Ciência em ação IV

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No capítulo 4, “Quando os de dentro saem”, Latour mostra que a usual distinção dentro/fora não serve para pensar a ciência. Para fazer a sua antropologia simétrica há que se perceber que a tecnociência inclui vários atores além de cientistas e engenheiros em laboratórios, e que mesmo esses costumam sair a fim de estender a rede científica, mobilizando aliados e recursos, e servindo como porta-vozes. Nesse sentido, é necessário estudar os dois lados ao mesmo tempo.

Carol e Carlos prepararam o seguinte resumo do capítulo:

Nos capítulos anteriores, embora assentado em exemplos reais, o exame da ciência em ação, ou seja, do processo de constituição e fechamento de “caixas-pretas”, foi empreendido sob a ótica de personagens fictícios que entravam em uma disputa retórica sobre os fatos científicos e o poder de convencimento desses fatos. Agora, neste capítulo, Latour torna o exame da ciência em ação ainda mais concreto e detalhado, tentando mostrar não apenas o processo de constituição de fatos, mas as implicações disso para a delimitação do próprio campo científico. Em poucas palavras, Latour avança na direção do problema da relação internalismo-externalismo, tentando responder a questão: quem são os responsáveis pela ciência?

Parte A – Despertar o interesse dos outros pelos laboratórios

(1) Quando todos passam muito bem sem cientistas e engenheiros

Esta é uma parte fundamental para compreendermos como Latour tenta encaminhar a questão internalismo-externalismo na tecnociência. Para discutir essa questão, ele adota uma estratégia dupla. Em primeiro lugar, analisa dois exemplos nos quais um cientista e um engenheiro tentam constituir um novo campo de conhecimento e de uma inovação tecnológica, respectivamente. Em segundo lugar, analisa um exemplo fictício, de um diário de campo em que se registra a atividade de um cientista renomado no decorrer de uma semana.

(A) Quando ser cientista ainda não é profissão

O primeiro exemplo é de constituição de um novo campo de conhecimento. Trata-se dos esforços de Charles Lyell para instituir a geologia como ciência no século XIX. A relevância deste caso está na explicitação da grande resistência que um novo campo de investigação sofre. No caso da geologia, esse cenário inóspito é representado pela religião (que difunde ensinamentos incompatíveis com a cientificidade da geologia), por amadores interessados em teorias sobre a Terra (que coletam por conta própria rochas e fósseis, sem um compromisso integral com a área), pela falta de recursos (uma vez que não existe uma cátedra na universidade, e tampouco interesse de fidalgos para financiar pesquisas da área) e pelo senso comum (que dificilmente aceitaria a idade da Terra exigida para compreender uma teoria geológica moderna).

Para instituir a geologia é preciso vencer todas essas resistências. Em outras palavras, para que Lyell possa fazer geologia, ele precisará fazer muita política. Com isso, Latour começa a esboçar a necessidade de olharmos “para fora” para compreender o que acontece “dentro” dos laboratórios. Sem lograr aliados “externos” a geologia como ciência simplesmente não poderá existir. Enfim, é preciso sair do laboratório para garantir a própria existência do laboratório.

(B) Um ponto de passagem não obrigatório

O segundo exemplo mostra o que acontece quando a articulação dos “de fora” fracassa. Trata-se do exemplo de dois engenheiros brasileiros que tentam produzir um chip de computador, que permitisse a futura fabricação de computadores integralmente brasileiros. O desfecho da história é antagônico ao de Lyell. Embora os engenheiros consigam um financiamento inicial do governo brasileiro, que permitiu a produção de um protótipo do chip, rapidamente ele é superado por produtos importados, bem mais baratos e eficientes. O fracasso pode ser explicado pela incapacidade de vencer as resistências impostas ao projeto, que, tal como no caso de Lyell, encontram-se em diferentes lugares. Ao final, o projeto de chips nacionais não teve qualquer visibilidade, ficando praticamente no papel. Com isso, o governo e outras possíveis fontes de recursos, como empresas, universidades e laboratórios de informática internacionais, sequer tomaram conhecimento da existência do projeto.

(2) Tornando indispensáveis os laboratórios

Partindo dos exemplos anteriores, é possível notar a íntima relação que há entre os que estão “dentro” e os que estão “fora” do laboratório. O exemplo de Lyell mostra o alcance da resistência “externa” que precisa ser vencida para se instituir um campo científico novo. O exemplo dos engenheiros brasileiros mostra o que acontece quando esse trabalho de recrutamento externo não é bem-sucedido: o engenheiro se isola cada vez mais até que só ele conhece e tem interesse por seu projeto. Um terceiro exemplo torna esse cenário ainda mais claro. Nesse caso, Latour descreve as atividades de um cientista de renome por uma semana. O que ele está fazendo nesse período? Viajando ao redor do mundo, fazendo reuniões com diferentes setores da sociedade, ministrando palestras, conversando com políticos importantes, dando entrevistas… Por outro lado, o que faz outra cientista que ficou a semana toda no laboratório coordenado pelo primeiro cientista? Executa experimentos, disseca animais, analisa substâncias, sistematiza resultados, elabora tabelas e gráficos… A pergunta crucial do capítulo surge da comparação da rotina desses dois cientistas. Quem está fazendo ciência?

Aqui fica clara a crítica de Latour sobre a forma internalista de interpretar a ciência. O internalista diria que apenas a cientista que ficou no laboratório está realmente fazendo ciência e que o seu chefe está fazendo política. A resposta de Latour é que não há como dissociar o “dentro” do “fora” do laboratório. Em outras palavras, para haver laboratório, para que ele possa funcionar, para que possa existir um “dentro” é fundamental que haja alguém que faça o trabalho de “fora”. Na verdade, quanto mais bem articulado é o “fora”, mais o “dentro” funciona sem preocupações externas.

(3) Do que é feita a tecnociência

(A) “Afinal, quem está realmente fazendo ciência?”

Para responder a essa questão, Latour tenta mostrar que para instituir um novo campo científico, um novo equipamento ou instrumento é preciso acima de tudo alinhar os interesses entre os de “dentro” e os de “fora”. Em outras palavras, o sucesso nesse empreendimento consiste em articular interesses, que, em um primeiro momento, são bastante díspares. Trata-se, pois, de fazer com que os objetivos dos de “dentro” coincidam, em alguma medida, com os de “fora”.

Considerando essa necessidade de compartilhamento de objetivos (ou de alinhamento de interesses) para o fazer ciência, a delimitação de quem são os agentes da tecnociência torna-se mais difícil. Por mais hermético que possa parecer, o fazer ciência no laboratório só existe porque o que está sendo produzido de alguma maneira é de interesse de quem está fora do laboratório. Isso quer dizer que paradoxalmente os cientistas só conseguem independência em seu trabalho se forem dependentes de muita gente que financie e aprove seu trabalho.

Essa interdependência entre os de “dentro” e os de “fora” torna a pergunta “quem realmente está fazendo ciência?” de difícil resposta. Analisando os exemplos anteriores, Latour rejeita a tese estritamente internalista que responderia que apenas os cientistas e engenheiros especializados são os responsáveis pela tecnociência. Mas, então, quem mais deve ser considerado? Estaria Latour caminhando na direção oposta e defendendo um externalismo? Não. O que ele pretende é desconstruir a lógica internalismo-externalismo, mostrando que para haver um “dentro” especializado é preciso de muita gente “fora” apoiando. Mas quem são esses agentes de “fora”?

(B) Todo mundo é levado a dar uma mãozinha

Assim, a lógica interno-externo não pode ser aceita porque ela parte de uma barreira intransponível e imutável entre o trabalho de dentro do laboratório e o de fora. Essa barreira é completamente permeável e contingente. Isso quer dizer que nunca será possível separar de maneira definitiva e inquestionável quem está dentro e fora do laboratório considerando o primeiro cientista e o segundo não. Quem faz ciência é essa rede de relações que envolve diferentes personagens igualmente importantes para a manutenção das atividades que consideramos científicas.

Parte B – Contando aliados e recursos

Nesta seção do capítulo 4, Latour recorre não mais a estudos de casos, mas a dados estatísticos para desconstruir a tese difusionista de que a ciência é realizada por um seleto grupo de cientistas com “poderes demiúrgicos” e, ao mesmo tempo, mostra quais são os personagens que fazem tecnociência, bem como o papel deles nessa tarefa.

  • Contando com cientistas e engenheiros

Quem são as pessoas que fazem ciência? Tradicionalmente, a resposta a essa questão traz à tona a imagem de poucos cientistas famosos, autores de grandiosas e revolucionárias ideias, que habitam laboratórios repletos de parafernálias tecnológicas, cujas descobertas geraram produtos que mudaram a vida das pessoas em pequena e grande escala. Em poucas palavras, quem faz ciência são as pessoas que dão origem às “caixas-pretas”. Latour fragiliza essa tese com estatísticas. Pautando-se em dados dos países mais ricos e industrializados, ele mostra, por exemplo, que, nos Estados Unidos, de 250 milhões de pessoas, apenas 3,3 milhões dizem-se cientistas e engenheiros; estreitando ainda mais os números, apenas 900 mil consideram que trabalham diretamente com pesquisa e desenvolvimento. Se forem considerados apenas cientistas e engenheiros doutores, ainda nos EUA, esse número cairia para 120 mil. Caso fôssemos restringir o número àquelas pessoas que mais se aproximam da figura do cientista, os acadêmicos, um grupo ainda mais seleto, em torno de 50 mil, seria composto. Com isso, a tese de que apenas algumas poucas cabeças pensantes teriam condições de controlar outras 250 milhões fica cada vez mais difícil de ser sustentada. A proporção de “cabeças pensantes” para o “restante” poderia ser ainda maior se forem considerados outros agravantes, como, por exemplo, a estratificação da ciência, que retrata a desigualdade de poder mesmo no ínfimo e distinto grupo de cientistas – apenas uma pequena ilha de cientistas tem o poder de tomar as decisões cruciais na ciência (encerram controvérsias, alistam pessoal, sancionam descobertas etc.). Tal estratificação se verifica também no interior de um mesmo país e, de modo mais evidente, entre países desenvolvidos. Com efeito, esses dados colocam em xeque a tese de que a ciência é feita apenas pelos que estão “dentro” do laboratório: é necessário um número muito maior de pessoas trabalhando “fora”, executando as mais variadas atividades, que vão desde o gerenciamento, a negociação, o ensino, a regulamentação, até à venda, aos reparos e à propagação do que seja pesquisa científica.

  • Não contando apenas com cientistas e engenheiros

Quem são as pessoas que fazem ciência? Novamente amparado em dados estatísticos, Latour amplia a resposta a essa pergunta dando destaque para aqueles que financiam a tecnociência. Nessa direção, vale perguntar: quem alista os cientistas? E ainda: de quem os cientistas conseguem despertar o interesse para o seu trabalho? Tradicionalmente, o cientista é aquele que faz pesquisa básica. Mas as estatísticas revelam que muito pouco do dinheiro é destinado a esse tipo de pesquisa. Boa parte vai para o desenvolvimento. Além disso, pesquisa e desenvolvimento (P&D) é uma atividade industrial. Nesse sentido, para que a tecnociência tenha visibilidade é necessário que seus interesses estejam afinados com os da indústria e essa, por seu turno, com os interesses do Estado. Em suma, quem paga por P&D é a indústria e o governo federal. Mas qual atividade subsidia o dinheiro dos contribuintes para a indústria e para as universidades? Latour mostra que o dinheiro vem em maior quantidade do orçamento da defesa e, depois, e em menor quantidade, do orçamento da saúde. Há uma relação de dependência recíproca entre cientistas, engenheiros e exército; nenhum “vence” sem o outro. Tal relação, ainda que em menor proporção, também se estende ao sistema de saúde: a sobrevivência do organismo físico, à semelhança da sobrevivência do organismo político, é assunto de interesse geral. Com efeito, sem os orçamentos da defesa e da saúde, fonte da qual cientistas e engenheiros drenam o dinheiro, a tecnociência não se sustentaria. Vale mencionar ainda, que a tecnociência ganha visibilidade ao fortalecer laços com a defesa e a saúde não só pela questão financeira, mas também pelo fato de todos terem objetivos comuns: mobilização e alinhamento de pessoas, uso de recursos para discipliná-las, mantendo-as sob controle e afinadas aos seus interesses. Tudo isso contribui para que uma grande rede de sustentação recíproca seja formada e fortalecida.

  • Quinta regra metodológica

Os aspectos supracitados ajudam a compor um quadro paradoxal: ou o cientista alista, controlando milhares de pessoas com seus poderes demiúrgicos, ou é alistado pela indústria, afinada com os interesses militares. Latour procura uma alternativa a essa aparente contradição, uma vez que ela parece reiterar a dicotomia internalismo versus externalismo. Primeiramente mostra que os poucos oficialmente denominados cientistas e engenheiros só podem ter projeção se o terreno já tiver sido preparado por “outras pessoas”. Nesse caso, para entender como a tecnociência funciona é preciso sempre considerar um número muito maior de pessoas do que aquelas que estão trabalhando nos laboratórios, executando atividades comumente designadas científicas. Por outro lado, mesmo que cientistas e engenheiros só consigam realizar suas atividades por conta do trabalho dos de “fora”, são apenas a esses poucos cientistas e engenheiros que é atribuída a responsabilidade por determinar crenças e comportamentos de outras pessoas. Se os cientistas precisam dos de “fora”, boa parte do sucesso do governo e da indústria também depende dos de “dentro”. Isso lança luz sobre o fato de os cientistas e engenheiros ora serem vistos como dotados de poderes demiúrgicos ora como subalternos, incapazes de influenciar o trabalho de qualquer pessoa.

Com base nessas considerações, Latour esclarece o uso das expressões “ciência e tecnologia” e “tecnociência”. Para ele, “ciência e tecnologia” sem um exame acurado dos julgamentos de responsabilidade, é uma ilusão de óptica, já que sugere que a ciência é feita apenas por um grupo ínfimo e seleto de cientistas e engenheiros, excluindo o trabalho dos de “fora”; reforça-se aqui a cisão entre ciência e sociedade. Doravante, Latour usará tecnociência para designar a atividade científica como um trabalho conjunto dos de “dentro” e dos de “fora”, dando relevo para a ação de recrutar e ser recrutado; e “ciência e tecnologia”, entre aspas, “para designar o que ficou da tecnociência depois de resolvidos todos os julgamentos de responsabilidade” (Latour, 2000, p. 286, grifos do autor). Todo esse movimento é feito com o intuito de pensar a atividade científica passando ao largo da dicotomia internalismo versus externalismo, segundo a qual a ciência ou é uma questão de objetos de estudo, equipamentos, métodos, realizada por poucas cabeças pensantes ou, em outro extremo, uma atividade regulada estritamente por interesses de banqueiros, empresários, consumidores etc. A ideia é perseguir a atividade de todos os atores da tecnociência e, ao fazer isso, os contornos entre o que é interno e externo vão ficando cada vez mais imprecisos. Em suma, a quinta regra metodológica é: “devemos ser tão indefinidos quanto os vários atores que seguimos, no que se refere àquilo de que é feita a tecnociência; para isso, sempre que for erigida uma divisão interior/exterior, devemos acompanhar os dois lados simultaneamente, criando uma lista – pouco importa se longa e heterogênea – de todos aqueles que realizam o trabalho” (Latour, 2000, p. 289).

Referência:

LATOUR, B. Quando os de dentro saem. In:_____. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. Tradução de Ivone C. Benedetti. São Paulo: Editora UNESP. cap. 4, p. 239-289.

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