Origem das espécies – capítulo 2

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 Edição portuguesa da Origem publicada em Lisboa pela Verbo – Babel em 2011. Tradução de Madalena Alfaia. Introdução de Michael Ruse.

O segundo capítulo trata da “Variação na natureza” e do problema em torno da difícil definição dos conceitos de espécie e variedade. É aqui, quando Darwin fala das diferenças individuais, que aparece pela primeira vez o termo “seleção natural” (p. 49), já prometido no capítulo anterior (p. 35, 37) como “seleção”. Num aparente diálogo com os anatomistas e naturalistas não transformacionistas de seu tempo, ele vai fortalecendo seu argumento de que os fatores externos não são determinantes: “vemos variações que não são nem de utilidade nem de prejuízo para a espécie e que, portanto, a seleção natural não se empenhou em tornar essas modificações em definitivas” (p. 50).

É neste capítulo também que aparece a primeira referência a Fritz Müller (1822-1897), naturalista alemão radicado em Blumenau, que colaborou deveras com Darwin, como demonstram as referências na Origem (p. 50), as cartas que trocaram e o apelido que recebera dele, Príncipe dos Observadores. É uma história que vale a pena explorar um pouco mais, fica aqui o registro.

As espécies duvidosas agravam o problema conceitual, tendo em vista que é possível haver um naturalista que classifique uma forma como espécie, enquanto outro a classificaria como variedade ou espécie incipiente. No caso dos fixistas e criacionistas, o problema é ainda pior, já que a mínima variação pode ser classificada como outra espécie criada separadamente. Afinal, que critério usar para definir uma espécie? Distância? Distribuição geográfica? Variação analógica? Difícil dizer, considerando-se a mutabilidade das espécies e a capacidade dos “mutantes” de viverem em ambientes diferentes e de terem comportamentos diferentes. Então Darwin diz (p. 56, meu grifo):

“Considero as diferenças individuais, apesar de seu pequeno interesse para o classificador, como da maior importância para nós, uma vez que são os primeiros passos para aquelas variedades que raramente são consideradas dignas de ser consignadas nas obras de História Natural. E considero as variedades que são de algum modo mais diferentes e permanentes como passos para variedades mais intensamente caracterizadas e permanentes, e estas últimas como conduzindo às subespécies e depois às espécies. A transição de um grau de diferença a outro pode ser em muitos casos o simples resultado da natureza  do organismo e das diferentes condições físicas a que tenha estado exposto longo tempo; mas, no que se refere às características mais importantes de adaptação, a passagem de um grau de diferença a outro pode atribuir-se seguramente à ação acumulativa da seleção natural, que se explicará mais adiante, e aos resultados do crescente uso ou desuso dos órgãos.”

Parece, então, que podemos dizer que adaptação = herança (causa interna) + uso/desuso (causa externa). Como vimos no primeiro capítulo, para Darwin, as causas internas são mais importantes.

Uma questão que surgiu durante a leitura é: Onde ocorre a seleção natural? No indivíduo ou na população? Aparentemente, a variação é no nível do indivíduo, e a seleção, no nível da população. Mas aguardemos o desdobramento disso.

Seguindo no seu argumento, Darwin nos apresenta às espécies predominantes, que são aquelas que ocupam maior extensão territorial, são mais numerosas e apresentam maior distribuição numa mesma área. Por conta de terem superado a concorrência e as diferentes condições físicas, são essas as que mais variam e, portanto, as mais aptas a produzir descendentes que, ainda que ligeiramente modificados, herdam suas vantagens (p. 56-58). Ou seja, a quantidade de variedades está relacionada diretamente com o sucesso da espécie. Analogicamente, o mesmo ocorre com os gêneros: “Nos gêneros que numa região têm um número de espécies maior do que a média, as espécies têm mais variedades do que a média. […] E podemos compreender claramente estas analogias se as espécies existiram em outro tempo como variedades e se destas se originaram; por outro lado, estas analogias são completamente inexplicáveis se as espécies são criações independentes.” (p. 61). Após essa pá de cal na “criação”, Darwin encerra o capítulo.

Referência:

DARWIN, Charles. A origem das espécies. Tradução de André Campos Mesquita. SP: Editora Escala, 2009. [EDIÇÃO NÃO RECOMENDADA PELO GRUPO]

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