Seminários “A ciência tal qual se faz” – a ciência na sociedade moderna

zimanCaricaturaA Francine preparou o seguinte resumo:

O capítulo “A ciência na sociedade moderna”, de John Ziman, tem sabor de (mau) presságio. Constitui uma breve (porém eloquente) descrição da ciência acadêmica – enquanto resultado do trabalho de uma comunidade que possui motivações peculiares para manter-se coesa –, mas é indicial de drásticas transformações nos caminhos desta mesma comunidade.

Seu autor, John Michael Ziman (1925-2005), foi um físico e epistemólogo inglês, dedicado – sobretudo, a partir do final da década de 1960 – a estudar as relações entre ciência e sociedade e reafirmar a responsabilidade social dos cientistas.

O texto foi organizado em onze seções, a saber: “A ciência em mutação numa sociedade em mutação”, “Prescrições filosóficas”, “Receitas sociológicas”, “O ethos científico”, “O ferrão do reconhecimento”, “Novos modos de produção de conhecimento”, “Ciência industrial”, “A ciência aplicada torna-se pós-industrial”, “A produção reticular do conhecimento”, “Alguns custos com os benefícios” e “Incorporando interesses no conhecimento”.

Na primeira seção, Ziman se preocupa em pontuar o paralelismo existente entre ciência e sociedade, denotando, dessa forma, o status mutatório ao qual os dois contextos estão submetidos. Em suas palavras: “A medida que esse mundo muda, a própria ciência é obrigada a remodelar-se radicalmente, para se adequar aos novos ambientes sociais, económicos e políticos” (ZIMAN, 1999, p. 437). Sua questão em relação à ciência, neste momento, é: “Haverá uma essência para ser preservada a todo custo?”. A estimulante indagação do autor é acompanhada de uma proposta: finalizar a coletânea de textos sobre “a ciência tal qual se faz” com um olhar sobre “a ciência tal qual se tem transformado”.

Durante a segunda seção, o autor aquece a discussão em torno da pergunta lançada ao apresentar e (imediatamente) enfraquecer os argumentos comumente evocados para justificar a unidade existente entre pessoas envolvidas (diretamente) no empreendimento científico. Elas estão unidas “pela busca da verdade”? Guiam-se por princípios gerais como a objetividade, a generalidade ou a confiança na observação? Os argumentos de Ziman nos encaminham a outras explicações para a resistência do sentimento de “pertença a uma comunidade” que é compartilhado entre os cientistas que praticam investigação fundamental (ou seja, ciência acadêmica).

Para isso, o autor recorre a uma proposta de Robert Merton (1942), segundo a qual existiriam “normas não escritas” incorporadas ao modus operandi dos cientistas acadêmicos. Ao que parece, Ziman percebe certa coerência em tal proposta, mas não a considera totalmente fiável. Para ele, estas normas pairam sobre a comunidade científica, mas são seguidas de forma intuitiva e descontínua por seus componentes. Tais normas envolvem o “comunalismo” (communalism), a “universalidade” (universalism), o “desinteresse” (disinterestedness) – que demanda “um comportamento compatível com a ‘objetividade’” – , a “originalidade” (originality) e o “ceticismo” (skepticism).

Estas normas não escritas decorrem, naturalmente, do conjunto de crenças (sobre o que é louvável ou impróprio) compartilhadas pelos indivíduos que realizam ciência, enquanto personagens sociais. Contudo, atendê-las não é tão simples; depende da reunião de uma série de fatores circunstanciais favoráveis. Como estes fatores nem sempre se manifestam – nota o autor – “o ideal filosófico de uma ciência unificada é contrariado pelas realidades institucionais e psicológicas”.

Mas na proposta do ethos acadêmico de Merton uma percepção parece ser especialmente plausível do ponto de vista de Ziman. Tomando o acrônimo formado pelas iniciais das “normas não escritas” da ciência acadêmica – CUDOS (mesma pronúncia de “kudos”, do grego “kydos”, glória) – Merton sugere que a busca pelo prestígio (reconhecimento) seria um fator importante para a motivação e unidade do trabalho acadêmico. Ziman parece concordar com entusiasmo.

Não obstante, mudanças endógenas (sofisticação da ciência e tecnologia, encarecimento dos processos, etc.) e exógenas (cobrança por resultados mais rentáveis, cortes financeiros, etc.), levam Ziman a crer que a ciência acadêmica está em declínio, assinalando a gênese de uma “ciência pós-acadêmica” – incógnita sociológica e filosoficamente.

Uma hipótese forte, segundo o autor, é que a crise iminente possa aproximar a ciência acadêmica da ciência industrial. Aproximação, por sinal, prática, já que, relativamente às suas formas de existência, jamais estiveram completamente apartadas: a ciência acadêmica nunca foi totalmente “pura” e a ciência industrial nunca foi totalmente aplicada.

Cabe demarcar, entretanto, que na ciência industrial o “CUDOS” dá lugar ao “PLACE” (lugar) – que é outro acrônimo formado pelas normas caras à esta comunidade. Place é uma palavra oportuna para condensar a ideia de meta no referido contexto porque o cientista industrial não está focado em “reconhecimento” (pelo menos, não como prioridade), mas em uma “posição” bem remunerada na hierarquia da qual é uma peça móvel.

Fato é que o mesmo movimento de aproximação é sinalizado pela ciência industrial, que vive tempos de metamorfose para uma “ciência pós-industrial”. Nas palavras de Ziman, portanto, “as condições económicas conduzem as duas culturas ao mesmo molde de organização” (ZIMAN, 1999, p. 446).

Ziman não demonstra pessimismo quanto às mudanças que supõe baterem à porta. Pelo contrário, acredita que o pluralismo e a multidisciplinaridade possam resultar dos desdobramentos anunciados. O autor não perde de vista, entretanto, que a influência comercial na ciência pós-acadêmica possa se dar às custas do princípio do “conhecimento público” e da liberdade para perseguir projetos “bizarros” (que são tão importantes para a produção de revoluções no pensamento científico). Além disso, a ciência pós-acadêmica (nos moldes da ciência industrial e pós-industrial), será mais claramente dependente do dinheiro. Nas palavras de Ziman: “Mais do que nunca, as questões fundamentais acerca da ciência na sociedade moderna parecem ser: quem é que paga as flautas, e que canções é que lhes pede que toquem?” (ZIMAN, 1999, p. 449). (Assustador!).

Os parágrafos do capítulo que sucedem esta frase, e que também são seus últimos parágrafos, revelam um Ziman um tanto mais melancólico. Ele lembra que o “desinteresse” é norma não-escrita em plena asfixia, e que sua companheira, a “pretensão de objetividade” (sempre à espreita, nunca totalmente realizada) lhe acompanhará ao coma. Sua última questão é: o que acontecerá se as pessoas, em tempos difíceis, perderem a confiança na imparcialidade e sabedoria da ciência? Contrariando a preocupação de Ziman, pode-se refletir: entre todas consequências compulsórias à ciência pós-acadêmica, talvez esta seja a única desejável.

ZIMAN, John. A ciência na sociedade moderna. In: GIL, Fernando (Coord.). A ciência tal qual se faz. Lisboa: Edições João Sá da Costa, 1999. (Coleção Humanismo e Ciência).

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