Origem das espécies – capítulo 7

origin1

O capítulo VII da Origem, “Objeções diversas à teoria da seleção natural” (p. 168-204), só aparece na sexta edição, publicada por Darwin em 1872, com uma reedição corrigida em 1876, considerada a definitiva. Portanto, quem estiver acompanhando alguma tradução brasileira da primeira edição (só temos traduções da primeira e da sexta edições) não encontrará este capítulo. Até a quinta edição, constava como capítulo VII o capítulo que veremos em breve, que é o oitavo da sexta edição: “Instinto”.

Este capítulo é uma continuação do anterior, “Dificuldades da teoria”, que já vimos aqui. Ao contrário do outro, que foi publicado na primeira edição e era um tipo de autocrítica, tendo em vista que ninguém ainda havia lido o livro, neste, depois de 13 anos da primeira edição (17, se considerarmos a edição definitiva), Darwin responde a alguns críticos, sobretudo ao anatomista St George Jackson Mivart (1827-1900), legando para a posteridade um pouco sobre a recepção da sua teoria no seu próprio tempo.

O argumento começa pela questão da longevidade, que a crítica diz que seria uma grande vantagem seletiva, mas que não ocorre. Darwin diz que ela ocorre, sim, por meio da prole, ou seja, as vantagens decorrentes da seleção natural é que são longevas, sobrevivendo aos indivíduos por meio de suas sementes e ovos (p. 168-9). Ainda nessa parte inicial, Darwin afirma com todas as letras que a seleção natural não é lei inata e necessária: “O fato de que desde o período glacial se tenha produzido pouca ou nenhuma modificação teria sido de alguma utilidade contra os que acreditam em uma lei inata e necessária de desenvolvimento, mas não tem força alguma contra a doutrina da seleção natural ou da sobrevivência dos mais aptos, que implica que, quando aparecem variações ou diferenças individuais de natureza útil, estas serão preservadas; mas isso se efetuará só em certas circunstâncias favoráveis.” (p. 169).

Na sequência, e respondendo ao naturalista e primeiro tradutor da Origem em alemão, Georg Heinrich Bronn (1800-1862), vemos que as modificações não são necessariamente simultâneas. A transmissão é conjunta, mas as modificações não precisam ser, o que fica ainda mais claro na seleção artificial (p. 170).

Um ponto importante neste capítulo é que, além de rejeitar a já mencionada ideia de inatismo, Darwin explicita a sua rejeição às noções de progresso e perfeição, que costumam acompanhar o conceito de evolução. E isso é tratado quando ele retoma uma questão que já aparece no capítulo anterior, a questão das modificações aparentemente inúteis. Novamente vemos uma problematização do próprio conceito de utilidade, já que o que é útil hoje pode não ter sido ontem e vice-versa. Ademais, Darwin lembra as leis de crescimento, que correlacionam a mudança em um órgão à mudança em outros. Para finalizar essa crítica, “temos que considerar a ação direta e definida da mudança de condições de vida e as chamadas variações espontâneas” (p. 171), às quais Darwin reconhece que havia dado pouca importância nas edições anteriores.

Depois de uma série de exemplos, fica claro que certas variações até podem parecer independentes da seleção natural (leis de crescimento), mas também nada têm a ver com progresso ou tendência inata para a perfeição. Ademais, pode-se dizer que “as características de pouca importância vital para a espécie são as mais importantes para o sistemático”, já que são as mais constantes (p. 176).

Para dar conta das críticas de Mivart sobre a suposta incapacidade da seleção natural para explicar estados incipientes de estruturas úteis, Darwin, lembrando a coautoria de Wallace e trazendo o famoso exemplo da girafa (p. 176), diz que a prole herda a variação ou a tendência a variar da mesma maneira, e que, ao longo de muito tempo, a seleção natural conserva os “superiores” e destrói os “inferiores” (p. 178). Este é um exemplo de termo usado por Darwin (superior/inferior) que facilmente leva a mal-entendidos, indo de encontro inclusive com o que ele falou antes sobre inatismo, perfeição e progresso. Não será melhor pensar em “adaptados” e “não adaptados”?

Uma boa resposta que Darwin formula às críticas sobre as condições que determinam o número de indivíduos e a distribuição geográfica de uma espécie é quando compara com a história: “Não se pode responder exatamente por que em outras partes do mundo vários animais não adquiriram um pescoço alongado ou uma tromba diferentes […]; esperar uma resposta precisa a essa pergunta é tão pouco razoável quanto querer saber por que, na história da humanidade, um acontecimento não se produziu num país, mas sim em outro.” Portanto, assim como na história, é difícil determinar as causas que se opõem à aquisição de estruturas úteis por seleção natural. No máximo, identificam-se causas gerais, como “certo tempo/espaço deve ter sido mais favorável”, ação dos predadores, etc. A seleção natural é um processo lento, então as condições favoráveis têm que resistir (p. 179).

Depois de mais uma série de exemplos em que se mostram as gradações de estruturas com mudança de função, às vezes até variações aparentemente prejudiciais, vemos que à seleção natural agregam-se dois outros fatores fundamentais, o uso/desuso e o hábito (p. 187-8). Além disso, Darwin ainda mostra que órgãos muito diferentes em membros da mesma classe desenvolvem-se a partir de uma só e mesma origem (p. 194).

A parte final do capítulo mostra as razões para não se acreditar em modificações grandes e súbitas: 1) variações não são simultâneas, e teriam que ser caso aparecessem subitamente; 2) proximidade entre espécies; 3) partes variam mais e, se isso não fosse gradual, elas já apareceriam adaptadas com outras partes e o ambiente; 4) imperfeição do registro geológico; e 5) semelhança embriológica (memória da espécie), e se as mudanças fossem bruscas, elas deveria estar registradas embriologicamente, e não estão (p. 201-4).

Chamaram a atenção a expressão “em oposição com toda a analogia”, que apareceu pelo menos duas vezes nessa última parte (p. 202, 204), e a aparição do termo “evolução” e derivados em algumas passagens no fim desse capítulo (p., 201, 202). Ou seja, ao contrário do que imaginávamos, Darwin usou, sim, o termo evolução. Vale agora dar uma varrida geral para ver se o termo aparece em outros momentos que possam ter passado desapercebidos.

DARWIN, Charles. The origin of species, 6a. ed. Londres: John Murray ed., 1876. Disponível em:<http://darwin-online.org.uk/).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s