Origem das espécies – capítulo 8

darwinNaArvoreA Marta preparou o seguinte resumo do capítulo 8 da Origem (capítulo 7 na primeira edição):

No capitulo VIII da sexta edição, “Instinto”, de A origem das espécies, Darwin oferece uma série de reflexões. A primeira delas é a de que os instintos dos animais MUDAM e são bases para os hábitos. Ora, essa afirmação – proveniente de estudos com muitos animais – leva a outra, a de que os animais têm faculdades mentais (o que Piaget, no século XX, chamou de inteligência prática). Mais ainda: essas faculdades se transformam e são suporte para a variação dos instintos.Aqui há muitas questões revolucionárias: a primeira, os instintos também passam por seleção natural, “Um certo grau de variação dos instintos no estado natural e a sua transmissão por hereditariedade são indispensáveis à ação da seleção natural […]” (DARWIN, 1981, p.232); a segunda, as faculdades mentais (a inteligência e suas manifestações estratégicas) dos animais variam no estado natural e terceiro, o papel dos hábitos que dão origem a novos instintos. Com estas dimensões, Darwin inaugurou, nas palavras de Cesar Ades, o exame biológico dos comportamentos.

“Numa carta a Asa Gray, Charles Darwin (1809-1882), interessado pela evolução da linguagem, escreve: ‘eu gostaria que alguém pudesse conservar muitos dos macacos mais barulhentos em semi-liberdade, para estudar os seus meios de comunicação!’ (F. Darwin, 1887b, p. 390-391). Esta frase, premonitória dos estudos que hoje se fazem sobre a comunicação vocal e gestual de primatas, inclusive do ponto de vista evolutivo (Demolin et al., 2010; Zuberbühler et al., 2011), coloca bem o caráter programático e instigante do pensamento de Darwin.” (ADES, 2012, p. 180).

No livro As expressões das emoções no homem e nos animais, Darwin (2000) trata minuciosamente dos hábitos nos animais, os chamados hábitos associados úteis, derivando daí a discussão de outros princípios de comportamentos como o de antítese e dos comportamentos nervosos mais dramáticos nos animais (doença, dor, susto e outros) que levam a condutas de cerrar os dentes (dor), perder pelos, urrar bem forte entre outros.

No capítulo VIII da Origem, ele apresentou os comportamentos complexos dos cucos, formigas e abelhas. Os cucos por colocar seus ovos em ninhos de outras aves, as formigas por seus hábitos escravistas com outras espécies de formigas e as abelhas pela construção dos favos da colmeia. Para Darwin essas três espécies apresentam um comportamento funcional, ou seja, comportamentos que são uteis às espécies.

Darwin não definiu instinto; para ele (DARWIN, 1981, p. 230), instinto é um ato desempenhado pela espécie para executar algo vantajoso para a sua existência. Não separa instinto e hábito, pois considera um decorrente do outro, embora nos casos do cuco, formigas e aranhas ele dê primazia aos instintos.

Cesar Ades (2012), comentando esse capítulo de Darwin, reafirma a existência da interação entre instinto e cognição. Em outras palavras, um instinto leva à construção de uma estratégia de inteligência que se constituiu como um hábito, que repetido, é transmitido às gerações posteriores. Estudos mais recentes, entre eles o de Lorenz e aqui eu situo o de Piaget (Comportamento: motor da evolução) demonstram a interação entre instintos e experiência (aprendizagem que favorece a cognição).

Para Darwin, os instintos são “no que se refere ao bem estar de cada espécie, nas suas condições atuais de vida, tão importantes como a simetria física” (ADES, 2012, p.182). As mesmas espécies em regiões diferentes apresentam pequenas modificações dos instintos que lhes são vantajosas, muitas vezes variações complexas como as dos cucos, formigas e abelhas. A condição essencial desta evolução é ser gradual; no mais, pode variar e se tornar complexa em gradações distintas.

Postas essas questões, Darwin descreve as observações feitas por ele e por outros naturalistas, como Pierre Hubner, Cuvier, Fabre, Le Roy, Ramsay, Hudson, dos três animais com instintos complexos. O formulado de Darwin é que os instintos são também selecionados e são constituídos via lógica de custo-benefício ao grupo de animais. Nesse sentido, alguns hábitos são mantidos para beneficio das espécies.

Dito isso, trazemos as espécies discutidas por Darwin no capítulo VIII. São espécies que ele diz terem comportamentos complexos: cucos, formigas e pulgões.

As fêmeas do cuco apresentam uma variabilidade grande na postura de ovos, mas em quase todas as espécies de cuco, as fêmeas põem seus ovos nos ninhos de outras aves. Darwin se refere ao cuco europeu que tem o hábito de parasitar o ninho de aves de outras espécies ao contrário do cuco americano. Os cucos botam ovos em sucessão de dois a três dias. Para Darwin, o ato de botar em um ninho alheio pode ter sido ao acaso e desencadeou – porque foi vantajoso – uma repetição do ato que foi mantido nas gerações posteriores. Já o cuco americano também bota seus ovos em sucessão, porém no próprio ninho. Como afirmou Ades (2012), Darwin imaginou uma teoria plausível de eventos, fazendo analogia com outras espécies como abelhas, vespas e avestruzes.

“O que parece hoje relevante, no caso do cuco e das espécies das quais se aproveita, são as relações de manipulação de uma espécie por outra, que implicam benefício, num caso, e perda de aptidão, no outro. Por que será que a espécie hospedeira tolera o parasitismo? Seria de se esperar que a espécie parasitada desenvolvesse mecanismos mais aptos para rechaçar a outra ou para reconhecer e eliminar os ovos impostos; e que a espécie parasita encontrasse modos mais eficientes de burla, por exemplo, tornar os seus ovos mais parecidos aos da espécie hospedeira. A evolução se daria, assim, por adaptações recíprocas, pelo aperfeiçoamento das estratégias de manipulação e contra-manipulação. A pesquisa agora aborda, em espécies existentes, os aspectos parciais de uma dinâmica que tem a lógica darwiniana do custo e do benefício (Winfree, 1999), e na qual a flexibilidade e a aprendizagem podem manifestar-se, complementando a adaptação (Campobello e Sealy, 2011).” (ADES, 2012, p. 185)

“Faz sentido”, diz Ades (ibid.), “que tudo tenha começado dentro da própria espécie”, e com a repetição, o hábito tornou-se permanente. Essa hipótese incomodava Darwin uma vez que sugere a estratégia da manipulação de uma espécie sobre outra.

A mesma estratégia de parasitismo ou, como Darwin chamou, de “escravagismo” também ocorre em algumas espécies de formigas. No caso descrito por Darwin, trata-se das espécies Formica sanguínea e Formica rufescens. Darwin chama a interação entre a F. sanguínea e F. Rufescens metaforicamente de “odioso escravagismo”. A F. sanguínea depende de suas “escravas” rufescens para sobreviver; as próprias Formigas rufescens chegam a carregar as pupas da formiga sanguínea quando mudam de ninho. Sem ajuda da formiga rufescens, a formiga sanguínea se extinguiria em um ano. A explicação do instinto escravagista traz o modelo de variação e de seleção por vantagem adaptativa.

Quanto às abelhas, Darwin trata da magnífica capacidade de construção dos prismas hexagonais dos alvéolos das colmeias. Aqui a argumentação de Darwin, conforme Ades (2012), é tecida mostrando a estrutura complexa feita pelo coletivo de abelhas como se fosse um conjunto de operários com um plano original de arquitetura. Recorre, também, às comparações entre as espécies e assim, estabelece uma trajetória evolutiva que começou com estruturas irregulares e alcançou a forma de prisma hexagonal das abelhas que produzem mel.

“A parede lisa, na intersecção entre células esféricas, é tomada por Darwin como precursora das células hexagonais. É uma verdadeira façanha de imaginação: a série dos instintos de construção de alvéolos adquire, assim, continuidade geométrica e operacional e se candidata a ser evolutiva. Se as melíponas fizessem iguais as suas células com o mesmo tamanho, sugere Darwin, e se as dispusessem a distâncias iguais umas das outras, em dupla camada, produziriam algo com a perfeição do favo de mel.” (ADES, 2012, p. 187)

Nesse plano, as abelhas melíferas incluem o algoritmo de construção que a) conservam a mesma distância dos outros alvéolos, b) escavam o alvéolo com a mesma velocidade, c) fazem furos esféricos de mesmo diâmetro não deixando que os alvéolos se rompam quando estão sendo unidos (ibid.). Como diz Ades (ibid.), são “pequenos princípios cuja soma gera o favo de maravilhosa regularidade”.

Diante desse espetáculo na construção, Darwin fez uma modificação na trajetória das abelhas que construíam os favos.

“[…] Colocou uma placa de cera entre dois favos e observou que as abelhas, de cada lado, escavavam até o ponto em que haveria risco de perfuração, caso continuassem. Elas, então, passavam a construir paredes lisas, próximo à intersecção. Darwin dispôs, então, no mesmo lugar, uma placa de cera mais fina, colorida de vermelho. As abelhas interromperam a escavação mais cedo do que na observação precedente – como seria previsto se tivessem alguma maneira de avaliar a espessura do material no qual trabalhavam (e a espessura da própria escavação) – e elaboraram, como fundo, uma placa fina de cera colorida que, Darwin suspeita, teria sido feita de maneira conjugada pelas abelhas que estavam em células correspondentes, de cada lado do favo.” (ibid.)

Também colocou cera vermelha para obter como as abelhas faziam a estrutura hexagonal na periferia do favo e observou que estas faziam a borda de modo como se pintassem o favo. Essas construções deram margem a estudos posteriores sobre a auto-organização, ou seja, um processo de padrões que é organizado como num sistema de interações.

“[…] ‘Os padrões ao nível global do sistema emergem apenas a partir das múltiplas interações entre os componentes básicos do sistema (…) as regras que especificam as interações entre os componentes do sistema são executadas usando-se apenas uma informação local, sem referência ao padrão global’ (Camazine et al., 2001, p. 8). A geometria das células emerge da reação dos indivíduos ao seu contexto imediato. Esta reação não se guia a partir de uma representação da estrutura final e nem se pauta por um plano partilhado pelos diferentes atores e em que estariam definidos os papéis diferentes de cada qual, mas se constitui de rotinas comportamentais relativamente simples (manter a distância em relação a outras, escavar um furo arredondado, modificar a construção quando em contato com o fundo da superfície de escavação etc.).” (ibid., p. 188)

Essa base da repetição foi o alicerce para a formação do hábito que manteve a complexa forma dos favos entre abelhas melíferas.

No caso dos afídeos ou pulgões, Darwin rejeita a ideia de altruísmo para o comportamento dos afídeos em dar a secreção açucarada que produzem tirando a seiva das plantas às formigas porque, para ele, não haveria vantagem apenas para uma espécie. Dai que sua explicação é que haveria troca; as formigas em troca da seiva açucarada daria proteção aos predadores dos afídeos. Como diz Ades (ibid., p. 184) parece uma hipótese ingênua, mas em 1963, Way (apud ADES, 2012, p. 184), estudando formigas e afídeos, demonstrou que há maior índice de sobrevivência de colônias de pulgões quando em companhia de formigas. Em 1996, Del-Claro e Oliveira (ibid.), mostraram que pulgões costumam atrair formigas jogando secreção do alto dos galhos de arvores. No entanto,

“A troca nem sempre é justa, pois pode haver manipulação: há formigas que impedem o deslocamento dos afídeos, cortando-lhes as asas ou inibindo seu movimento por meio de substâncias semioquímicas (Oliver et al., 2007). Mas Darwin certamente tinha consciência da possibilidade de manipulação de uma espécie por outra.” (ADES, 2012, p. 184)

Com essas reflexões vemos que a perspectiva de Darwin é a de que o instinto de cada indivíduo de cada espécie nunca é constituído para a vantagem exclusiva de outra espécie. Ades (2012, p. 191) diz que pesquisas de 1964 e 1966 de Hamilton e Willians deslocam “o foco para critérios de sobrevivência individual”, mostram negociação ente indivíduos, mostram que a troca de benefícios subjaz entre as espécies na “trama das interações e dos relacionamentos, e leva à equilibração dos mecanismos”, instintos e hábitos.

Ainda temos muito que pesquisar sobre os instintos nos animais, mas o primeiro e incrível passo já foi dado por Darwin.

Referências:

ADES, Cesar. Cucos, formigas, abelhas e a evolução dos instintos. Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 7, n. 1, p. 179-194, jan.-abr. 2012.

DARWIN, Charles. A origem das espécies. 6.ed. Tradução (pretensa) de Eduardo Fonseca. São Paulo: Hemus, 1981. [EDIÇÃO NÃO RECOMENDADA PELO GRUPO]

___. A expressão das emoções no homem e nos animais. Tradução de Leon Garcia. São Paulo: Cia. das Letras, 2000.

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