Origem das espécies – capítulo 1

origemRosa

Edição portuguesa da Origem publicada pelo jornal Público (Coleção 20 Livros que Mudaram o Mundo) em 2013. 

Seguindo a nossa leitura, adentramos no primeiro capítulo, “Variação em estado doméstico”, cuja primeira seção, “Causas da variabilidade”, trata de demonstrar que as causas internas (natureza do organismo) são mais importantes que as externas (natureza das condições de vida).

Segundo Darwin, as causas externas podem atuar “diretamente sobre todo o organismo ou apenas sobre algumas partes, e indiretamente, afetando o aparelho reprodutor” (p. 20). Os efeitos, por sua vez, podem ser determinados ou indeterminados, ou seja, se toda (ou quase toda) a descendência apresentar as mesmas variações nas mesmas condições ao longo de várias gerações, dizemos que a variabilidade é determinada; caso contrário, indeterminada.

A questão do tempo é fundamental: “para que se produza alguma variação importante, [os seres vivos] têm de estar expostos durante várias gerações a condições novas e […], uma vez que o organismo começou a variar, continua geralmente variando durante muitas gerações” (p. 20). A metáfora da centelha e das chamas que finaliza a seção é eloquente (p. 22). Nunca é demais lembrar que a voz de Darwin ecoa da Inglaterra vitoriana do século XIX. Ou seja, a religião é que norteava essas questões e, segundo a Bíblia, a gênese da vida ocorreu há alguns milhares de anos, ao passo que Darwin estava propondo algo na casa dos milhões. Hoje já trabalhamos com um tempo mil vezes maior, em torno de 4 bilhões.

A segunda seção se chama “Efeitos do hábito e do uso e desuso do órgãos; variação correlativa; hereditariedade” (p. 23). Aqui Darwin introduz a questão da hereditariedade, falando que mudanças de hábito e de uso/desuso produzem um efeito hereditário. Ele só se detém na variação correlativa e diz que as variações não hereditárias não interessam para o seu argumento (p. 24).

O apelo à experiência prática também se destaca: “Nenhum criador duvida da força que tem a tendência à hereditariedade; que o semelhante produz o semelhante é sua crença fundamental; somente autores teóricos suscitam dúvidas sobre esse princípio.” (p. 24) No entanto, Darwin reconhece as suas limitações, afirmando que a maioria das leis da hereditariedade são desconhecidas (ibid.).

Na sequência, Darwin trata de “Características das variedades domésticas; dificuldade da distinção entre variedades e espécies; origem das variedades domésticas a partir de uma ou de várias espécies” (p. 26-29). Como o próprio nome da seção indica, ele apresenta o problema da classificação e da origem das variedades domésticas. No entanto, ao contrário de Wallace (1889, p. 1-13), que começa didaticamente seu livro Darwinismo já definindo os conceitos de espécie e origem, nosso autor usa outra estratégia textual para preparar o seu argumento: a analogia. Para começar, vale lembrar que “doméstico”, nesse texto, significa “selecionado artificialmente”. E é a partir da inquestionável experiência prática de séculos de domesticação de animais e plantas que Darwin fala da seleção artificial para, mais adiante, dar o salto para o seu conceito-chave: a seleção natural. Antes disso, porém, ele detalha exaustivamente as questões da seleção artificial, especialmente dos pombos, que são o tema da seção seguinte, “Raças do pombo doméstico; suas diferenças e origem” (p. 30-36). O problemático conceito de “raça”, que aparece também no subtítulo do livro, “Preservação das raças favorecidas na luta pela vida” (não traduzido nas versões brasileiras), não é definido por Darwin, mas parece que podemos entendê-lo como sinônimo de “espécie”. Ele coloca a questão da origem comum, no caso dos pombos a Columba livia, e critica os naturalistas que, ao contrário dos criadores de pombos, não admitem isso: “Esses naturalistas sabem muito menos das leis da hereditariedade do que sabem os criadores, e não sabem mais do que eles sobre os elos intermediários das longas linhas genealógicas, embora admitam que muitas espécies de nossas raças domésticas descendem dos mesmos pais. Será que eles não poderiam aprender uma lição de prudência antes de zombar da ideia de que as espécies em estado natural sejam descendentes diretos de outras espécies?” (p. 36, trecho revisado por mim).

A seção a seguir trata dos princípios de seleção antigos e seus efeitos (p. 36-39). É aqui que aparece o termo “adaptação” pela primeira vez: “Um dos traços característicos das raças domésticas é que vemos nelas adaptações, não certamente para o próprio bem do animal ou planta, mas para o uso e capricho do homem.” (p. 36) Ele ainda diz que, diante da enorme quantidade de espécies úteis ao homem, é preciso “ver algo mais do que simples variabilidade. Não podemos supor que todas as raças se produziram de repente tão perfeitas e tão úteis como agora as vemos; realmente, em muitos casos sabemos que não foi esta sua história. A chave está na faculdade que tem o homem de selecionar acumulando; a natureza dá variações sucessivas; o homem as soma em certa direção útil para ele” (ibid.). Isso inclui, decerto, a seleção continuada das melhores variações para reprodução. Afinal, como diz Darwin, “Teria sido realmente um fato estranho que não se tivesse prestado atenção a filhotes, pois é tão evidente a hereditariedade das boas e más qualidades.” (p. 39)

Darwin ainda fala da seleção inconsciente (p. 39-43), que é mais lenta do que a seleção metódica, mas que produz resultados igualmente  eficazes. Nessa seção, várias vezes ele usa termos como “melhoria”, “superioridade” e “aperfeiçoamento” quando se refere às variações selecionadas inconsciente ou acidentalmente e que foram produzindo mudança gradual na espécie. Uma questão a se pensar é se isso se aplica somente à seleção artificial, ou também à seleção natural, ao contrário das nossas expectativas. Outro ponto que incomoda nos exemplos dessa seção, mas seria um anacronismo cobrar outra postura de Darwin, são as referências a selvagens, países semicivilizados, homens primitivos etc. No último parágrafo dessa seção ele ainda faz uma analogia entre raça e língua: “Mas, de fato, de uma raça, como de um dialeto de uma língua, dificilmente pode se dizer que tenha uma origem definida. Alguém conserva um indivíduo com alguma diferença de conformação e obtém um descendente dele, ou cuida mais que o normal em cruzar seus melhores animais e assim os aperfeiçoa, e os animais aperfeiçoados se estendem lentamente pelos arredores mais próximos; mas dificilmente terão ainda um nome diferente e, por não ser muito estimados, sua história terá passado inadvertida.” (p. 42-43).

Para finalizar o capítulo sobre a variação em estado doméstico, Darwin fala das “Circunstâncias favoráveis à capacidade seletiva do homem” (p. 43-46). Ele começa afirmando que “as variações úteis ou agradáveis ao homem aparecem só de vez em quando, as probabilidades de sua aparição aumentarão muito quando se tenha um grande número de indivíduos; o número é consequentemente de suma importância para o sucesso” (p. 43). Outro fator importante é a estima do homem pelo animal ou planta em questão, para que ele possa se dedicar e perceber as mais ligeiras variações. Darwin também fala sobre os limites de variação e diz que nada impede que, após alcançar o seu limite de variação e permanecer fixo por séculos, o animal ou a planta, em novas condições de vida, volte a variar (p. 44-45). O que importa é que “as variedades domésticas da mesma espécie diferem entre si” e que a “mudança de condições de vida é de suma importância na produção da variabilidade, tanto atuando diretamente sobre o organismo como indiretamente influindo no aparelho reprodutor”, embora as leis dessa variabilidade sejam desconhecidas (p. 45). O uso/desuso de órgãos é um fator importante, mas a principal causa de mudança, segundo Darwin, é “a ação acumulada da seleção, quer aplicada metódica e ativamente, quer inconsciente e lentamente” (p. 46, trecho revisado por mim).

Referências:

DARWIN, Charles. A origem das espécies. Tradução de André Campos Mesquita. SP: Editora Escala, 2009. [EDIÇÃO NÃO RECOMENDADA PELO GRUPO]

WALLACE, Alfred. Darwinism. Londres: Macmillan and co., 1889. Disponível em: <http://wallace-online.org/>. Acesso em 25 de dezembro de 2014.

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