Seminários “A ciência tal qual se faz” – a comunidade científica em tempos de disputa

Antes de entrar no texto que foi objeto do nosso último seminário, vale a pena conferir os dois vídeos que achei do Harry Collins no Youtube. O primeiro é uma entrevista de 2010, e o segundo, uma palestra em 2009:

No capítulo de Collins, “A comunidade científica em tempos de disputa”, do livro A ciência tal qual se faz, encontramos uma boa justificativa para essa atividade metacientífica que temos chamado de science studies: “a compreensão pública da ciência deve incidir nos processos científicos e não na substância científica” (p. 61). Ou seja, para equilibrar a relação entre ciência e sociedade, não precisamos de mais educação científica, e sim entender melhor “a natureza do saber dos peritos” (p. 62). Os science studies têm feito isso, servindo de ponte entre ciência e sociedade, ainda que às vezes a balança tenda mais para um ou outro lado.

Para além da questão conteúdo/processo que nos interessa diretamente, o ponto-chave do argumento do Collins, e que foi um dos objetos da palestra do vídeo acima (Politics, expertise and the two cultures), é o saber dos peritos, ou especialistas, como falamos aqui no Brasil (importante lembrar que a edição é portuguesa, e que as citações são dali retiradas). Para ele, “a visão tradicional do conhecimento científico deverá ser substituída pela ideia do saber específico dos peritos (expertise)” (p. 53).

A visão tradicional a ser desmobilizada é a de ciência perfeita, sem controvérsias, neutra, apolítica, lugar da verdade absoluta. Para isso, ele apresenta uma imagem da ciência baseada na controvérsia, mostrando também o que acontece quando ela acaba tanto dentro quanto fora do laboratório (p. 54-62). Para Collins, a uma situação de insegurança (controvérsia teórica ou experimental) se segue uma solução produzida por um “campeão do encerramento”, que basicamente ganha no grito por conta de sua reputação científica. Na sequência, há o que ele chama de “mitose”, que separa o campo em dois grupos, o hegemônico, que adere à posição consensual, e o “patológico”, que agrega uma minoria que não foi convencida. No entanto, diz Collins: “Não há nada na lógica ou na ciência que impeça o partido ‘derrotado’ de pretender que todos os outros fizeram as suas experiências descuidadamente […]; o encerramento deu-se porque um conjunto de argumentos e resultados se tornou mais convincente do que o outro”, nada tendo a ver, portanto, com a ideia de verdade associada ao saber tradicional. Esta é a ciência como se faz no reino dos especialistas (p. 57-8).

Talvez o mais incômodo nessa análise seja a denominação adotada de “fatia patológica” ou “sub-cultura científica” (p. 60-1), na qual se encontram os cientistas, financiadores e todas as pessoas que não se alinham com a visão que ganhou a controvérsia e se tornou hegemônica.

Para finalizar seu argumento, Collins reafirma a natureza controversa da ciência para mostrar o seu caráter político, e compara com a economia: “As pessoas não reclamam maior educação económica para garantir que os votantes se encontram convenientemente informados sobre o que está em jogo.” (p. 62). Para ele, esse mesmo tipo de saber político específico usado nas tomadas de decisões econômicas deveria ser usado nas tomadas de decisões tecnocientíficas. Como fazer isso? Compreendendo “não o conteúdo mas a natureza do saber específico – o processo através do qual o conhecimento científico e tecnológico é gerado” (ibid.), o que implica perceber que se trata de posição consensual, e não de verdade absoluta.

Apesar de essa imagem de ciência potencialmente dar voz a quem não tinha,  é o especialista que vai representar os sem voz, já que, “sem ele os críticos não teriam oportunidade de abrir o debate técnico” (p. 63). O que, evidentemente, não significa que o especialista seja infalível ou que a incerteza seja sinônimo de caos. Para Collins, trata-se sempre de uma aposta, mas “compreender a natureza do saber específico coloca-nos na posição de adoptarmos as decisões político-tecnológicas mais razoáveis que podemos.” (p. 64).

COLLINS, H. M. A comunidade científica em tempos de disputa. In: GIL, Fernando (Org.). A ciência tal qual se faz. Tradução de Paulo Tunhas. Lisboa: Edições João Sá da Costa, 1999.

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