Seminários “A ciência tal qual se faz” – o estatuto dos instrumentos científicos

Neste capítulo de Jim Bennett, “O estatuto dos instrumentos científicos”, vemos como se relacionam instrumentos, ciência e sociedade. O papel central dos instrumentos na cultura científica se mostra na forma como eles condicionam objetos, discursos, métodos e a própria história das disciplinas.

Para Bennett (1999, p. 203), os instrumentos científicos ajudam “a definir e a regular o que é a ciência e como é que ela é praticada”, além de serem “emblemáticos da ciência – […] sinais de autoridade”. No entanto, assim como outros autores que temos estudado, ele acredita que a cultura científica não é especial, ela “imerge na cultura geral” (ibid., p. 204), e que os instrumentos científicos, igualmente, constituem uma categoria específica de instrumentos – ou ferramentas – em geral. Ademais, diz ele (ibid.) que a criação dessa categoria foi um processo de separação gradual cujas “fronteiras não foram nunca claras”. Nesse sentido, não se pode prescindir do contexto histórico para entender os instrumentos científicos.

No caso que ele discute – a astronomia – essa relação entre ciência, instrumento científico e a própria determinação de quem é ou não astrônomo profissional é tão forte que é possível explicitá-la a partir da análise do quadro abaixo de Nicolas-Bernard Lépicié, de 1777, chamado “O astrônomo”, que se encontra no Museu Calouste Gulbenkian.

astronomoLepicieBennett (1999, p, 206) nos mostra que, apesar do título do quadro, o moço representado segurando um pequeno telescópio definitivamente não era um astrônomo. Isso porque, na época (século XVIII), a astronomia “não tinha a ver com olhar para os céus através de telescópios, mas com fazer medições com instrumentos fixos”, como quadrantes, globos e esferas. No retrato, portanto, temos um astrólatra, um amante do estudo dos astros. Bennett ainda nos lembra que nesses tempos a ciência popular estava na moda.

Temos, então, um período em que a astronomia (área na qual os instrumentos científicos começaram) era uma ciência matemática e se baseava em instrumentos de medição, sobretudo a esfera armilar, não se preocupando, como hoje em dia, “com a natureza física dos céus ou com as causas dos seus movimentos” (ibid., p. 208). A física só passa a ser problema astronômico no século XIX, quando se começa a falar em astrofísica.

Eu ainda complementaria dizendo que esta preocupação com a física dos astros, desde a antiguidade, era atributo de outra ciência, irmã da astronomia: a astrologia. Evidentemente, tratava-se de uma outra física, sobretudo qualitativa, que lidava com elementos, simpatias e raciocínio por semelhança. Em Ptolomeu (século II), por exemplo, essa distinção entre astronomia (ciência matemática) e astrologia (ciência física) já está posta tanto em sua obra astrológica (Tetrabiblos) quanto astronômica (Almagesto), apesar de ressaltar a interligação de ambas. Quem quiser ver mais sobre Ptolomeu e o Tetrabiblos, clique aqui.

Dessa forma, o instrumento científico, ainda que tenha sido projetado com uma finalidade diferente – como é o caso do telescópio, que inicialmente era um instrumento de guerra e não interessava à astronomia porque não fazia medições -, é capaz de modificar uma disciplina, produzir novos discursos, estabelecer novos problemas e determinar a natureza das respostas. E foi exatamente isso que aconteceu quando Galileu apontou seu instrumento para o céu. Além de não estar fazendo astronomia no sentido da sua época, ele estava desafiando a competência da astronomia e a distinção entre a abordagem matemática e a física (ibid., p. 208-9).

O grande desafio da introdução do telescópio na prática astronômica era a dependência do instrumento que isso causaria, instrumento que exigia especialização, era caro e demandava crédito de seus porta-vozes, pois tratava de um mundo invisível, afastando-se do senso comum. Ademais, a observação a olho nu e os instrumentos de medição davam conta do recado e a precisão estava garantida, bem como a padronização de práticas nos mais diversos observatórios. Entretanto, segundo Bennett (ibid., p. 211), “a maior parte da obra era redundante: […] aparentemente sem outro fim que não fosse ela mesma […]. Não havia justificação em termos de investigação para tantos regimes de observação semelhantes.”

Em resumo, nessa relação entre a astronomia e seus instrumentos, temos o seguinte: no século XVII, havia a astronomia dos telescópios refletores (espelhos), que era tipicamente amadora (como no quadro acima), e a astronomia dos telescópios refratores (lentes), que era a profissional; depois, no XVIII, os refletores gigantes (tudo era uma questão de tamanho), apesar de ainda sob suspeita, começaram a viabilizar o conhecimento astronômico para além da medição, e questões físicas aparecem na pauta; no século XIX, com a câmara fotográfica e o espectroscópio, a astrofísica entra em cena, mudando completamente os rumos da investigação (ibid., p. 210-13). Pode-se dizer que, para além da “melhoria” da observação, representada pelo telescópio, com o espectroscópio e a fotografia a astronomia entra numa nova era, a era de “uma nova manipulação da experiência visual” (ibid., p. 213). Isso tudo porque a espectroscopia, que detecta “a composição química por meio da análise dos espectros luminosos dos corpos incandescentes” (ibid., p. 212), aliou-se à astronomia, e “a luz que, durante tanto tempo, fora apenas tomada como prova de existência e de posição, e talvez de cor e de forma, trazia consigo, sob uma forma codificada, informações às quais nenhum astrónomo podia alguma vez ter imaginado vir a ter acesso” (ibid.).

Vale aqui lembrar que a astrofísica entra no Brasil ainda no século XIX, mas que somente depois da instalação de um telescópio de grande porte em Brazópolis-MG nos anos 1980 (ainda hoje o maior em solo brasileiro) no Observatório Astrofísico Brasileiro (OAB) – hoje Observatório Pico dos Dias (OPD), divisão do Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA) – que a astrofísica realmente ganhou impulso entre nós. Essa história, que em breve aparecerá em livro e artigo, já foi narrada aqui.

Evidentemente, todas essas modificações foram gradativas, e exigiram uma série de acomodações (disciplinares, institucionais, instrumentais, práticas) que, de maneira geral, tornaram-se invisíveis na história da ciência, como bem descreve Kuhn quando fala da invisibilidade das revoluções científicas.

BENNETT, Jim. O estatuto dos instrumentos científicos. In: GIL, Fernando (Coord.). A ciência tal qual se faz. Lisboa: Edições João Sá da Costa, 1999 (Coleção Humanismo e Ciência).

Mais um vídeo do Jim Bennett, agora falando de instrumentos matemáticos antigos que se relacionam à época de formação da Royal Society:

(outros vídeos de Jim Bennett, entre outros, na playlist de Science Studies do nosso canal do Youtube)

 

Uma resposta

  1. Crirtina: muito bom, divulguei no facebook. abs

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