Ciência em ação III

Bruno_Latour

Texto da Francine sobre o terceiro capítulo:

A Parte II de “Ciência em ação” – intitulada como “Dos pontos fracos aos fortes” – está dividida entre os Capítulos 3 e 4, sendo estes compostos, respectivamente, por quatro e duas seções.

O capítulo 3 – “Máquinas” – é introduzido por uma rememoração das conquistas logradas pelos capítulos anteriores e por uma avaliação da natureza das “caixas pretas”.

Segundo Latour, agora estamos cientes dos passos a seguir, desde a controvérsia a um determinado “enunciado científico”, até o exercício (inquiridor) de acompanhar as práticas do cientista no laboratório (sempre respaldados pelo conhecimento de que o que nos será apresentado dentro dele é de natureza ambígua).

Ocorre que, apesar de bem providos para o papel de contendores, ainda não sabemos como criar uma “caixa preta”. E este intento é ainda mais difícil de realizar que o primeiro, visto que ele demanda que alistemos outras pessoas à nossa causa.

As Partes A, B e C, do capítulo 3, constituem um manual de estratégias – no estilo maquiaveliano – no qual somos instruídos sobre como controlar o comportamento alheio no percurso de construção de um “fato”.

Inicialmente (Parte A) Latour propõe uma sequência de cinco movimentos (translações), que se deve aplicar sobre indivíduos que possuam recursos necessários a nossa causa (dinheiro, credibilidade, conhecimentos, contatos, causas conciliáveis, etc.), de acordo com a circunstância e conveniência. Cada uma das cinco translações é intitulada com uma frase sugestiva que a caracteriza: 1. Eu quero o que você quer; 2. Eu quero, porque você não quer?; 3. Se você desviasse um pouquinho…; 4. Remanejando interesses e objetivos; 5. Tornar-se indispensável.

Todas as translações propostas são acompanhadas de exemplos históricos, retirados de tentativas bem e mal sucedidas de se estabelecer uma “caixa preta” na seara dos artefatos (máquinas). Estão entre os nomes recordados: Diesel, Pasteur e George Eastman.

É interessante perceber que, para Latour, o percurso de desenvolvimento de máquinas é análogo ao da “criação de fatos” (que geralmente denomina-se como “invenção” ou “descoberta”). Ou seja, os “fatos” podem se tornar tão reais quanto as máquinas, mas nenhum dos dois existe a priori.

Na sequência (Parte B) Latour nos ensina como tornar previsível o comportamento das pessoas alistadas à nossa causa. Isto é fundamental para quem deseja ser o autor de uma “caixa preta”, pois o apoio dos alistados pode ser menos estável do que nosso projeto necessita. Além disso, deve-se considerar que a própria tentativa de criar recursos que supram os problemas do artefato original pode desencadear a demanda de novos aliados.

Sendo assim, nas palavras do autor, “alguma coisa mais é necessária para que a justaposição de interesses deixe de ser temporária e passe a ser duradoura” (p. 202).

As recomendações de Latour ao criador de fatos são precisas: É necessário tornar-se indispensável. Deve-se transcender os limites que distinguem os seres humanos e as “coisas” (pois estas também são aliadas importantes). E é preciso estabelecer novos vínculos, por exemplo, entre objetos e/ou indivíduos mutuamente irrelevantes.

Ao final da parte B, Latour esclarece que a instabilidade dos aliados (humanos e não humanos), a exposição aos discordantes e a necessidade de aderência de uma grande comunidade à “caixa preta” em construção demanda engenhosidade (maquinação) do “criador de fatos”.

Este recurso retórico nos remete à reflexão sobre o título do capítulo. Afinal, sem perder sua essência, ele poderia se referir tanto a “máquinas” quanto a “teorias”.

3 Respostas

  1. Professora, no que diz respeito às máquinas, acredito que Latour esteja não apenas discutindo a descoberta, mas trabalhando um conceito caro a deleuze. Lembramos-nos que heidegger havia colocado o problema da técnica no ocidente e Latour parece ir em sentido contrário apostando na filia deleuziana de o anti edipo. Não sei se me fiz clara…

    1. Cara Mama,
      Não tenho leitura suficiente de Deleuze para dar conta disso. Mas obrigada pela participação, seu comentário fica aqui registrado.
      Saudações,
      Cristina

  2. Gostei muito.

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