Origem das espécies – capítulo 3

origemLello

Edição portuguesa da Origem publicada no Porto pela Lello e Irmão Editores, sem data. Tradução feita do francês por Joaquim Dá Mesquita Paul em 1913.

O terceiro capítulo trata da “luta pela sobrevivência” ou, como no original (Darwin, 1859, p. 60; Darwin, 1876, p. 48) e em algumas traduções (Darwin, 2009, p. 63; Darwin, 2002, p. 79), “luta pela existência”. Inicialmente, Darwin traça a relação entre esse conceito e a seleção natural. Para além das variações individuais, que são indiscutíveis, as variedades de espécies originam-se da luta pela existência. Nos seus termos:

“Devido a essa luta, as variações, por menores que sejam e qualquer que seja a causa de que procedam, se são em algum grau proveitosas aos indivíduos e uma espécie em suas relações infinitamente complexas com outros seres orgânicos e com suas condições físicas de vida, tenderão à conservação destes indivíduos e serão, geralmente, herdadas pela descendência.” (Darwin, 2009, p. 64)

Para fortalecer a sua definição do princípio da seleção natural (e para nossa surpresa!), diferentemente da primeira edição (1859), na sexta (1876) ele menciona Herbert Spencer (um dos pais do darwinismo social, de quem sabemos, por meio de vários comentadores, que Darwin se afastou teoricamente ainda em vida, mas fica aqui o assombro registrado para futuras investigações):

“Este princípio, pelo qual toda ligeira variação, se é útil, conserva-se, denominei-o com a expressão seleção natural, a fim de observar sua relação com a faculdade de seleção do homem; mas a expressão frequentemente usada por Herbert Spencer da sobrevivência dos mais adequados [ou aptos, segundo outras traduções para o termo fittest] é mais exata e é algumas vezes igualmente conveniente.” (Darwin, 2009, p. 64)

Trata-se, pois, de uma “luta universal pela vida” (ibid., p. 65), de uma concorrência de vida e morte entre todos os seres orgânicos, que equilibra a natureza como um todo com base nos “fatos de distribuição, raridade, abundância, extinção e variação” (ibid.). Darwin mostra que usa o termo “num sentido amplo e metafórico” (ibid., p. 65-66).

A luta pela existência se dá em três níveis: dentro da mesma espécie, entre espécies diferentes e com a natureza. É aí que começamos a ver a relação de dependência entre todos os seres. Na sequência, ele apresenta a doutrina de Malthus sobre o crescimento populacional em progressão geométrica, aplicando-a agora a todos os seres vivos, para mostrar como a natureza trata de se equilibrar:

“Podemos afirmar com confiança que todas as plantas e animais tendem a aumentar em progressão geométrica, que todos povoariam com rapidez qualquer lugar no qual possam existir de algum modo, e que essa tendência geométrica ao aumento é contrabalançada pela destruição em algum período da vida.” (ibid., p. 67)

A “destruição em algum período da vida” é representada por alguns obstáculos a esse aumento desenfreado. São eles: morte prematura, concorrência pelo mesmo espaço, predação, clima (sobretudo ação indireta), epidemias e cruzamentos próximos (ibid., p. 68-71). Ademais, há ligações complexas entre os seres vivos na luta pela existência, e é disso que ele trata em seguida , como no exemplo das flores que alimentam insetos que alimentam ratos que alimentam gatos:

“[..] é completamente verossímil que a presença de um felino muito abundante numa área possa determinar, mediante a intervenção, primeiro dos ratos e depois dos himenópteros, a seqüência de certas flores naquela região.” (ibid., p. 73)

Ou seja, há espécies que são obstáculos para outras, e isso não é obra do acaso, mas sim uma guerra de séculos. Além disso, a luta dentro da mesma espécie, por exemplo, pelo mesmo espaço, pela mesma comida ou pelos mesmos perigos, também se mostra como um obstáculo ao aumento populacional, inclusive em estado doméstico (ibid., p. 74). Essa luta intraespécie é deveras rigorosa, e serão bem-sucedidos aqueles indivíduos que apresentarem alguma vantagem nessa luta, ainda que nos seja difícil dizer exatamente qual. Nos termos de Darwin ao final do capítulo (ibid., p. 76):

“É conveniente tentar dar deste modo, com a imaginação, a uma espécie qualquer, uma vantagem sobre outra. É provável que nem num só caso saberíamos como fazê-lo. Isto deveria convencer-nos de nossa ignorância a respeito das relações mútuas de todos os seres orgânicos, convicção tão necessária como difícil de adquirir. Tudo o que podemos fazer é ter sempre presente que todo ser orgânico está se esforçando para aumentar em razão geométrica, que todo ser orgânico, em algum período de sua vida, durante alguma estação do ano, durante todas as gerações ou com intervalos, tem de lutar pela vida e sofrer grande destruição. Quando refletimos sobre esta luta nos podemos consolar com a completa segurança de que a guerra na natureza não é incessante, que não se sente nenhum medo, que a morte é geralmente rápida e que o vigoroso, o sadio, o feliz, sobrevive e se multiplica.”

Referências:

DARWIN, Charles. Origem das espécies, 1a. ed. Tradução de Eugênio Amado. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2002.

___. Origem das espécies, 6a. ed. Tradução de  André Mesquita. São Paulo: Ed. Escala, 2009. [EDIÇÃO NÃO RECOMENDADA PELO GRUPO]

___. On the origin of species by means of natural selection. 1a. ed. Londres: John Murray ed., 1859. Disponível em:<http://darwin-online.org.uk/).

___. The origin of species by means of natural selection. 6a. ed. Londres: John Murray ed., 1876. Disponível em:<http://darwin-online.org.uk/).

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