Ciência em ação I

livrosBrunoLatour_CienciaEmAcado

Neste ano, o objeto dos nossos seminários será o livro Ciência em ação do Bruno Latour, escrito em 1987, publicado no Brasil em 2000 (primeira edição) pela Unesp, com tradução do inglês (sim, Latour escreveu em inglês, e não em francês) de Ivone Benedetti. A segunda edição é de 2011. Assim como o Representar e intervir do Hacking, que estudamos no ano passado, esta é uma publicação importante para mapearmos esse campo do conhecimento que, por ora, estamos chamando de Science Studies, e que se caracteriza, entre outros traços, por se aproximar da prática científica a fim de produzir uma imagem de ciência mais realista do que a da Filosofia da Ciência, da Sociologia da Ciência e da História da Ciência isoladas. Aliás, esta é uma outra característica: a interdisciplinaridade. E isso já se vê nas formações dos autores dos Science Studies. O Hacking é filósofo, o Latour sociólogo, há também historiadores da ciência, como o Peter Galison etc.

 

No sentido da prática científica, da ciência tal qual se faz, o título do livro é eloquente, bem como o subtítulo – “como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora”, que, além de carregar um sentido metodológico, um “como fazer” dos Science Studies, traz à cena principal um personagem que o Hacking já destacara em seu livro: o engenheiro. Daí a área também ser chamada de Estudos de CTS, afinal, não é possível pensar a ciência hoje sem a tecnologia e a relação de ambas com a sociedade. Como veremos adiante, Latour fala sobre isso na parte final da introdução.

Já falaremos das caixas-pretas, que ele define no início da introdução, mas vale aqui destacar a preocupação dele em aproximar a ciência da sociedade, do público em geral, de pensar um “como fazer ciência na democracia”, que, por sinal é o subtítulo de outro livro seu, o Políticas da natureza, lançado aqui no Brasil em 2004 pela EdUSC. Por essas e por outras, parece que as sementes lançadas por Feyerabend produziram frutos suculentos nos Science Studies, como se vê também na dedicatória do livro The science studies reader (Biagioli, 1999), uma obra coletiva com artigos de vários desses autores, inclusive Hacking e Latour, que foi publicada pela Routledge em 1999: “Dedicado à memória de Paul Feyerabend”.

Além de podermos considerar o Latour um dos pioneiros da área, assim como o Hacking, seu trabalho hoje está muito em voga por conta da sua explícita atenção às questões da sociedade e da ecologia, que, como vimos, não aparecem em Hacking. Para usar um termo do nosso amigo André Mendonça, que nos visitou no ano passado, Hacking sofre de uma anemia política, o que não se aplicaria certamente ao Latour. Para se ter uma ideia, seu mais recente projeto se chama AIME (An Inquiry into Modes of Existence), um trabalho de 25 anos que virou livro no ano passado (clique aqui para ver mais detalhes).

Voltando ao objeto do nosso seminário, na introdução somos apresentados às caixas-pretas da ciência, à sua porta de entrada pela controvérsia, às suas duas faces (p. 1-11), às contradições aí implicadas (p. 11-21) e à primeira regra metodológica com direito à já mencionada reflexão sobre os Science Studies, a sua diferença em relação a outras perspectivas e seus pontos fortes e fracos (22-26).

Num estilo de escrita claro e teatral (ele divide a introdução em cenas), Latour nos apresenta o conceito de caixa-preta, que ele pede emprestado à cibernética (p. 4): se uma máquina torna-se complexa demais, ela passa a ser representada por uma caixa-preta, “a respeito da qual não é preciso saber nada, a não ser o que nela entra e o que dela sai”. As cenas tomadas como exemplo são as histórias de um fato científico (o conceito de dupla hélice) e de um artefato técnico (o computador Eclipse MV/8000), que nos mostram todo o longo e árduo percurso da construção de ambos, respectivamente em 1951 e 1980, de modo que, numa outra cena em 1985, já tomados como caixas-pretas, são usados por outros personagens sem a menor sombra de todas as dificuldades envolvidas no seu processo de construção. Para os personagens dessa última cena, o fato e o artefato já são tomados em conjunto para resolver outro tipo de problema, no caso, a “criação de programas capazes de produzir imagens tridimensionais das hélices de DNA e relacioná-las com as milhares de novas sequências de ácido nucleico” (p. 1). Ou seja, as caixas-pretas tornam invisível todo o processo de construção do respectivo fato ou artefato, que implica uma série de problemas e controvérsias.

E é justamente por aí que Latour propõe que entremos nas questões de ciência e tecnologia (C&T). Em vez da ciência pronta das caixas-pretas, a ciência em construção com suas controvérsias. Para essa dupla face da ciência – uma que sabe e outra que não sabe -, é convocada a imagem de Jano. Apesar de Latour não citar Kuhn nesse momento, não há como não lembrar da ciência normal quando ele fala em ciência pronta ou acabada (p. 6). Avançando um pouco mais, Latour diz que, ao tomar a ciência em construção, “contexto e conteúdo se confundem” (p. 8), incluindo elementos variados de análise para além do conteúdo técnico-científico, como estilo, organização, estratégia, reputação das pessoas envolvidas etc. Nos termos do nosso autor, para lidar com C&T em construção, o equipamento é leve e variado (p. 10). Variado, pelo que acabamos de ver sobre a mistura dos conteúdos, e leve, porque temos que nos livrar de preconceitos sobre essa distinção entre contextos. Outra imagem mitológica usada por Latour para falar da caixa-preta que se abre deixando escapar montes de controvérsias é a caixa de Pandora (p.11).

Mas como se fecham as caixas-pretas? Latour não dá uma resposta única para isso, e novamente usa a imagem de Jano. Na perspectiva da ciência em construção, sempre falta algo para fechar a caixa-preta, pois fatos e máquinas são sempre subdeterminados, ou seja, nenhum fator isolado é suficiente para explicar o encerramento de uma controvérsia. Na perspectiva da ciência acabada, fatos e máquinas são bem determinados, trata-se de um “faça isto, faça aquilo” (p. 11-21). Nos termos de Latour: “Teremos de aprender a viver com duas vozes contraditórias que falam ao mesmo tempo, uma sobre a ciência em construção, outra sobre a ciência acabada.” (p. 21).

Latour começa a  finalizar a introdução explicitando a primeira regra metodológica (p.22):

“Entraremos em fatos e máquinas enquanto estão em construção; não levaremos conosco preconceitos relativos ao que constitui o saber; observaremos o fechamento das caixas-pretas tomando cuidado de fazer a distinção entre duas explicações contraditórias desse fechamento, uma proferida depois dele, outra enquanto ele está sendo tentado.”

Na sequência, ele apresenta um pouco o campo do conhecimento que aqui ele chama de Estudos de CTS, mostrando que “há um núcleo de problemas e métodos comuns” (p. 25), apesar de ser difícil encontrar acordo sobre o significado desse campo, e sequer sobre o seu próprio nome (ibid.). (Nós aqui, por exemplo, estamos chamando de Science Studies.) Há outras questões problemáticas, como a “organização por disciplina e por objeto” (p. 24), que implica especialidades dentro do próprio campo, e também potencialidades, como abrir “as caixas-pretas para que os leigos possam dar uma olhada” (ibid.). Este é um ponto importante, pois pouco se tem falado sobre o processo de construção da ciência. Quando muito, apresentam-se métodos, discutem-se fundamentos, perigos etc., mas sempre mantendo um afastamento entre o mundo dos especialistas e o mundo dos leigos (p. 23).

Essa questão sobre leigos e especialistas ainda promete dar muito pano para manga, sobretudo considerando que a pergunta de fundo parece ser a feyerabendiana: como fazer ciência na democracia? Ou seja, como fazer  com que os não especialistas possam acompanhar a produção científica? Como reduzir a distância entre ciência e sociedade?

Referências bibliográficas:

BIAGIOLI, M. (Ed.). The science studies reader. Routledge, 1999.

HACKING, I. Representar e intervir. Tradução de Pedro Rocha. Revisão de Antonio Augusto Passos Videira. Introdução de André Mendonça. RJ: EdUERJ, 2012.

LATOUR, Bruno. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. Tradução de Ivone Benedetti. SP: Editora Unesp, 2011.

___. Políticas da natureza: como fazer ciência na democracia. Tradução de Carlos Aurélio Mota de SouzaBauru/SP: EDUSC, 2004.

 

Uma resposta

  1. WENDELL SELES BORGES | Responder

    Uma delícia reler esse resumo! Um grande abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s