Representar e intervir VII

hacking_ian-20000120Na segunda parte do livro, Hacking sai da representação e passa à intervenção, ou seja, em vez dos problemas relacionados às teorias científicas com os quais tem lidado a filosofia da ciência tradicional, ele passa a enfatizar os problemas da prática científica. Para dar conta disso, escreve 8 capítulos: 1) experimento; 2) observação; 3) microscópios; 4) especulação, cálculo, modelos e aproximações; 5) criação de fenômenos; 6) medição; 7) tópicos baconianos; e 8) experimentação e realismo científico.

No capítulo “Experimento” (p. 235-254), Hacking começa a sua jornada para demonstrar que o laboratório tem vida própria pois se trata de um saber fazer de tradições (uma situação coletiva) e que devemos nos voltar para uma filosofia da ciência do experimento. É no vocabulário no início desse capítulo que se percebe a sua adesão ao estudo da prática científica dos science studies e a sua filiação baconiana. Ele fala em uso do conhecimento para mudar o mundo, estudo dos experimentos e da tecnologia, e também das novas formas de se fazer ciência que surgem com a revolução científica, com suas novas instituições e comunicações. Hacking chega a afirmar que essa distinção entre teóricos e experimentais reflete um problema de classes e castas (p. 236-238), com uma tendência da filosofia a desprezar o experimento. Na sequência, ele faz uma breve discussão sobre o método científico (p. 238-241), sobretudo a questão popperiana de a observação ser carregada de teoria e o reflexo disso numa história da ciência que sempre prioriza a teoria. Fala, então, numa reescrita da história (p. 248) com ênfase no experimento. Daí se segue uma série de exemplos para mostrar como teoria e experimento se relacionam das mais diferentes formas, e não somente no sentido de uma anteceder a outra. Uma das últimas frases desse capítulo é eloquente: “a experimentação possui muitas vidas próprias” (p. 254).

O capítulo “Observação” (p. 255-277) dá continuidade ao problema do capítulo anterior e nos lembra que a observação não se dá só através da visão e que não é só questão de linguagem, mas de habilidade. Hacking transita pelos filósofos da ciência e da linguagem, desmontando seus argumentos de que a teoria precede a observação. Sua intenção é desdobrar a ideia de que nem todo experimento contém pressuposições teóricas. Para isso, revê o conceito de observação e apresenta vários exemplos. O capítulo seguinte, “Microscópios”, que detalha ainda mais essa questão, foi resumido pela Lígia em outro post. Para vê-lo, clique aqui.

No capítulo “Especulação, cálculo, modelos e aproximações” (p. 307-318), Hacking deixa claro que a relação entre teoria e experimento é complexa. Ele fala em níveis de teorias (p. ex., fé na unidade da ciência, analogia, representação, modelo físico, simetria e explicação física) e intermediários entre teoria e experimento, como os que estão no título do capítulo. A especulação é qualitativa com elementos quantitativos; o cálculo é a alteração matemática da especulação para que se adeque melhor ao mundo; os modelos são ampliações pictórico-matemáticas do esquema hipotético-dedutivo, que nada mais são do que aproximações. Seu papel (p. 315) é ser tratável matematicamente de modo a ser compatível com a mente humana e as técnicas computacionais vigentes.   Nos termos de Feyerabend, talvez pudéssemos falar que são todos tentativas de “conquista da abundância”. Hacking finaliza o capítulo com uma bela imagem, afirmando sua preferência pela biblioteca borgiana (cada livro é simples, mas inconsistente com os outros, ou seja, nenhum livro é redundante) em lugar dos projetos unificadores. Em suas palavras: “a melhor maneira de maximizar os fenômenos, mantendo a simplicidade das leis, é por meio de leis inconsistentes entre si, cada qual aplicável a uma coisa específica, e nenhuma aplicável a tudo” (p. 318).

Na sequência, Hacking vai falar da criação de fenômenos (p. 319-332): é no laboratório que se criam os fenômenos, e é lá que eles são reais. Transitando pelo conceito de fenômeno e pela sua associação com a noção de regularidade, nosso autor vai mostrar também como surge o conceito de “efeito” na física para distinguir os “fenômenos realmente instrutivos” (p. 323). Para ele, tanto fenômenos quanto efeitos são regulares, mas só os efeitos implicam intervenção, ou seja, são produzidos em laboratório e dependem de aparatos e invenções construídos pelo homem. É nesse sentido que Hacking vai dizer que os fenômenos são raros e que “a maior parte dos fenômenos da física moderna é manufaturada” (p. 328). Em relação à questão da teoria, problematizada nos capítulos anteriores, Hacking apresenta exemplos de fenômenos criados antes e depois dela, mas a polêmica maior é quando ele afirma que os “experimentos não funcionam na maior parte das vezes” (p. 330) e que “ninguém jamais repete um experimento” (p. 331). Mas ele se explica: “Experimentar é criar, produzir, refinar e estabilizar os fenômenos. Se estes fossem abundantes na natureza […], o não funcionamento dos experimentos seria estranhíssimo. Mas os fenômenos são difíceis de serem produzidos de qualquer forma estável.” Daí o destaque que ele vai dar para a questão instrumental e para a habilidade do experimentador com os equipamentos. A repetição do experimento, portanto, seria tentar “fazer a mesma coisa de forma melhor, ou seja, de modo a produzir uma versão do mesmo fenômeno que seja mais estável e menos poluída de interferências” (p. 331). E isso normalmente é feito com outros equipamentos. Para Hacking, isso se aplica inclusive às medições, que são o tema do capítulo seguinte (p. 333-348), no qual ele aprofunda mais esse argumento com algumas incursões históricas, mostrando que algumas medições são feitas para testar teorias, e outras para determinar constantes da natureza.

Antes do último ato, Hacking ainda faz um elogio baconiano (p. 349-367), afirmando que Bacon foi o primeiro filósofo do experimento. É ainda neste capítulo que ele responde à clássica pergunta de Feyerabend: o que há de tão especial sobre a ciência? Para o nosso autor, a resposta é clara: é a “colaboração entre tipos diferentes de pessoas: os especuladores, os calculadores e os experimentadores” (p. 351). Ou seja, ao articular a teoria, o cálculo e o experimento, a ciência se distingue de outros saberes (como as ciências sociais) que até podem ter as três habilidades, mas que não as articulam. Relembrando Bacon, Hacking fala das instâncias prerrogativas, dos experimentos cruciais e da não distinção entre observação e experimento (p. 352-354), mostrando a diferença entre essa abordagem e a filosofia da ciência de Popper e Lakatos, por exemplo, que é notadamente focada na teoria. Ele finaliza esse capítulo destacando a filosofia de ambos os autores, mas não sem criticar algumas de suas interpretações (como a de Lakatos sobre o experimento de Michelson-Morley), o que o leva a concluir que a teoria pode desvirtuar a filosofia do experimento, pois pode “nos tornar cegos para a realidade” (p. 367). Suas últimas palavras reciclam uma metáfora interessante de Bacon: “A ciência, conforme nos escreveu Bacon, precisa ser como a abelha, que, possuidora dos talentos tanto da formiga quanto da aranha, é capaz de fazer mais do que elas separadamente, pois digere e interpreta tanto os experimentos quanto a especulação.” (ibid.)

Para finalizar, no último capítulo do livro, “Experimentação e realismo científico” (p. 369-384), Hacking tece os fios do seu argumento experimental para o realismo, que passam pelo seguinte: não tem como não ser realista científico (de entidades inobserváveis) se você interfere no mundo, trata os objetos dos experimentos como ferramentas e toma o real como garantido. Ou seja, para ser real não basta experimentar, tem que manipular. Voltando à querela entre o realismo de teorias e o de entidades, Hacking diz que o primeiro está muito mais sujeito  a valores do que o segundo, considerado por ele como mais neutro (p. 371), já que o experimentador lida com teorias do presente, e não teorias ideais; não há núcleo teórico comum; e não há crenças compartilhadas. Em suas palavras: “O fato é que o realismo científico de teorias precisa adotar os princípios peircianos de fé, esperança e caridade. O realismo científico de entidades não precisa de tais virtudes, ele advém daquilo que podemos realizar no presente.” (p. 372). Ele retoma a crítica à filosofia e à história da ciência, normalmente contaminadas pela teorização (p. 373), apresenta mais alguns exemplos e fala num resgate da análise dos erros sistemáticos. Hacking ainda aproveita para defender alguns pontos da agenda dos science studies: 1) “pensemos sobre a prática, e não sobre a teoria” (p. 383); 2) relembra que não está dizendo que a realidade é construída pela manipulação, a pauta dele é bem menos ambiciosa, ele está tratando do realismo científico, dizendo que “a realidade é muito maior do que nós” (p. 384); e 3) destaca o papel da engenharia, que ele considera “a melhor prova do realismo científico de entidades” (ibid.).

Diante da leitura do livro do Hacking, alguns pontos podem ser destacados:

1) o laboratório tem vida própria, é uma situação coletiva, um saber fazer;

2) o real é real, mas também construído; o real é maior do que nós;

3) proposta de outro papel para a filosofia da ciência: pensar a prática científica, o experimento;

4) a ciência lida com processos de estabilização diante do devir, e não com produtos;

5) pluralismo teórico, desunidade da ciência;

6) manipulação como critério de demarcação do real;

7) o laboratório é a principal evidência do realismo científico; não é garantia causal nem epistemológica, e sim metafísica (pragmática).

Algumas questões que nos incomodaram durante a leitura:

1) Aparente adesão de Hacking às teorias e aos saberes predominantes;

2) Distinção entre ciências naturais e ciências sociais;

3) Opção por uma filosofia da ciência do experimento por ele ser supostamente menos carregado de valores do que a teoria;

4) Anemia política, naturalização da história

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