Representar e intervir V

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Como vimos, Hacking apresentou a discussão dos antirrealistas (positivistas, pragmatistas e incomensurabilistas), mostrou o relato de Putnam para dar conta da incomensurabilidade de significado, mas acabou revelando a sua deriva do realismo para o antirrealismo. Nesse movimento, Putnam aproxima-se de Kuhn, e Hacking os denomina de nominalistas transcendentais, sendo o primeiro conservador, e o segundo, revolucionário. Para finalizar a primeira parte do livro, Hacking ainda aponta para outro caminho da filosofia da ciência “da teoria”, que é o que ele aborda no capítulo “Um substituto para a verdade” (p. 191-210).

Sobre os ombros de Lakatos, Hacking avança mais um passo no seu argumento sobre o caminho que a filosofia da ciência percorre quando enfatiza a epistemologia (racionalidade), e não a metafísica (verdade, realidade). Nesse cenário lakatosiano de reconstrução racional, o crescimento do conhecimento toma o lugar da verdade. O foco, como já sabemos, é nas teorias, na metodologia, no antídoto contra Kuhn, no falseacionismo e nos programas de pesquisa.

Hacking não está interessado nisso, ele diz que “Lakatos não pode nos ajudar” (p. 199), tendo em vista que o que ele propõe é uma boa metodologia para a história da ciência. Ainda assim, a história interna de Lakatos, apesar de criar uma imagem objetiva da ciência, ao mesmo tempo a torna inumana (p. 204), pois é pura abstração e exclui subjetividades. Ademais, trata-se de uma história normativa, que atribui a fatores externos a irracionalidade e os erros ocorridos. No entanto, ele finaliza a primeira parte do livro destacando o empenho de Lakatos em “caracterizar certos valores objetivos da ciência ocidental sem apelar a teorias da verdade” (p. 210). Nisso Hacking está interessado.

Antes de ir para a segunda parte do livro. há uma “Pausa: reais e representações” (p. 211-231), em que Hacking faz uma digressão antropológico-filosófica e sintetiza os problemas de tratar o realismo e o antirrealismo na perspectiva da representação (semelhanças, linguagem, critérios). “O realismo e o antirrealismo brigam entre si, tentando vencer um ao outro por meio de argumentos a respeito da natureza da representação. Mas não há nada ali.” (p. 229). Para ele, essa discussão será sempre aporética.

A proposta de Hacking é “lançar as bases para um realismo incontroverso” (p. 212), é tratar o realismo como intervenção, é fazer uma filosofia da ciência do experimento, e é isso que ele fará na sequência: “trataremos como real aquilo que podemos utilizar para intervir no mundo de forma a afetar algo, ou aquilo que o mundo utiliza para nos afetar” (p. 231).

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