Seminários “A ciência tal qual se faz” – culturas etéreas e culturas materiais

O seminário de hoje é sobre o texto “Culturas etéreas e culturas materiais”, do físico e historiador da ciência Peter Galison, que é professor na Universidade de Harvard. Já temos no nosso canal do youtube vários vídeos dele, como o seguinte:

Este artigo é uma reflexão sobre o seu livro Image and logic, de 1997, sobretudo sobre os seguintes pontos: 1) a identidade do cientista; 2) influências “externas”; 3) reorganização do local da ciência; 4) biografias; 5) a noção de objetividade; 6) como se constrói uma narrativa em história da ciência; 7) para quem se constrói a história da ciência; 8) para que se constrói esta história da ciência; 9) instrumentos; e 10) zonas de troca.

Claro que todos esses pontos estão ligados. A mutabilidade da identidade do cientista (o experimentador e o teórico de hoje não são como no século XIX), por exemplo, está intrinsecamente ligada à mutabilidade das biografias, cujo enfoque passa a ser no evento, e não no biografado nem na biografia propriamente dita. Galison quer fugir da discussão internalismo/externalismo, por isso coloquei “externas” entre aspas no item 2.

O interesse pela reorganização do local da ciência, a chamada big science, já aparece em sua tese de doutorado, que se transformou no livro How experiments end (Galison, 1987), no qual ele toma experimentos no campo da física de altas energias como estudo de caso. Para além da preocupação com a prática científica, típica dos science studies, Galison, na mesma sintonia de Ian Hacking (clique aqui para ver os registros dos nossos seminários sobre o livro Representar e intervir), mergulha nas culturas materiais da ciência em oposição à tradição que se concentra nas culturas etéreas. Nos termos de Hacking, respectivamente, intervenção e representação, ou seja, ambos enfatizam a prática, o experimento e a “materialidade do arroz e das batatas” (Galison, 1999, p. 395) em vez da teoria. Nesse sentido, temos aqui a proposta de uma historiografia antipositivista e também antikuhniana, já que, além de não se centrar em teorias ou paradigmas, descarta a incomensurabilidade em prol das “zonas de troca”. Trata-se, pois, de uma história material e cultural da ciência que se detém nos interesses locais.

Para ele, a gota d´água nesse choque historiográfico foi o que ele viu no fim dos anos 1970 nas comemorações do centenário de Einstein, que revelaram um:

“Einstein como o mais etéreo dos físicos, e em parte devido ao vasto consenso em torno da ideia que a época de ouro da atenção positivista à experiência se encontrava encerrada, […] como se estes [últimos cem anos da Física] estivessem guiados e caracterizados apenas por preocupações puramente teóricas.” (p. 396)

Galison não concordava com isso. Em seus estudos (depois publicados em Os relógios de Einstein e os mapas de Poincaré, versão portuguesa de 2005), tornou-se evidente que:

“Einstein se encontrava completamente imerso no mundo das patentes, dos inventos e das máquinas. Parecia-me francamente implausível que o jovem Einstein, tendo vindo de uma família que dirigia uma firma de electro-mecânica, e vivendo o seu dia a dia num gabinete de patentes, nada tivesse aprendido através do seu encontro com o universo material da tecnologia científica.” (ibid.)

Generosamente, então, Galison passa a nos mostrar a sua guinada entre o How experiments end (1987) e o Image and Logic (1997), justamente naquilo que me parece ser o que se tornaria a sua distinção em relação ao Hacking. Apesar de, a princípio, assinar embaixo da ideia de autonomia do experimento, tão cara à nova historiografia da ciência (nem positivista nem antipositivista), ele acabou percebendo outro problema. Em suas palavras (traduzidas pelo português Paulo Tunhas):

“O nó da dificuldade parecia-me ser este: nos science studies havíamos adquirido uma importante perspectiva devido ao facto de nos concentrarmos em circunstâncias locais – as pessoas, as instituições e as técnicas particulares efectivamente envolvidas na produção e reprodução de experiências. No entanto, em conjunção com esta imagem altamente local, existia uma noção de linguagem altamente global. […] No princípio de 1989, comecei a explorar a possibilidade de transportar, por assim dizer, a ideia de localidade até à própria linguagem. Talvez que esta incomensurabilidade súbita e disjuntiva entre ‘tempo’ num registro newtoniano e ‘tempo’ num registro einsteiniano nem sequer se pudesse colocar. […] Em vez disso, o que acontecia eram sobreposições parciais, variantes locais complexas e novas combinações.” (Galison, 1999, p. 398)

Ou seja, não há incomensurabilidade em nenhuma instância, não só entre teorias, mas também na relação entre teorias, instrumentos e experimentos, pois a linguagem também é local, está em fluxo e produz híbridos. Este é o princípio do conceito de “zona de troca”, algo que, para Galison, é fundamental para capturar “a experiência de continuidade vivida pelos físicos” e “colocar um certo número de questões que antes se encontravam simplesmente bloqueadas pela imagem da linguagem global” (ibid.), como as relações de poder, as condições históricas da formação desses híbridos e a ligação da cultura científica com a cultura num sentido mais amplo.

Sendo assim, não se trata de uma autonomia total da experiência, da teoria e dos instrumentos, e sim parcial. E muito menos de uma dicotomia entre interno e externo à ciência, ou entre uma linguagem idealizada e uma materialidade primitiva. O Wittgenstein das Investigações é aqui convocado para emprestar a sua ideia de que não há linguagem privada (pois o sentido está no uso e é construído coletivamente) aos objetos científicos, que passam a ser vistos de maneira local, dinâmica e estratégica como a linguagem. Trata-se de “usos de objectos partilhados localmente, numa analogia precisa com o uso de termos partilhados localmente” (p. 401).

Na sequência, Galison ilustrará o trânsito entre visual e real com o caso da câmara de nevoeiro, que inicialmente (século XIX) serviu ao estudo “romântico” das nuvens (mimético, qualitativo), passando depois à análise quantitativa dos “invisíveis” íons e prótons. Com isso, ele explora a ideia de ver, reconhecer e tornar real e visível algo que era apenas uma teoria, explicitando o caráter interpretativo desse processo, que demanda treinamento do olhar e  estabelece uma zona de troca entre as tradições analítica e mimética (p. 402-407). Este é um assunto que Galison abordará com mais vagar em seu livro publicado em 2007 junto com Lorraine Daston, Objectivity, mas que já estava sendo gestado na altura da escrita do texto que estamos analisando.

Vale lembrar que essas zonas de troca estabelecem espécies de zonas francas, nas quais uma plataforma de comunicação se estabelece com uma linguagem mestiça comum para um determinado fim, que é a transmissão de uma certa cultura material, que implica valores, significados, símbolos e estratégias de demonstração (p. 401). Fora desses locais, os mundos e suas respectivas linguagens são diferentes, nada significando necessariamente uns para os outros (p. 408).

Outro ponto que Galison toca ao falar das zonas de troca entre a física e a química derivadas desse caso da câmara de nevoeiro – nessa altura (século XX) já com novas técnicas de visualização que “prolongaram o tipo eminentemente visual de aproximação à natureza” (p. 407) com filmes nucleares (as chamadas de câmaras de emulsão) – é a questão da autoria científica, que também se torna flutuante. Ele fala em autor-experimentador, que não é uma pessoa, e sim um coletivo, um fenômeno social. “Ele representa o grupo, que não se assemelha, fisicamente, em nada, ao indivíduo.” (p. 411). Esse assunto será mais explorado no seu capítulo “The collective author”, do livro Scientific authorship, organizado em parceria com Mario Biagioli e publicado em 2003.

Numa aproximação entre a história epistêmica e a história do trabalho, inspirada no que os próprios cientistas relatam sobre secretismo, reprodutibilidade e uniformidade da natureza, Galison (p. 410) diz o seguinte:

“[…] a cultura material do laboratório funciona como um elo de ligação tanto com o mundo mais vasto das preocupações científicas militares, industriais e outras, como com o mundo da demonstração em física fundamental.”

Para finalizar este artigo de reflexão sobre o seu livro Image and logic, Galison aponta para duas questões. Primeiro, ele desdobra a noção de autor-experimentador nas zonas de troca, mostrando que os indivíduos participam de várias redes de práticas (experimental, teórica ou instrumental) e que, portanto, faz sentido perguntar “como é que esses diferentes domínios de práticas chegaram a sobrepor-se parcialmente” (p. 412). Ou seja, já que não há linguagem privada, é necessário uma língua mestiça para modelar “a sobreposição parcial interna de termos e procedimentos, tal como no domínio público” (p. 413).

Ele também aponta para a questão das estrutura coercitivas de que os teóricos parecem necessitar. Essa função, que antes era cumprida pelo experimento, passou a ser cumprida pela matemática. Essa aliança entre alguns teóricos e matemáticos no fim do século XX representa uma separação entre teoria e experimento que evidentemente não tem nada de trivial. Há controvérsias entre os físicos (alguns acham que o experimento é uma obrigação moral, a definição do próprio espírito científico) e entre os matemáticos (alguns acham que a física trouxe formas de demonstração pouco rigorosas para a matemática), que revelam a conexão entre identidades, valores e objetos em fluxo.

GALISON, Peter. Culturas etéreas e culturas materiais. In: GIL, Fernando (Org.). A ciência tal qual se faz. Tradução de Paulo Tunhas. Lisboa: Ed. João Sá da Costa, 1999.

___. The collective author. In: BIAGIOLI, Mario; GALISON, Peter (Eds.). Scientific authorship: credit and intellectual property in science. NY: Routledge, 2003.

___. How experiments end. Chicago: University Chicago Press, 1987.

___. Image and logic: a material culture of microphysics. Chicago & Londres: The University of Chicago Press, 1997.

___. Os relógios de Einstein e os mapas de Poincaré. Tradução de Nuno Garrido de Figueiredo. Lisboa: Gradiva, 2005.

___; DASTON, Lorraine. Objectivity. NY: Zone Books, 2007.

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