físicas respectivas do velho e do novo mundo, que imensa diferença não há entre suas produções vivas!” (p. 413-414 JMP)

O autor, então, compara a África do Sul, América do Sul e Austrália a título de exemplo, pois, por estarem situadas nas mesmas latitudes com climas semelhantes e estarem tão separadas quanto continentes podem estar, apresentam um ótimo meio de provar sua tese, já que, mesmo com estas semelhanças físicas, as formas de vida destes lugares se assemelham muito mais entre si, mesmo em diferentes regiões do mesmo continente, do que com representantes de continentes diferentes. Para Darwin, “A ligação é simplesmente a herança, que, até onde sabemos com certeza, por si só produz organismo iguais entre si, ou quase iguais como observamos com as variedades.” (p. 472 CAD)

Darwin explica a herança entre os seres vivos a partir da migração e das diversas barreiras que podem impedi-la, sendo elas mais ou menos duradouras: “[…] nos lados opostos das cadeias de montanhas altas e contínuas e de grandes desertos e até de rios largos, encontramos produções diferentes embora as cadeias de montanhas, os desertos, etc. não sejam intransponíveis ou aptos a existir por tanto tempo quanto os oceanos que separam esses continentes, as diferenças são muito inferiores em grau àquelas características dos continentes distintos.” (p.470 CAD). Nos mares encontramos a mesma lei e, interessantemente, Darwin aponta que “cerca de 30% dos peixes são os mesmos de ambos os lados da bacia do Panamá; e este fato levou os naturalistas a acreditar que o istmo tenha sido antigamente uma passagem aberta.” (p. 471 CAD). Eles não tinham condição de saber na época, mas, à luz da teoria da tectônica de placas, de Alfred Weneger, proposta no início do século XX, foi descoberto que as américas só se uniram no fim do período Neogeno durante a época do Plioceno compreendida entre cerca de 5 e 2 milhões de anos atrás, havendo, antes disso, uma larga conexão entre os atuais oceanos Pacífico e Atlântico.

Logo, chegamos no terceiro ponto principal apresentado no capítulo, a questão entre os centros únicos ou múltiplos de criação, ou seja, se as espécies se originam em um único ponto e migram para outras regiões ou expandem o território que ocupam a partir dele, ou se são criadas em regiões diferentes independentemente. Darwin defende claramente o primeiro caso.

O autor traz novamente a comparação entre a Austrália e América do Sul para atacar a hipótese dos centros múltiplos, utilizando mamíferos como exemplo, pois as plantas apresentam diversos meios de dispersão para viajarem longas distâncias, e questiona-se por que não há mamíferos de mesma espécie nos dois continentes se os climas são semelhantes. A hipótese simplesmente não se sustenta. De acordo com o autor, “Algumas famílias, muitas subfamílias, um grande número de gêneros, estão limitados numa região única, e muitos naturalistas observaram que os gêneros mais naturais, isto é, aqueles de que as espécies se aproximam mais entre si, são geralmente próprios a uma só região assaz restrita, ou, se têm uma vasta extensão, esta extensão é contínua.” (p. 419 JMP), ou seja, nota-se que, pelas evidências, é muito mais provável que as espécies sigam o padrão dos centros únicos de criação. Esta hipótese tem importância em outra questão da teoria geral de Darwin, pois corrobora a teoria de que todos os seres vivos são descendentes de um único ancestral.

Em seguida, Darwin trata dos meios de dispersão. Já era consenso entre os geólogos que grandes alterações físicas ou climáticas ocorriam e que estas determinavam as formas dos continentes e oceanos. Darwin passa a questionar como a ascensão ou descida dos mares, as eras glaciais e demais eventos geológicos alteram a distribuição de organismos pelo globo.

Ele começa tratando, com cautela, da hipótese de Edward Forbes e de diversos outros autores da época de que todos os continentes e ilhas foram ligados por pontes de terra. Admite que essa explicação resolveria os problemas relacionados aos meios de dispersão, mas não vê evidências que suportem essas afirmações, sendo que, se as ilhas fossem antigas partes de continentes, deveriam apresentar formações de rocha graníticas ou metamórficas em vez de serem compostas de matéria vulcânica.

Em seguida, discorre sobre os chamados meios de dispersão ocasionais começando pela botânica, de acordo com várias experiências realizadas por ele e por outros naturalistas. Eles mergulhavam diferentes sementes em água salgada para ver quanto tempo duravam sem perder a capacidade de germinação levando em conta a velocidade média das correntes marítimas para que se pudesse calcular a distância de viagem. Pode-se ver que “as sementes de cerca de 10/100 das plantas de uma flora podem, depois da dessecação, flutuar através de um braço de mar da largura de 1450 km pouco mais ou menos, e germinar em seguida.” (p. 425 JMP). Darwin menciona, depois, diversos outros meios de dispersão ocasionais como: a viagem de sementes por intermédio de pássaros, árvores à deriva no mar, insetos e icebergs. Ele admite que esses meios são raros e de difícil sucesso, uma vez que, mesmo que uma semente não pereça na viagem, pode não cair em solo favorável, não resistir ao clima ou não conseguir competir com as espécies do novo território.

O autor passa, então, para a dispersão durante períodos glaciais e explica que, durante as eras glacias, o avanço das geleiras dos polos para latitudes baixas e a diminuição da temperatura cria ambientes propícios para que produções dos polos consigam sobreviver mais perto do equador. Porém, assim que o calor retorna e o gelo derrete, tais produções ficam isoladas no cume das montanhas onde a temperatura é mais baixa: “As plantas alpinas da Escócia, por exemplo, como assinala o Sr. H.C. Watson, e a dos Pirineus, como assinala Ramond, são especialmente aliadas as plantas do norte da Escandinávia; as dos Estados Unidos, às do Labrador; as das montanhas da Sibéria, às das regiões árticas daquele país.” (p. 489 CAD).

Em seguida, Darwin fala sobre a dispersão utilizando períodos glaciais alternados entre o norte e sul, proposto por Scroll, dizendo que as produções vivas de um hemisfério poderiam passar para outro através da migração. Vale observar, no entanto, que eu não pude achar fontes que corroborem a proposta de Scroll, uma vez que hoje se acredita que a Terra como um todo passa por uma glaciação e não seus polos independentemente.

No capítulo 13, Darwin inicia apontando a contradição existente entre a dispersão de produções, pois, sendo os sistemas aquáticos continentais separados por barreiras de terra entre si e de outros continentes por oceanos, seria razoável pensar que os organismos não se dispersassem tão bem. No entanto é justamente o contrário que pode ser observado.

Darwin admite que muitos casos de dispersão podem ser explicados por migrações curtas e frequentes de lago em lago ou de rio em rio e, no caso de meios de dispersão ocasionais, podem ocorrer ventanias que levem peixes de um rio para outro incólumes, também pode ocorrer a migração por meio da terra presa às aves, pois, como Darwin demonstra, “três colheres de sopa de lama de três pontos sob a água, na beira de um pequeno lago; essa quantidade de lama, quando seca, pesava cerca de 180 gramas […] as plantas eram de muitos tipos e o número total foi 537.” (p. 509 CAD). O solo ao redor de lagos é bem rico em sementes que poderiam, sem dúvida, ser carregadas. Também é necessário salientar a presença de peixes da mesma espécie em continentes diferentes, porém são muitos os peixes de água salgada que podem se adaptar à agua doce ou vice-versa.

Em seguida, o autor trata dos habitantes de ilhas e suas relações com os continentes. É muito comum a presença de organismo endêmicos em ilhas quando comparados a um mesmo ambiente no continente. Isso ocorre devido às modificações geradas por meio da luta pela vida que os seres vivos têm que enfrentar quando chegam no novo ambiente.

É normal que sejam ausentes, nas ilhas, alguma classe animal que terá seu nicho ocupado por outra, como é o caso dos répteis nas Galápagos e das aves na Nova Zelândia. A ausência de mamíferos terrestres em ilhas oceânicas não foi explicada por Darwin, embora morcegos sejam muito comuns em diversas ilhas. A ausência de batráquios (anfíbios), por sua vez, pode ser explicada pela própria natureza desses animais, já que devem sempre estar perto da água doce em qualquer estágio da vida, morrendo quase instantaneamente em contato com água salgada.

Experiências foram feitas pelo barão Alcaptaine com conchas de moluscos em hibernação, quando desenvolvem um tipo de película protetora. Ele “Colocou cem conchas terrestres pertencentes a dez espécies dentro de uma caixa com perfurações e as manteve perfuradas por 15 dias. Das cem espécies vinte e sete sobreviveram. ” (p. 519 CAD). Todos os meios de dispersão apresentados no capítulo anterior, ocasionais ou não, podem ser aplicados à dispersão em ilhas. É evidente, também, que as espécies das ilhas são relacionadas intimamente com aquelas dos continentes mais próximos.

Todos os fatos apresentados neste capitulo são usados por Darwin como argumentos contra a teoria da criação independente, pois se é possível naturalizar plantas e mamíferos de lugares distantes em ilhas e outros continentes, como não surgiram espontaneamente nestes lugares? E no caso de produções de água doce, como espécies não surgem independentemente em sistemas fluviais semelhantes e de mesma latitude separados por cadeias de montanhas? Ambas as perguntas não podem ser respondidas pela criação independente, mas podem pela teoria da migração com posterior mutação defendida pelo autor.

Finalmente, pode-se concluir que novamente a teoria de Darwin se mostra forte ao enfrentar diversas situações e ser corroborada pelos fatos e pelas outras teorias fortes vigentes na época e até por outras que só surgiram posteriormente.

REFERÊNCIAS

DARWIN, Charles. A origem das espécies. Tradução de Carlos Duarte e Anna Duarte. São Paulo: Editora Martin Claret, 2014.

____. A origem das espécies. Tradução de Joaquim da Mesquita Paul. Porto: Editora Lello & Irmão, 2003. E-book disponível no site http://ecologia.ib.usp.br/ffa/arquivos/abril/darwin1.pdf no dia 30/12/2015 em 30/12/15.

____. The origin of species by means of natural selection. Acessado no site do Projeto Gutenberg: http://www.gutenberg.org/files/2009/2009-h/2009-h.htm#link2HCH0012 no 30/12/15.

____. http://www.fossils-facts-and-finds.com/tertiary_period.html. Acessado em 30/12/15.

Uma resposta

  1. Aí, Pedro!!!!! maravilha!

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